sábado, 10 de novembro de 2012

O Apóstolo II - Os seus deveres na sociedade moderna - Parte 1

Padre Emmanuel de Gibergues


Hoc est proeceptum, meum ut diligates invicem,
sicut dilexi vos.
É meu preceito que vos ameis uns aos outros,
como vos amei eu mesmo.
S. João XV, 12.

Meus senhores,
Que um católico tenha deveres fora da família; deveres para com a sociedade, a Igreja e a pátria; que tenha para ele, ao lado do dever do marido e do pai, o dever do cidadão, do cristão, do homem para com os seus semelhantes; ao lado do dever familiar, o dever apostólico e social, é a própria evidência.
O católico não é, segundo um velho prejuízo, restabelecido por Bacon, um “emigrado para o seu íntimo”, cuidando somente da sua salvação e dos seus interesses espirituais. Tem encargos de corpo e alma para com os seus semelhantes, e, especialmente, para com os que fazem parte da mesma cidade, da mesma pátria; nada do que lhes diz respeito e interessa lhe deve ser estranho; os deveres apostólicos e sociais obrigam-no em consciência; temo-lo demonstrado.
São os grandes deveres da hora atual. Sobre os destroços da sociedade antiga, forma-se, organiza-se uma sociedade nova.
Todos os espíritos estão alarmados, levantam-se todas as cobiças. De todos os lados surge uma luta aberta; todos querem apoderar-se da sociedade, para tomarem a sua direção e governo. Os maus encarniçam-se, têm a dianteira. Os bons ficarão na retaguarda, de braços cruzados? Não! Os bons nunca cessaram de agir; os seus esforços multiplicam-se todos os anos; vê-se chegar o momento, onde, sob a pressão dos acontecimentos, eles avançarão todos. Há alguns anos, que era preciso convencê-los da necessidade de agirem, abalá-los, empurrá-los; agora, está dada a impulsão; começou o movimento, não parará. Os inúteis, os egoístas, tornar-se-ão cada vez mais raros; a vergonha, o medo, o despertar também, esperemo-lo, dos sentimentos nobres forçá-los-ão à ação, por sua vez.
Pregar o apostolado será sempre necessário, para despertar os adormecidos, e estimular os bons; mas o mais urgente, neste momento, é determinar as suas condições, regular a sua marcha e marcar o papel que os homens têm a desempenhar, será todo o fim desta construção.
Há, meus senhores, para o dever social e o apostolado dos católicos, condições gerais e permanentes, condições especiais e transitórias. As primeiras são os mesmos princípios do apostolado, que não podem variar, que se encontram em todos os séculos. Os segundos são as formas que devem tomar esses princípios, para se adaptarem às sociedades modernas e às necessidades da hora presente.
É ao apóstolo por excelência, ao modelo perfeito de todo o dever social e apostólico, a Jesus Cristo, que pediremos os princípios do apostolado. Hoc est praeceptum meum ut diligatis invicem, sicut dilexi vos. É a nós que compete precisar as aplicações modernas deste preceito.
Ora, Jesus Cristo entregou-Se inteiramente ao dever do apostolado. Com a Sua inteligência, a Sua vontade e atividade, o Seu coração, o Seu ser e a Sua vida dedicou-Se-lhe por completo. Também nós devemos entregar-nos inteiramente a ele; é a Sua ordem “sicut dilexi vos”. Devemos amar e consumi-los tanto como Ele, mas devemos fazê-lo, segundo as leis da sociedade moderna, e como convém à nossa época: é o que vamos ver.

Jesus Cristo, antes de tudo, fez obra de inteligência e de ensinamento. É o primeiro caráter do Seu apostolado. Apresenta-se como a luz do mundo, lux mundi,[1] e para dar testemunho à verdade, ut testimonium perhibeam veritati[2].
É Senhor na acepção mais lata do termo, conforme Ele mesmo o diz: Magister vester unus est, Christus[3].
Os apóstolos tomaram a feição e o caráter do seu Mestre. Ele lhes havia dito: “Ensinai”; e eles ensinaram. Ele lhes havia dito: “Vós sereis as minhas testemunhas”, e eles foram as Suas testemunhas, as testemunhas da verdade. “Nós vimos, diziam eles, as nossas mãos tocarem o Verbo vivo, e não podemos falar”. É como testemunhas da verdade, e em particular do grande feito da ressurreição, prova soberana da divindade do seu Mestre, que se espalharam pelo mundo, e que o ganharam com luz, com fé e com a crença em Jesus Cristo.
Como os seus predecessores, como o seu Senhor, os apóstolos modernos, meus senhores, devem fazer obra de inteligência. Devem revestir este primeiro caráter de serem testemunhas da verdade, homens de luz, de saber, de convicção. É a primeira e indispensável condição do apostolado moderno.
Primeiro, é preciso ter luzes, idéias. Sem idéias, nem desejo, nem impulso, nem poder, é a morte. E a primeira de todas as idéias, é a de crer na utilidade do apostolado e do dever social; é crer que “Deus fez as nações sanáveis”[4], que se pode fazer bem, substituir a vida e a saúde pelas teorias insalubres e mortíferas, e que, em vez de se restringir a gemer, a lamentar-se, a erguer os braços para o céu, o que é certamente mais cômodo, mas o que é a negação do dever, e a deserção do posto de combate.
Depois, é preciso fazer idéias justas: não ter um catolicismo seu, mas o catolicismo da Igreja, um catolicismo preciso e completo, o único capaz de renovar a sociedade. Atualmente, duas tendências nos dividem: uns só esperam na liberdade, pelo horror do despotismo doutrora; outros só esperam na autoridade, com medo da anarquia, ou por cansaço das agitações estéreis.
O problema vital das nossas sociedades modernas é encontrar a concordância entre liberdades, tornadas necessárias, e a disciplina, tornada indispensável. Ora, a solução está precisamente no catolicismo, porque o sentido desta harmonia, entre a liberdade e a autoridade, é o próprio sentido católico.
É um erro, com efeito, dos espíritos superficiais não verem, no catolicismo, senão o princípio de autoridade e de governo; deixa a cada um uma liberdade, uma vida própria, uma iniciativa prodigiosa.
É muito diverso um Luiz XIV, fazendo um decreto, dum Papa promulgando um dogma. Um cria por autoridade; o outro nada mais faz do que atestar.
Qual é o dogma que, antes de ser definido pela autoridade, não foi crido pelo conjunto dos fiéis? de sorte que, aqui, é primeiro a autoridade a seguir a multidão, do que a multidão a ser levada pela autoridade. A autoridade não fez a consciência católica, discriminou-a, atestou-a.
Está longe ainda um Soberano mobilizando um exército, dum Papa que institui uma dessas grandes Ordens religiosas, que são como que o exército da Igreja. Qual é dessas Ordens religiosas, cuja eflorescência, há dezoito séculos, tem sido tão maravilhosa, a que foi fundada pela autoridade? Não há uma só, que não deva a sua origem à iniciativa privada dum São Bento, dum São Bruno, dum São Domingos, dum São Francisco de Assis, dum Santo Inácio, duma Santa Tereza, dum São Francisco de Salles, dum São Vicente de Paula, e de cem outros. A autoridade tem-se limitado a consagrar, a ratificar.
A autoridade precisa, afirma, endireita, conduz, aprova, evita que a consciência individual erre e prevaleça contra a consciência universal. Mas que liberdade, que iniciativa, que fecundidade prodigiosa de vida e ação, sob a inspiração do Espírito Santo, espalhado por todos os membros da Igreja! Não é o ideal de uma sociedade moderna?
Ora se têm exaltado os direitos do indivíduo, ora os do Estado, e não deixamos de andar agitados entre a anarquia e o despotismo. É, pelo espírito e pelo senso católico, que se fará a conciliação. Mas é preciso o verdadeiro senso católico: são necessárias, ao católico, idéias justas e completas.
É preciso que tenha idéias profundamente arraigadas, convicções. Não deveis ser partidários, meus senhores, mas deveis saber tomar o partido da verdade, da justiça, de Deus, e traduzir as vossas convicções, mas duma maneira clara e precisa. Esta é a única condição de persuadirdes o espírito dos outros, sobretudo o espírito do povo. Os desprezadores, os desdenhosos, os negativos, nunca tiveram ação sobre o povo. O povo nada compreende das recriminações estéreis; não isenta senão os que têm idéias claras, um plano positivo e simples, aqueles que lhe mostram claramente o que devem destruir ou edificar. As idéias que caminham, que triunfam, são as idéias nítidas, positivas e simples.

Continuará...


[1] São João, VIII, 12.
[2] São João, XVIII, 37.
[3] São Matheus, XXIII, 10. “Não tendes senão um Senhor, Cristo”.
[4] Sabedoria, I, 14.