domingo, 4 de novembro de 2012

O Apóstolo I - Final

Padre Emmanuel de Gibergues



A vida inútil, meus senhores, é condenada pelos vossos próprios interesses, e, primeiramente, pelos vossos interesses naturais.
O momento aproxima-se, em que todo mundo será obrigado a trabalhar para viver. Os rendimentos estão diminuindo. Outrora os 5% não eram raros; agora, são uma exceção.
As fortunas dividem-se, necessariamente, a cada transmissão. Se há mais do que dois filhos, e, se não se encontra no matrimônio mais do que o que se traz, a situação é precária: fica-se abaixo dos pais. Em algumas gerações, as mais belas fortunas transformam-se em modesta abastança.
Poderá chegar um dia em que os homens tenham de aceitar moças sem dote, para constituírem família, contando só com o produto do seu trabalho para proverem a todos os encargos do seu estado. Neste caso, só os úteis, os trabalhadores é que poderão experimentar o gozo da família, os encantos do lar doméstico.
Os inúteis, os ociosos ficarão de mãos gastas e de cara torta, abandonados ao seu celibato de incorrigíveis mandriões.
A vida inútil avilta a inteligência. O espírito enferruja-se e enerva-se na inação: o preguiçoso está sempre na indigência, diz a Escritura Sagrada: “piger semper est in egestate[1].
A vida inútil avilta o caráter. O hábito de não fazer nada abate a energia da vontade e afrouxa todas as molas da alma, tornando o homem incapaz de qualquer sacrifício e de qualquer esforço.
A vida inútil avilta o coração. A força de não pensar senão em si, torna-se indiferente a tudo, exceto à satisfação das suas paixões. A mínima inquietação, um sono agitado, uma digestão mal feita, um divertimento gorado, um cão ferido, um cavalo que sofre de uma pata, a mínima contrariedade pessoal, eis as inquietações do inútil! Que lhe importam os pobres que não têm pão, os desgraçados que sofrem fome ou frio, a pátria humilhada, a sociedade em perigo e a Igreja perseguida? Contanto que ele se sinta bem, que os seus negócios corram como deseja; que os prazeres abundem, e que não diminuam os seus rendimentos, o resto pouco importa! O seu coração está fechado, endurecido, destruído!
A vida inútil avilta o homem; tira-lhe valor, degrada-o e desonra-o. Não é mais a vida nobre da inteligência e do coração, do espírito e da alma; é a vida do animal.
A vida inútil é uma vida fastidiosa. A felicidade que o inútil procura, foge dele como a sua sombra; nunca consegue alcançá-la. E, tarde ou cedo, um vácuo horrível se formará em torno dele. Nem para si mesmo, nem para os outros terá prestígio; e, não sabendo ao que há de ater-se, passa a vida a matar o tempo e a consumir-se em inúteis remorsos. Numa certa idade, por demasiadamente tarde, é impossível refazer a vida. É uma vida desfeita em que se morre de aborrecimento.
A vida inútil, enfim, meus senhores, é, sobretudo, condenada pelos vossos interesses sobrenaturais, isto é, pelos vossos melhores e mais duráveis interesses.
É uma vida sem merecimentos, sem valor aos olhos de Deus, e perdida para o céu. O inútil poderá ter tido as mãos cheias de dinheiro, cheias de grandes acontecimentos, repletas de prazeres; porém morrerá sem levar nada consigo; morrerá de mãos vazias.
É uma vida culpável por todos os erros que ela traz consigo, necessariamente, como consequência inevitável da inação: “os maus desejos matam o preguiçoso”, diz a Escritura Sagrada: desideria occidunt pigrum[2].
O inútil não é inativo senão para o bem; mas para brotarem e medrarem os maus germens, é um terreno fertilíssimo, onde o mal rapidamente se desenvolve.
Nele, é tão fácil e pronto o desenvolvimento do pecado, quanto moroso e lento, o da virtude: é presa fácil de todas as paixões, de todas as desordens e de todos os vícios.
É uma vida culpada em si mesmo, dissemo-lo, porque foi condenada por Deus e Jesus Cristo, e porque a inação, a ociosidade, a inutilidade são um verdadeiro pecado.
Não fazer o bem, basta para desagradar a Deus, para carregar-se das mais graves responsabilidades, e incorrer nos mais horríveis castigos.   
Conheceis a parábola do Evangelho:
“Um homem rico, vestido de púrpura e linho, fazia todos os dias festins esplêndidos. Havia à sua porta, estendido por terra, um mendigo, chamado Lázaro todo coberto de úlceras que desejaria alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; mas ninguém lh'as dava. Os cães vinham lamber as suas úlceras. 
“Aconteceu morrer o mendigo levado pelos anjos ao seio de Abraão. O rico também morreu, e foi sepultado no inferno.
“Então, do meio de seus tormentos, erguendo os olhos, viu Abraão ao longe e Lázaro em seu seio, e pôs-se a gritar: Abraão, meu pai, tem piedade de mim, e manda-me Lázaro; que molhe o dedo n'agua, para refrigerar-me a língua, pois estou mortificado nesta chama.
“Abraão respondeu-lhe: Meu filho, lembra-te que, durante a tua vida, não recebeste senão bens, e que Lázaro não recebeu senão males. Agora, está consolado e tu estás mortificado. Em todas as coisas, entre nós e vós, há um imenso e eterno abismo, que é impossível transpôr a uns e a outros”[3].
Pensastes, sem dúvida, meus senhores, que se tratava daquele que foi rico em bens deste mundo, e fez deles mau uso, guardando-os para si, sem dividi-los com os pobres; e não vos enganastes.
Mas há outra riqueza maior do que a dos bens perecíveis deste mundo, e que não é menos apontada pela parábola do Evangelho: é a riqueza da inteligência, do coração, da vontade; são todos os tesouros de uma natureza bem dotada, capaz de compreender, de amar, de dedicar-se, de fazer conhecer a verdade e amar o bem.
Há uma riqueza ainda mais nobre: é a dos bens sobrenaturais da graca e os méritos de Jesus Cristo; é a riqueza de uma alma que vive da fé, da esperança e da caridade; que vive da própria vida de Deus. O rico que faz festins esplendidos, é o cristão que se ajoelha à mesa sagrada, para alimentar-se da Carne e do Sangue de seu Deus.
Quanto maior é a riqueza, a muito mais obriga; quanto mais tendes, tanto mais deveis dar aos pobres, aos desgraçados, aos famintos, aos incrédulos, aos pecadores e a Deus.
Se não dais nada, se guardais tudo para vós, se sois o inútil, sois o mau rico. sepultus est in inferno[4]
E para ficardes mais bem avisados, meus senhores; para não poderdes pretextar nem ignorância, nem boa fé, Jesus Cristo, no Santo Evangelho, quis dar-vos antecipadamente a própria sentença e a causa formal da condenação dos réprobos, nas palavras que eles ouvirão no juízo final.
Voltando-se para eles, o Soberano Juiz dir-lhes-á: “Retirai-vos de mim, malditos; ide para o fogo eterno, porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber...” E, como os réprobos se admirarão, Jesus Cristo continuará: “Em verdade vô-lo digo, o que não fizestes por um dos mais pequenos, foi por mim que o não fizestes”.
A única causa que Jesus Cristo põe em evidência, o único motivo que alega para a condenação dos réprobos, é que não praticaram o bem, a caridade; a caridade material, sem dúvida, mas também a caridade espiritual, que sobrepuja à primeira, tanto quanto a alma sobrepuja ao corpo, e a eternidade ao tempo.
É só o inútil que é apontado no primeiro artigo; só ele é que é apontado. Parece haver perdão para todos, menos para ele; parece que Jesus Cristo no dia do juízo, esquecerá todos os pecados, para se não lembrar senão daquele.
A quem tiver exercido a caridade material e moral, por dedicação ao próximo, a misericórdia parece dever ser imensa, e tudo dever ser perdoado: caritas operit multitudinem peccatorum[5].
Mas para o egoísta e o inútil, para aquele que só tiver vivido para si mesmo, não haverá senão castigos e maldições.
Entre ele e o Deus de amor e de caridade, o Cristo que se imolou para a salvação de Seus irmãos, não poderia haver nada de comum; é irrevogável e para sempre: Discedit a me maledicti in ignem aeternum[6].
Ó inútil, eis o teu processo! Eis-te condenado pelo céu e pela terra; pelos homens e por Deus. Que vais fazer? Aonde te vais refugiar contra a cólera celeste: Quo a facie tua fugiam?[7]
Nada mais tens que fazer do que condenar-te a ti mesmo, condenar a tua vida, mudá-la, torná-la tão nobre, útil, caritativa e dedicada, quanto tiver sido baixa, egoísta e estéril, para que possas merecer ouvir no último dia a sentença da eterna felicidade: “Vinde, benditos de meu Pai, tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber... possui o reino que vos foi preparado, desde a origem do mundo![8]



[1] Provérbios, XXXI,5.
[2] Provérbios XXI, 25.
[3] São Lucas, XVI, 20 a 26.
[4] São Lucas, XVI, 22. “Ele foi sepultado no inferno”.
[5] Primeira epístola de São Pedro IV, . “A caridade cobre a multidão dos pecados”.
[6] São Mateus, XXV, 41. “Retirai-vos de mim, malditos, ide para o fogo eterno”.
[7] Salmo, CXXXVIII, 7.
[8] São Mateus, XXV, 34 a 35.
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