segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A perfeita casada (XVI) - Frei Luís de León


Engano é a graça, e zombaria,
a beleza; a mulher que teme a Deus
é digna de louvor.


Põe a beleza da boa mulher, não nas figuras do rosto, e sim nas virtudes secretas da alma, as que são abrangidas pelo que chamamos temer a Deus.
Mas mesmo este temor a Deus que embeleza a alma da mulher, como principal beleza há de se buscar e estimar nela a questão da beleza corporal, da qual diz o sábio que é vã; porque se costuma duvidar se é conveniente que a boa mulher casada seja bela e formosa. É bem verdade que esta dúvida não toca diretamente naquilo que as perfeitas mulheres casadas são obrigadas, como naquilo que devem buscar e escolher os maridos que desejam ser bem casados. Porque ser bela ou feia uma mulher, é qualidade com a qual se nasce, e não coisa adquirida por vontade própria nem se pode impor lei nem mandamento para as boas mulheres.
Mas a beleza consiste em duas coisas, uma que chamamos de boa proporção da figura, e a outra que é limpeza e asseio, porque sem limpeza não há nada belo, mesmo que, nenhuma se não o for pode se transformar, mesmo que deseje; porém no que se refere a asseio e à limpeza, a maior parte está em seu cuidado e vontade; e a qualidade, que mesmo não sendo virtude que enfeita o ânimo, é fruto dela e indício grande da limpeza e harmonia que há na alma e no corpo limpo e asseado; porque assim como a luz encerrada na lanterna a esclarece e transpassa, e se descobre por ela, assim a alma clara e com virtude resplandecente, devido à ligação que tem com seu corpo, e por estar intimamente unida a ele, o esclarece e compõe o quanto é possível na composição da figura. Assim pois, se não é virtude do ânimo o asseio do corpo, é sinal de limpeza e asseio; pelo menos é cuidado necessário na mulher para que conserve e acrescente o amor de seu marido. Porque, que vida terá aquele que tem sempre ao seu lado na mesa, onde se senta para comer, e na cama onde vai descansar, uma mulher desalinhada e nojenta, a qual nem pode ser olhada sem torcer os olhos ou tampar o nariz?
E não será isto somente quando a veja, mas sempre que entrar na casa, mesmo que não a veja. Porque a casa e a limpeza dela terá o cheiro da mulher, cujo cargo é a ordem e a limpeza, e se for asseada ou desasseada, isso se refletirá tanto na casa, como na mesa, como na cama. A primeira parte disso que chamamos de beleza consiste em ser uma mulher asseada e limpa, coisa que está na vontade da mulher que quer sê-lo, e que convém a cada uma delas.
Mas a outra parte, que consiste na escolha da figura, não está na mão da mulher tê-la, e não convém que quem se casa busque mulher muito bela, apesar do belo ser bom, mas nem sempre são boas as que são muito bonitas. Disse sobre isso Salomão:

É coisa boa ver a fêmea formosa,
bela para os outros; porque ao marido é custoso dano e desventura.

Porque o que muitos desejam, deve ser guardado de muitos, e assim corre maior perigo, e todos gostam de coisas bonitas. E é um inconveniente gravíssimo que na vida de casados, que se ordenou para que ambas as partes descanse cada uma delas, e não se preocupe com a vizinha, escolha tal companhia, e esteja obrigado a viver com receio e cuidado que, buscando uma mulher para não ter que se preocupar com a casa, esteja atormentado e com receio, sempre que não estiver nela.
E esta beleza é perigosa, não só porque atrai para si e acende a cobiça nos corações dos que a olham, mas também porque despertam a que a tem, e gosta de ser cobiçada. Porque, se todas gostam de parecer bem e de ser vistas, certo é que as que não o são não irão querer viver escondidas; além do mais a todos nos é natural amar nossas coisas, e pela mesma razão desejar que sejam prezadas e estimadas, sendo sinal de que uma coisa é prezada quando muitos a desejam e amam; e as que se sabem belas, para crer que o são, querem que o confirme a afeição de muitos. E para dizer a verdade, já não são honestas as que gostam de ser olhadas e requisitadas desonestamente.
Assim, quem procura mulher muito formosa, anda com ouro por terra de bandidos, e com ouro que não consegue esconder e mostra aos ladrões; e mesmo não causando maior dano, já faz com que o marido se sinta afrontado; porque na mulher semelhante a ocasião que há para não ser boa por ser cobiçada por muitos, essa mesma provoca em muitos grande suspeita que não o é, e essa suspeita é suficiente para que ande de boca em boca com sua honra menosprezada e perdida. Mas quem sabe o que vale e o que dura a beleza, com que rapidez se acaba e murcha, a quantos perigos está exposta, e os tributos que paga? "Toda a carne é feno, diz o Profeta, e toda a glória dela, que é sua beleza, e seu brilho como flor de feno" (Isaías, 1).
Não é bom que pelo prazer dos olhos ligeiro e de um momento queira um homem cordato fazer amargo o estado que vai durar enquanto dure sua vida; e que para que seu vizinho olhe com alegria sua mulher, morra ele ferido de descontentamento, e que negocie com seus pesares os prazeres alheios. De modo que, mesmo que lhe pese, algum dia e muitos dias conheça sem proveito e condene seu erro e diga, mesmo tarde, o que aqui diz deste seu perfeito modelo o Espírito Santo: "Engano é a boa graça, e zombaria a formosura; a mulher que teme a Deus, essa é digna de ser louvada". Porque há de se entender que essa é a fonte de tudo o que é verdadeira virtude, e a raiz onde nasce o que é bom, e o que só pode fazer e faz com que cada um cumpra totalmente com o que deve, o temor e respeito de Deus, e levar em conta Sua lei; e o que nisso não se baseia, nunca chega ao cume.
E entendemos por temor a Deus, conforme a Sagrada Escritura, não só o temor, mas se empenhar com vontade e com obras no cumprimento dos mandamentos, e o que, em uma palavra chamamos serviço de Deus. E descobre esta raiz Salomão, não porque seu cuidado deva ser o último, mas como dissemos, o princípio de todo bem é ela; de outro modo, porque temer a Deus e guardar com cuidado Sua lei é mais próprio da casada que de todos os homens. A todos nos convém colocar nisto toda nossa vontade; porque sem isso ninguém pode cumprir com as obrigações de cristão, nem com as de seu ofício. Quero dizer que comece e acabe todas suas obras, e tudo aquilo que obriga seu estado, de Deus, em Deus e por Deus; e que faça o que convém, não só com as forças que Deus lhe dá para isso, mas principalmente para agradar a Deus. De modo que o alvo para onde se deve olhar em tudo que se faz deve ser Deus, tanto para pedir favores e ajuda, como para fazer o que deve puramente por Ele; porque o que se faz, e não é por Ele, não e totalmente bom, e o que se faz sem Ele, como coisa nossa, e coisa de pouco valor.
E assim, o temor e serviço de Deus há de ser nela o principal e primeiro, não só porque é mandado, mas também porque é necessário; porque as que assim não o fazem se perdem e além de ser más cristãs, na lei das casadas, nunca são boas, como se vê todo dia. Umas se esforçam por temor ao marido, e assim, não fazem bem mais que o que ele vê. Outras que trabalham porque o amam e querem agradar, esfriando o amor abandonam o trabalho. As movidas pela cobiça não são caseiras e sim escassas de outras virtudes. Outras que se inclinam por honra e que gostam de parecer boas e honradas, cumprem com o que parece e não com o que é, e nenhuma delas consegue o que pretende.          
Mas as que se apegam a Deus, cumprem com todo seu ofício totalmente porque Deus quer que o cumpram, e o cumprem não em aparência, mas de verdade porque Deus não se engana; e fazem seu trabalho com gosto e deleite, porque Deus lhes dá forças; e perseveram nele, porque Deus persevera; e caminham sem erros, porque não estão em sua cabeça; e crescem no caminho e vão para frente; e finalmente conseguem o prêmio; porque quem lhes dá é Deus, a quem elas em Seu ofício servem.
E o prêmio é o que Salomão, concluindo toda esta doutrina, coloca a seguir:

Dá-lhe do fruto de suas mãos,
e louvem nas praças suas obras.