terça-feira, 6 de novembro de 2012

Homens de Estado

 DA VIRTUDE MAIS NECESSÁRIA AOS HOMENS DE ESTADO


 Padre Júlio Maria, C.SS.R.
As virtudes, 1936.


Coisa muito para refletir, é que a alegria de viver vai diminuindo na civilização contemporânea, na proporção justamente dos progressos da ciência, das maravilhas da indústria e dos variados recursos que a administração e a política têm proporcionado ao bem-estar do homem.
Nada, parece, satisfaz hoje ao homem.
E, note-se bem, não é a sede do infinito, não é o desejo ardente e impetuoso de, como o Apóstolo, despedaçar os laços da carne para engolfar-se nas delícias da bem-aventurança, não é o repúdio cristão do mundo o que domina e aflige o homem moderno.
É antes o desgosto da perigosa peregrinação terrestre, a decepção de seus desejos, e malogro de suas esperanças, o triste pesar dos homens e das coisas,
Diante deste tédio imenso, o que valem a tristeza de Leopardi, o desvairo de Schopenhauer, a loucura de Hartmann, coisas simples e que já não espantam?
Amaldiçoar a vida em estrofes desesperadas, como fez o outro, à tirania do Criador; negar o gozo, a alegria, os encantos da alma humana, como num monstruoso balanço de bens e males, como fez o último; todas essas coisas, concepções isoladas, absolutamente não se podem comparar com este mal, que vemos hoje, sistemático e universal – o desgosto da vida.
Não; não é já o gemido do poeta, a melancolia do artista, a desolação dos corações quebrados que ouvimos hoje. É a voz da multidão desesperada e triste. Já não é somente a voz da mulher, como na tragédia de Eurípedes, bradando pela boca de Medéa: é a humanidade que clama por todas as vozes da época: Desgraçada de mim!
Não quero, porém, ir além da esfera do meu país.
Para o Brasil é que eu fui enviado, em uma predestinação que, quer queiram, quer não, será a salvação de uns e a ruína de outros. Do Brasil, pois é que eu devo tratar, cumprindo a missão d’Aquele que me chamou e disse, como outrora a Moisés:
“Vai; anda: Eu serei na tua boca e te ensinarei o que tu hás de falar”.
Restringindo-me, portanto, ao Brasil, eu vos pondero que essa tristeza a que aludi, tem entre nós uma forma especial neste traço fisionômico do país; - o descontentamento das classes.
Esse descontentamento, transparece hoje, na imprensa, nos meetings e até em pródromos revolucionários. Ele não pode ser negado e é ele que se nos apresenta, com maior gravidade, neste fenômeno: a crise social,
Manifesta, clara e talvez já proximidade seu período agudo, há, não obstante, em relação à crise primeiro, os falsos observadores; segundo, os otimistas exagerados.
Aqueles ligam a crise às suas causas segundas e não à sua causa primeira, que é a violação das leis fundamentais das sociedades políticas; e atribuindo, assim, a crise a simples episódios sociais, incorrem no mesmo erro dos materialistas, explicando a criação, não pela sua causa primeira, mas pelas suas causas segundas. Decapitam a lógica filosófica.
Os segundos, sem negarem a crise, nem os defeitos do novo regime, acreditam, entretanto, que a crise pode ser debelada, com a simples reforma das leis, independentemente da grande e necessária reforma cristã. Eles são, esses falsos, otimistas, como o médico que conhece o mal, mas que se propõe curá-lo, não com o verdadeiro remédio, mas com simples paliativos. Falsificam a medicina política.
A uns e outros, porém, a crise se impõe; e para removê-la só podemos ter o recurso do poder público, nesta triste emergência da vida nacional.
O poder público sente-se ameaçado, sem forças para resistir às ameaças, nem coragem para recorrer aqueles meios que, sem dúvida, seriam capazes de pacificar as almas e restaurar a ordem social. Se porventura o poder público acredita na eficácia da política cristã, coragem lhe falta para proclamar os princípios do Evangelho e desdobrar a bandeira da política cristã.
Triste covardia política que coloca o Brasil abaixo da América do Norte, da Alemanha e ela própria Inglaterra, onde os governos já não duvidam alistar-se no partido de Deus. Triste covardia política, que necessariamente deve ter uma causa. Este é um grande erro dos nossos homens de Estado dominados pelos mais absurdos preconceitos contra o Catolicismo é a falsa noção da Igreja.
Dir-me-ão, talvez, que esse erro vem de longe; e eu não o contesto, pelo contrário, reconheço que, desde longo tempo, a educação pagã tem viciado muitas e muitas gerações brasileiras. Pondero, porém, em primeiro lugar, que no passado tivemos, o que hoje não sucede, grandes figuras políticas, notáveis homens de Estado, dos quais alguns, ergueram a voz em prol da Igreja e da educação cristã; em segundo lugar, que por isso mesmo que vem de longe e já produzem muitos resultados funestos, devera ser corrigido. Por que não há tal correção? Porque os nossos homens de Estado não reconhecem, na Igreja, como os mais altos espíritos, publicistas ou filósofos, a grande forma moral, capaz de, no conflito das paixões revolucionárias, vingar as verdades sociais e salvar as sociedades políticas.
Eles não têm idéia, nem da necessidade, nem da origem, nem da constituição, nem da autoridade, nem da beleza, nem da fecundidade da Igreja.

Bem fácil é provar a necessidade da Igreja, pois que ela se nos impõe neste simples raciocínio; ou a verdade não existe, ou há, concorrentemente com a Verdade um órgão destinado a transmiti-la à humanidade.
Dizer que a verdade não existe é uma demência em oposição ao espírito, ao coração e à natureza do homem. Pretender que a verdade existe, mas não o órgão correspondente, é um absurdo, porque, então, a verdade seria inútil e estéril.
Quanto à origem da Igreja, não se deve confundir com a sua forma última e definitiva. Esta lhe foi dada por Jesus Cristo. Aquela, porém, remonta à origem dos tempos, como bem disse Santo Epifânio: "O começo de todas as coisas é a Igreja".
Mais claramente ainda, falam S. Paulo e S. Tomás. O primeiro afirma: "Deus, falou aos nossos pais, de muitos e variados modos, até que, enfim, nos falou por seu filho".
O segundo diz: "A diferença entre os tempos anteriores e os posteriores a Jesus Cristo, é que o Cristianismo, nos antigos tempos, existia no estado de gérmen, no estado imperfeito, ao passo que hoje existe no estado de árvore completa, no estado do seu inteiro desenvolvimento e perfeição".
A constituição da Igreja, é a mais perfeita das formas de governo, porque nela se fundem todas as outras formas, conservando cada uma, nessa fusão, as suas qualidades e perdendo os seus defeitos. Assim, na forma da Igreja, não há nem o absolutismo da monarquia, nem o orgulho da aristocracia, nem a tendência anárquica da democracia. A Igreja é a mais divina e ao mesmo tempo a mais humana de todas as hierarquias, onde o supremo grau da autoridade é a paternidade e os vários graus de subordinação são elos do mesmo amor filial.
Eis, pois, em política, uma obra prima que bem claramente revela a mão de Deus.
A autoridade da Igreja é a autoridade mesma de Deus: o que é consequência lógica do que já foi afirmado em relação à necessidade, à origem e à constituição da Igreja. Teologicamente, filosoficamente e até historicamente falando, a Igreja é isto: um órgão de Deus.
Nenhuma beleza maior do que a beleza da Igreja, cuja contemplação é ao mesmo tempo um êxtase para o espírito e um júbilo para o coração.
Da Igreja, diz Bougaud, na sua esplendida apologia - O Cristianismo e os tempos presentes - que ela é a sociedade universal das almas na luz e no amor. Como nas sociedades particulares para estudos, para aplicações da indústria e do comércio, para à exploração de países, explorações de minas, há também uma sociedade universal que tem por fim dar às almas o conhecimento do que há de mais belo na terra e no céu.
Diante desta sociedade universal, que valem impérios, monarcas, repúblicas? Sem dúvida todas estas coisas têm o seu valor e o seu lugar especial no plano divino da história. Mas nem a marcha social dos povos nem os combates da liberdade política, nem as conquistas do direito e da diplomacia se podem comparar com as conquistas da sociedade universal das almas.
Nessa sociedade universal é que a humanidade se iniciou na vida divina; que progressivamente a foi bebendo, até que enfim, chegou a bebê-la no seu próprio foco, na sua própria fonte: o Cristo.
Esse foco divino da Igreja está hoje por toda a parte porque o Cristo encheu o mundo e a Igreja, não é senão o mesmo Cristo presente na terra, na mais misteriosa, porém, mais evidente de todas as realidades.
Da Igreja disse S. Paulo que ela é o corpo de Cristo e do Cristo disse que Ele é a cabeça da Igreja. Definição tão exata quanto bela, porque a Igreja e a reprodução perpétua de Cristo, cuja vida, na Judéia, não foi senão um prelúdio de sua vida posterior em todos os séculos e cujo apostolado não foi senão o esboço de seu apostolado, hoje realizado no mundo inteiro. O que para o Verbo foi o corpo humano a que Ele Se uniu, durante 33 anos, no mundo inteiro é hoje a Igreja, da qual se pode dizer, sem figura, com o mais teólogo de todos os poetas e o mais poeta de todos os teólogos, o Padre Faber: "A Palestina alargou-se, tornou-se o mundo. Cada lar doméstico é uma Belém; cada vila é uma Nazaré; cada cidade uma Jerusalém; onde quer que se sofra se vê um horto; onde quer que haja uma grande imolação, há também um Calvário...”
Bela; muito bela a Igreja! Sua beleza, não e uma beleza estéril, mas fecunda, da maior e melhor de todas as fecundidades: a fecundidade do amor.
Quem, senão a Igreja, salvou a humanidade, num momento decisivo da sua história? Foi ela que, vencendo todas as forças do mundo - o paganismo, a política romana, a filosofia da Grécia e o judaísmo - despedaçou as nossas cadeias no passado.
É fácil não querer ver, nesses benefícios, a mão da Igreja. Digno, porém, é beijá-la. Beijemo-la. Os homens de Estado não conhecem tudo isso que tenho dito hoje da Igreja. Pois bem: quero ser indulgente para com eles. Tolero tão grande ignorância. O que, porém, não tolero nem posso tolerar é que, nem ao menos conheçam a Igreja como organismo prático nem saibam o que desta têm pensado publicistas e filósofos insuspeitos, dos quais basta, entre outros, lembrar Montesquieu, Tocqueville, Macauley, Guizot, Taine, Molinari, Leroy Beaulieu.
Sob dois aspectos pode ser considerado o organismo prático da Igreja; o serviço particular das almas e o serviço público da sociedade.
Do primeiro, posso referir o serviço dos indigentes, dos doentes e dos moribundos, afirmando que para nenhuma destas desventuras tem a Igreja deixado de fornecer virgens, apóstolos e mártires. Comparo as obras de filantropia com as obras de caridade, sem desconhecer o valor daquelas, acho que não podem ser comparadas, na delicadeza, na solicitude, na fraternidade. Aliás, o serviço particular das almas não compreende somente essa assistência dos indigentes, dos doentes e dos moribundos. Um apostolado há que eu chamo o apostolado da Dor, porque nele se incluem as maiores e mais sublimes dores do homem: a dor de um espírito quando não conhece a verdade; a dor do seu coração, que não experimenta a felicidade; a dor da sua alma quando no itinerário da vida, o dilaceraram a mentira, a calúnia, a perfídia e a ingratidão. É nestas conjunturas e neste sublime apostolado da dor que a Igreja mostra e demonstra ao homem o seu grande e imenso amor.
O cético pode zombar da confissão, da penitência de todos esses grandes episódios em que vemos a Igreja e o homem, este vencido no seu orvalho, aquela compassiva e maternal, ainda quando julga em nome de Deus. O cético pode zombar; mas se tudo isso purifica as almas, consola os corações, alivia as dores do homem, que direito tem o homem de Estado verdadeiramente digno deste nome, de desprezar o serviço da Igreja? 
O cético pode zombar, porque não têm espírito grande, nem coração delicado para julgar estas, grandes cenas da vida cristã: a conversão e a confissão.
Mas se é certo que a conversão e a confissão reverteram pela alegria e a resignação das almas resultados proveitosos para a sociedade, que direito tem o homem de Estado, verdadeiramente digno deste nome de desprezar o serviço da Igreja?
Mas o serviço da Igreja não é só particular; é também público, porque compreende a educação, o ensino, a sorte dos órfãos, das crianças abandonadas, dos soldados, dos marinheiros, etc...
A aptidão especial da religião para estas coisas é tal que Taine escreveu: "Nada é capaz de substituir o cristianismo no serviço social; nem a cultura, nem a honra, nem os códigos, nem a cultura cientifica, literária e artística".
Altivos de vossa chamada ciência política, inchados de vossos chamados planos administrativos; ingenuamente confiantes nas vossas reformas de melhoramentos e progressos materiais, provavelmente não concordais com Taine? Esperais pacificar as classes com a vossa polícia e debelar a crise simplesmente com o vosso poder político. Manifestamente, homens de Estado, vós careceis de prudência. Tal a virtude cardeal que vos aconselho.
Não é ela, sem dúvida, uma virtude de que só o homem de Estado necessita. Ela envolve a direção da vida, de que cada homem é depositário, na porção que lhe foi dada pelo Criador. Ela envolve as relações íntimas e as relações públicas do homem, sua posição em face de si próprio e sua posição em face de seus semelhantes. A prudência, portanto, é virtude de que todos precisam na direção de seus atos, pois que cada ato de um homem prende-se, pela lei da solidariedade, aos atos dos outros homens.
Grande ilusão supôr que os nossos atos são isolados. Um dia, no despertar de tudo que tem existido, veremos todos os nossos atos provados no livro da vida com o sinete que lhes tiver dado à nossa liberdade.
Nestas condições, tão inevitável sendo a repercussão dos nossos atos, todos eles, inclusive atos da virtude devem ser dirigidos pela prudência. Se, aos homens de ciência aconselhei a temperança, aos homens de letras a força hoje aconselho aos homens de Estado a prudência, não e porque essas três classes de homens não tenham necessidade das outras virtudes, nem também porque as outras classes de homens não tenham necessidade de temperança, força e prudência.
Trata-se, vós o compreendeis, do homem considerado sob certo ponto de vista especial e nesse sentido digo que a virtude necessária no homem de Estado como homem de Estado, e a prudência.
A Ascética define a prudência dizendo que ela é conhecimento das coisas que se devem fazer ou se devem omitir. S. Tomás diz que a prudência encerra três virtudes distintas: o conselho, o juízo reto e a resolução.       
Pelo conselho o homem discerne os meios necessários à obra que intenta. Pelo juízo reto verifica a aptidão desses meios para realizar a obra. Pela resolução impõe a sua própria vontade a realização da obra.
Facilmente se compreende que a prudência e uma virtude de mando e de governo, e em todos os tempos assim se entenderam. Assim como em todos os tempos se disse: temperança de sábio, justiça de homem honesto, também se disse prudência de homem de Estado.
A prudência verdadeira não se deve confundir com a prudência falsa, que não é senão covardia e respeito humano. A prudência verdadeira no homem de Estado é um discernimento seguro, um tato delicado, com o auxilio do qual ele vê os meios de que deve usar para a realização da sua obra, que é ou deve ser uma grande obra, porque é uma obra social.
Agora pergunto: É licito ao homem de Estado desprezar, na realização da obra social, os meios que a Igreja lhe proporciona?
É tolerável que ele ignore as verdades políticas e sociais do Evangelho?
Pode-se desculpar ao homem de Estado ignorar que o Evangelho não é somente um código religioso, mas também o maior e mais fundamental de todos os códigos políticos? E para tratar do que nos diz respeito podemos tolerar que os homens de Estado no Brasil pretendam, sem Deus, governar o país e fazer a felicidade do povo brasileiro?
Senhores, um homem celebre,  o Padre Lacordaire, disse uma vez em França que tinha horror aos lugares comuns. Ah! se o Padre Lacordaire vivesse hoje no Brasil, ele veria que a maior das penitências de um pregador é demonstrar os princípios mais comesinhos, as máximas mais vulgares, as verdades mais elementares da filosofia e da religião.
Homens de Estado no Brasil! Governar é uma coisa grave e difícil. Um governo deve ser uma como que providência, porque, na esfera, bem entendido, que lhe compete, o governo deve tratar de tudo, de tudo ocupar-se. Providência, termo que vem de duas outras palavras (providere, praevidere), quer dizer prover e prever. Concordo, homens de Estado do Brasil, que vós podeis hoje prever os sucessos que nos aguarda o próximo futuro. Concordo, porque os sinais da época são bem claros. No que, porém, não concordo é que sem a religião possais prover a salvação da pátria.
Não; não concordo. Não podereis, sem o auxilio de Deus, desviar a corrente prestes a precipitar-se. Não podereis sem a mão da Igreja fechar um abismo que já está aberto. 
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