quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O Apóstolo II - Os seus deveres na sociedade moderna - Parte Final

Padre Emmanuel de Gibergues



É preciso que tenha idéias profundamente arraigadas, convicções. Não deveis ser partidários, meus senhores, mas deveis saber tomar o partido da verdade, da justiça, de Deus, e traduzir as vossas convicções, mas duma maneira clara e precisa. Esta é a única condição de persuadirdes o espírito dos outros, sobretudo o espírito do povo. Os desprezadores, os desdenhosos, os negativos, nunca tiveram ação sobre o povo. O povo nada compreende das recriminações estéreis; não isenta senão os que têm idéias claras, um plano positivo e simples, aqueles que lhe mostram claramente o que devem destruir ou edificar. As idéias que caminham, que triunfam, são as idéias nítidas, positivas e simples.
Sobretudo, meus senhores, com o espírito moderno, é preciso não haver o aspecto de querer impôr, mas sim o de propôr e persuadir. Não é pelas exterioridades nem pelo constrangimento, que se fará a restauração das almas, a estabilidade das inteligências, e o equilíbrio das vontades. É a consciência individual que deve ser esclarecida e renovada, para que a consciência nacional o seja. Isso não se fará nem por leis, nem pela autoridade, apesar de contribuírem para isso, mas pela persuasão e pelos ensinamentos, como toda a obra de luz e de verdade. É da dignidade do homem, não ser guiado como o animal, mas sim dirigido pelos sentimentos e pela razão. O povo também não se conduz como uma criança, mas como um adulto. É preciso esclarecer o seu espírito, persuadi-lo, levá-lo a compreender e a submeter-se à verdade.
Enfim, as idéias do apostolo devem ser essencialmente desinteressadas, para prevalecerem. E Jesus Cristo foi-o no supremo grau. Tinha o direito de dizer: “Não procuro a minha glória, mas a glória de meu Pai; a minha doutrina não é minha, é a doutrina d' Aquele que me enviou”. Não encontrou nela interesse pessoal, vantagem humana. Como recompensa da Sua propaganda de idéias, não recebeu senão humilhações, sofrimentos e a morte; deveu o Seu suplício ao Seu desinteresse; mas deveu-lhe também o triunfo das idéias que trazia ao mundo, e todos os Seus apóstolos fizeram como Ele.
É que a verdade não é do homem; a sua força está em que vem de mais alto do que ele; mas é preciso que se faça sentir, e o povo é muito desconfiado a este respeito. “Que interesse tem ele em dizer isto? ou mais explicitamente, o que ganha com isto?” É a pergunta que se faz sempre. Fazem-no-la em nossas missões do campo e subúrbios, por ocasião de nossas visitas aos domicílios: “Quanto lhe pagam por isto?” Tomam-nos por mercenários, assalariados. Não se quer, não se pode crer na propaganda desinteressada das idéias.
Mas, quando se chega a crer, é um espanto, primeiramente, em seguida: uma atração poderosa. “Estes homens não ganham nada pelo que fazem. Só trabalham pela verdade, pela justiça e pelo bem; são homens de Deus: devemos crê-los!”
Assim raciocina o povo.
Tomai cuidado, meus senhores, que as vossas idéias não sejam maculadas pelo interesse pessoal; que o catolicismo não seja, para vós, uma sorte de machina governamental, instrumento político. Tomai cuidado, que, em vez de pensardes na reforma da sociedade segundo as idéias do catolicismo, não ambicioneis sujeitar o catolicismo à idéia que fazeis da sociedade; seria um erro e um perigo grave.
Lembrai-vos de Napoleão e Pio VII.
A religião está acima de tudo; não deve ser escravizada; afastaríeis do catolicismo um grande número de almas generosas, que fariam, unicamente, da religião de Jesus Cristo, a idéia duma sentinela, ocupada em velar pelos humanos, pelos tronos ou pelas caixas-fortes, e do padre, uma espécie de soldado moral de batina, e da Igreja, um servo de partido.
Que as vossas idéias, meus senhores, não sejam as vossas idéias, mas as idéias do Evangelho. Que a vossa doutrina não seja a vossa doutrina, mas a doutrina de Jesus Cristo. Não procureis senão a justiça e o bem. Que o desinteresse brilhe em todas as vossas convicções, é a condição essencial, para que o sucesso seja completo.

Jesus Cristo não fez só obra de inteligência e de luz; mas fez obra de vontade e de atividade. Não veio só em testemunho da verdade, mas como salvador das almas. Venit Filius hominis quaerere et salvum facere quod perierat.[1] E, para ter mais poder sobre nós, começou por fazer antes de dizer: capit facere et docere.[2] Deu-nos o exemplo, antes do preceito: Exemplum dedi vobis.[3]
Os apóstolos fizeram como Ele. Lembrando-se que eram o sol da terra, foram até aos confins da terra. A sua atividade não conheceu limites; dirigiram-se aos Gentios, como aos Judeus, aos Gregos, aos Romanos, aos Bárbaros; trabalharam, lutaram, sofreram, pagaram com a sua pessoa, e teriam podido dizer todos como um deles: Imitatores mei estote, sicut et ego Christi.[4]
O apóstolo moderno não deve ser só uma testemunha da verdade, um homem de luz e convicção, um homem desinteressado, mas um homem de ação e de vontade, um salvador em toda a extensão do termo, e não somente um discursista.
Discursistas temos de sobra.
Discursistas, os turbulentos e inúteis que levam vida alegre, que fazem demonstrações ruidosas, acompanhadas de reuniões alegres, que finalizam por banquetes, onde se proclamam os princípios libertadores; e que, no momento do perigo, não são salvadores, senão de si mesmos!
Discursistas, são aqueles que se contentam em fazer ostentação nos salões e nos clubes, em declamar, julgar e aconselhar!
Discursistas, são todos aqueles que falam em vez de agirem, ou para se dispensarem e se justificarem de o não fazerem!
Discursistas, são os rapazes que falam com muito acerto, mas praticam o contrário, e que fariam corar de vergonha os avós, se eles voltassem do outro a este mundo, pois que não querem compreender que não é o nome que dá honra, mas o uso que se faz dele, e que o nome é um encargo a mais; os rapazes que herdam de seus antepassados, mas que se deserdam, por sua própria vontade, da única herança digna de nome; a do dever, da virtude e da dedicação.
Discursistas, são os hipócritas, os ambiciosos, os vendidos, os fariseus do século vinte, que não crêem nem em uma só palavra do que dizem, que não falam senão com o fim de alcançarem uma popularidade desleal, feita de mentira e astúcia que os encubra e abrigue.
Discursistas temos em demasia!
Mas salvadores, são os homens de convicção e de ação útil, que fazem correr as suas idéias durante a vida, em prol do bem e da salvação de seus irmãos!
Salvadores, são os que sabem pagar com a sua pessoa, e compreender que não são as instituições que fazem bem, mas os homens!
Salvadores, são os rapazes que se apartam das inutilidades de tantos outros, da ociosidade, de todas as seduções da mocidade, das distrações fáceis e dos prazeres elegantes, e, na febre do trabalho, de exame, de posição a conseguir, arranjam ainda tempo, para os padroados, as reuniões apostólicas, as obras pias!
Salvadores, são os pais de família que, desempenhando funções honrosas, embora apertados pelos deveres dos seus cargos e da sua posição, vão levar aos trabalhadores, aos pobres, aos humildes, alguma coisa de seu tempo, de sua inteligência, de sua dedicação; vão falar-lhes do que lhes diz respeito, interessar-se pelos seus trabalhos e por suas vidas!
Salvadores, são os instrutores da mocidade, os Irmãos e Irmãs da caridade, os padres e religiosos que renunciaram às doçuras do lar, às alegrias da família, a tudo, para consagrarem a sua vida ao bem e à felicidade dos outros, a elevar os espíritos, a aliviar os corpos, a fortalecer as almas, a distribuir, por todos os que sofrem, os benefícios de uma dedicação, que é inesgotável, porque vem do Infinito, e volta para ele!
Eis ao que se dá o nome de salvadores! Já os temos; que Deus os multiplique! ...
Como deverá praticar o católico para ser salvador? Deverá exortar os católicos, e os que o não são, ou que só o são de nome.
Aos católicos, pregará a união e a vida. Far-lhes-á sentir a vacuidade das discussões apaixonadas, das polêmicas violentas, o mal que fazem aos que ofendem e afastam, o mal que fazem aqueles que a empregam, o tempo que se perde nisso e que se rouba à ação, ao bem, ao país. Far-se-á o eixo das exortações constantes do Soberano Pontífice, à conciliação, à paz, à concordância e à união.
Deixando de parte as antigas brigas, as palavras agressivas, irritantes, provocadoras, os epítetos que dividem ou causam desconfiança, mostrará que a união não se pode fazer, senão desfazendo-se de tudo o que é pessoal, humano, terrestre, e, por consequência, frágil e perecedouro, e elevando-se a tudo o que é necessário, divino: in necessariis unitas.[5]
Mas a união, o necessário, o divino não são a imobilidade e a morte. Pregarão a vida, a avançada, o progresso, a ação eficaz, sob todas as suas formas, com a prudência da serpente, mas também com a simplicidade, a elevação, a rapidez da pomba.
Aos indiferentes, aos hostis, aos não católicos, falarão em toda oportunidade, e em todo o encontro, em toda a parte aonde os encontrem, no quartel, nas escolas, na sociedade. Quantos erros poderão destruir, quantos preconceitos poderão fazer desaparecer, se forem seriamente instruídos, se tiverem o sincero desejo de esclarecer e não de polemicar! Aqueles que atacam a religião, conhecem-na tão pouco e tão mal, que bastará, muitas vezes, reconduzi-los à integridade do ensinamento católico, para confundi-los, ou, antes, reconciliá-los, se forem de boa fé.
Os católicos não esperarão que venham junto deles. Eles irão ter com os que não os procurarem e com os que não podem vir ter com eles, sem que os vão procurar o povo, os camponeses e os operários.
O camponês não entende de teorias; é desconfiado; não compreende mais do que o conselho imediato e prático. É difícil tocá-lo profundamente, se não se viver, ordinariamente, no campo.
Para ele, nada há como a conversação individual a um canto da lareira, na curva dum caminho ou à borda dum campo. Falai-lhe das suas terras, de seus interesses, das suas despesas; ganhei a sua confiança por meio de entrevistas privadas, ou, pelo menos, por conferências periódicas. Então, podereis entrar em questões mais elevadas.
Nos operários rurais, há uma aptidão especial, para compreenderem as teorias e raciocínios; possuem a lucidez do espírito em subido grau. Exercem continuamente sobre os camponeses, seus vizinhos, uma influência extraordinária. São eles que fazem, na maior parte, as eleições. Por meio deles, é que se pode propagar um apostolado. Por meio deles, conferências bem organizadas seriam úteis, e poderiam renovar todo o espírito rural. Veem, em multidão, às missões e não deixariam de vir a conferências leigas.
O mesmo se daria com os trabalhadores das cidades. Mas é a estes que não se devem impôr idéias. Do seu espírito crítico, censurador e liberal, resultaria um insucesso. É preciso lançar mão dos seus defeitos, criticando o que se quer destruir, procedendo por via de pesquisa, e como que procurando a descoberta do que se quer estabelecer. É por este motivo que as conferências dialogadas têm, entre eles, o maior sucesso. Quantas vezes os ouvimos nos dizerem: “Foi isso que me converteu”.
Mas todas as vossas conferências, todas as vossas conversações nada farão, se os princípios que aplicardes não forem os vossos, meus senhores; se a vossa vida não for a confirmação das vossas palavras e da vossa ação social.
O que é o desinteresse para a idéia, é o exemplo para a ação. É o desinteresse que faz aceitar a idéia; é o exemplo que confirma a ação e lhe dá uma força invencível, assim como o exemplo contrário produz a sua negação e destruição.
Sêde ordenados em vossos costumes, casai-vos, e casai os vossos filhos e as vossas filhas cristãmente; não façais deles caçadores de dotes; não receeis ter filhos; edificai os vossos criados com os vossos discursos, e sãos exemplos. Abandonai o luxo ruidoso, as festas escandalosas; renunciai a ociosidade insolente e provocadora; amai a vida familiar; honrai o pastor da vossa aldeia, sem o absorverdes em vosso proveito, isto é, sem o familiarizardes; frequentai a Igreja e os ofício divinos; sustentai as escolas, as obras pias, as associações, sem as fazerdes vossas, mas, pelo contrário, tornando-vos delas.
Esta conduta modesta, digna, dedicada, desinteressada, em uma palavra, cristã, dará às vossas palavras e ações um poder irresistível.

Bem percebeis, meus senhores, que tudo isto se não pode fazer sem amor. A razão do apostolado do Salvador, a sua força é o Seu amor: “Sicut dilexi vos”. Pôs nele todo o Seu coração. O Seu amor agiu duplamente em favor de Seu apostolado. Agiu sobre ele e sobre nós; sobre ele, para sustentá-lo, sobre nós, para nos conquistar.
O amor será também o móvel do nosso apostolado. Ele, e só ele o poderá produzir. Só ele nos tornará capazes de falarmos e agirmos. Só ele sacudirá o fundo de indiferença, de apatia e de egoísmo que se encontra no fundo de todo coração humano. É o fermento que fará levedar toda a massa; que fará desaparecer as repugnâncias naturais que temos, quando se trata de agir e trabalhar para os outros. Jesus Cristo no-lo ordena: hoc est praeceptum meum ut diligatis invicem. E, sabendo como o amor precisa ser grande para uma tal tarefa, é o Seu que nos propõe para modelo: Sicut dilexi vos.
O amor natural, a simpatia natural, de homem para homem, não são suficientes.
Ai! infelizmente, é antes a antipatias e o ódio, que os homens têm uns aos outros; e os grandes, os ricos, os felizes, não são, naturalmente, levados a gozar, a reter tudo, a desdenhar e a desprezar os pequenos?
Só o amor cristão, que vê a Deus no próximo, terá bastante força para fazer de vós verdadeiros apóstolos. Só ele será a fonte inesgotável da caridade, da dedicação ao povo, do nobre cuidado da sua inteligência, da sua vida, da sua alma e do seu corpo.
Também, só o amor cristão saberá conquistar os espíritos, os corações, as almas. A justiça é necessária: é preciso reclamá-la francamente. Sem adular o povo, sem assoprar-lhe a revolta e o ódio dos ricos, sejamos os primeiros a pedir, para ele, a justiça; o soberano Pontífice deu-nos o exemplo.
Mas a justiça não basta; nunca será suficiente; será sempre impotente, incompleta sem a caridade, sem o amor cristão. A justiça não estabelecerá senão um equilíbrio instável, que a menor injustiça, quer parta dos grandes, quer dos pequenos, romperá.
Só a caridade, compensando, pelo sacrifício voluntário, as injustiças, cometidas, assegurará a estabilidade e a paz social. Só ela unirá os corações, as almas, o país, dando aos poderosos a dedicação e o socorro efetivo; e concedendo aos fracos a resignação, o perdão e a paciência.
Mas que espécie de amor às classes elevadas deverão ter pelas classes laboriosas?
Não um amor aristocrático, um amor condescendente; a palavra traduz bem o meu pensamento; não um amor que desce, que parece descer indo até ao povo.
Estaria longe de ser suficiente. O povo não tolera que o humilhem e desprezem. São inúteis as recriminações a este respeito; é assim, e, em seu lugar, seriam os, provavelmente, como ele. O povo não pede que a gente se humilhe diante dele, mas não suporta a insolência e o desprezo; quer que se lhe fale como de homem para homem e com respeito, que o estimem como igual, que creiam nele, que tenham confiança nele, que o tenham em alguma conta.
Não está nisto o amor cristão? Jesus não disse aos Seus apóstolos: “Não vos chamarei servos, mas chamar-vos-ei meus amigos.” [6] Não devemos nós falar, agir sentir, amar, como ele?: Sicut dilexi vos.
É um amor de amigo e de irmão que se nos pede.
O amor cristão vai mais longe. Jesus lançou-Se aos pés dos Seus apóstolos e disse: “Vim para o meio de vós como quem serve.” [7] “Que aquele que quer ser o maior, se faça o menor.”[8] Acrescentou: “O que fizerdes ao menor de meus irmãos, é a mim que o fareis.[9]
O cristão, dirigindo-se aos pequenos, aos humildes, não crê rebaixar-se, mas antes elevar-se; porque a sua fé representa-lhe o pobre como que sobre um trono de glória, aonde ele saúda, honra, ama e serve a Jesus Cristo em sua pessoa.
E ao mesmo tempo que o cristão vê Deus no pobre, faz ver Deus ao pobre; faz-lh'o, de certo modo, tocar, porque o pobre sabe bem que é em nome de Deus que é socorrido, e que só Deus pode inspirar tanta caridade e desinteresse.
Assim compreendido, o amor cristão, a caridade, como seu verdadeiro nome, que é a união do amor de Deus e do amor do próximo, produzirá prodígios: prodígios de apostolado e de zelo, naquele que o praticarem; prodígios de transformação e conquista, sobre aqueles que forem o seu objeto. “Dai-me um ponto de apoio e uma alavanca, dizia um sábio, e levantarei o mundo”.
No mundo moral o ponto de apoio é Deus, a alavanca é a caridade!
O amor conduzir-nos-á à ultima virtude do apóstolo: a dedicação.
Dedicar-se é mais do que amar, é ir até os confins do amor, como Jesus, cujo Evangelho nos diz: In finem dilexit. [10]
Dedicar-se é mais do que dar a inteligência, a atividade, o coração; é dar-se completamente: o corpo, a alma ser e a vida.
Foi assim que Jesus Cristo se deu, foi assim que se tornou o nosso Redentor.
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por aqueles que ama,[11] e eu dou-a: ninguém m'a tira, dou-a livremente.”[12] Eis o Redentor.
Toma sobre Si os pecados dos outros, faz-Se vítima, e, em lugar deles, é imolado. Foi o que fez Jesus Cristo: foi sobre a Cruz que nos resgatou.
Seguindo o Seu exemplo, os apóstolos tornaram-se de todos; gastaram tudo e gastaram-se a si mesmos. Foram os mártires do seu apostolado e os redentores do mundo.
Até aí, meus senhores, devemos ir.
As meias dedicações, na família e na sociedade, não são suficientes; é preciso dedicar-vos como Jesus Cristo, até ao fim, sem vos deixardes embaraçar pelas oposições, os desprezos, os desdéns, as contradições.
Riram do Salvador, caçoaram d’Ele, trataram-no de louco, de possesso; os Seus próprios discípulos abandonaram-nO, renegaram-nO, atraiçoaram-nO; e, quando Ele morreu sobre a cruz, podia-se julgar que a Sua obra estava destruída para sempre. Foi a hora de Seu desabrochamento e do Seu triunfo.
Dedicai-vos como Jesus Cristo, sicut dilexi vos. Como Ele, oferecei as vossas preces, os vossos sofrimentos, as vossas provações, as vossas fadigas, a vossa própria vida pela salvação de vossos irmãos; dedicai-vos até ao martírio! pois “ser mártir, exclama Ozanam, é coisa possível a todos os cristãos; é dar a sua vida em sacrifício, que o sacrifício seja consumado de vez como o holocausto, ou que se efetue lentamente e arda, noite e dia, sobre o altar; ser mártir, é dar ao céu o que se tem recebido dele, o corpo, o sangue, a alma inteira”. É dedicar-se na família e para fora, para com os seus e os outros, para com a pátria e a humanidade. É dedicar-se na humildade, no sacrifício
na oração, no dever, pelo triunfo de tudo o que é justo e santo, de tudo o que é, nobre e bom. É dedicar-se ao bem dos homens e à glória de Deus, sicut dilexi vos!

Não digais: é impossível. Houve quem fizesse nos séculos passados; há quem faça no nosso século: Ozanam, Montalembert, de Melun... para não citar senão estes. Há quem o faça todos os dias à nossa vista; não se nomeiam os vivos, olha-se para eles, admiramo-los, imitamo-los; vós os conheceis. Dedicai-vos como eles. Jesus Cristo vo-lo ordena, e as necessidades dos tempos em que estamos vos fazem disso uma obrigação urgente.
Quando um exército atravessa um país assolado pelo inimigo, redobrar de disciplina e coragem, de padecimento e audácia, unir-se em volta da bandeira, e dedicar-se até à morte, é o dever sagrado do soldado, como será o triunfo, ou, pelo menos, a honra da pátria!
Tal é o mundo aonde estais, meus senhores. Invadido pelo erro, o cepticismo e todas as doutrinas falsas, arrasado pelos esforços dos maus, é um campo de batalha aonde tudo se vai decidir. Não! não! já não é permitido, já não é possível ficar indiferente. É ao redor da cruz que nos devemos agrupar todos! É, após Jesus Cristo, o nosso chefe, que devemos marchar! É, sob o Seu olhar que devemos combater, os combates da inteligência e da verdade, os combates da vontade e da atividade, os combates do exemplo e do desinteresse, os combates do amor e da dedicação! É, sob o Seu olhar, que devemos vencer ou morrer, porque se trata da justiça e do bem, da virtude e da verdade; trata-se, verdadeiramente, da vida ou da morte, da vida ou da morte das almas, da vida ou morte do mundo! Para o levantamento da pátria, para a salvação das almas e a glória de Deus, sêde, pois, os soldados e os apóstolos do dever e da dedicação; sêde os seus heróis, e, se preciso for, os seus mártires! Hoe est praeceptum meum ut diligatis invicem sicut dilexi vos.
AMÉM!


[1] S. Lucas, XIX, 10. “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que havia perecido.”
[2] Atos dos Apóstolos, I, 1.
[3] São João, XIII, 15.
[4] I.ª Epístola aos Coríntios, XI. “Sede os meus imitadores, como eu sou o imitador de Cristo”.
[5] S. Agostinho. “Nas coisas necessárias, unidade”.
[6] São João, XV, 15.
[7] São Lucas, XXII, 27.
[8] São Lucas, XXII, 26.
[9] São Matheus, XXV, 40.
[10] São João, XIII, 1.
[11] São João, XV, 13.
[12] São João, X, 18.