domingo, 21 de outubro de 2012

Prática da simplicidade: conclusões

Nota do blogue: Com esse capítulo finalizo a transcrição desse belíssimo livro. Espero que ele seja útil para muitas almas, assim como foi para a minha, com certeza, um dos melhores livros que tive a graça de ler. Oxalá que Nosso Senhor tenha muitas almas amantes e simples aos pés de Sua Cruz.

Letícia de Paula
A Simplicidade segundo o Evangelho,
Instruções às senhoras e jovens por Monsenhor de Gibergues, 1945

Sede, portanto, simples para fazer de Deus vosso objetivo, para O procurardes como último fim, para considerá-lO como termo de vossas ações.
Sede simples para vos apoiardes em Deus como meio.
Simples para serdes humildes, para reconhecerdes que nada podeis fazer por vós mesmas, e que, abandonadas às próprias forças, vos será impossível realizar qualquer bem, como vos declara Nosso Senhor: "Sem mim, nada podeis fazer."[1]
Sede simples também para serdes confiantes, para vos persuadirdes de que, apoiando-vos em Deus e contando com Sua graça, não sereis enganadas, e que "tudo podereis naquele que vos fortifica.”[2]
Simples, para verificar vosso nada, vossa miséria, vossos pecados, para vos desprezardes profundamente.
Simples, para considerar o coração e o amor de Deus, Sua infinita bondade, e para repousar na Sua graça com a mais inabalável segurança.
Sede simples nas menores como nas maiores coisas, principalmente nas menores, porque as ocasiões de praticá-las se sucedem com freqüência e porque são muito agradáveis a Deus.
“Feriste o meu coração, exclama o esposo no Cântico dos Cânticos, arrebataste o meu coração com um dos teus olhos e com um dos teus cabelos."[3]
Que haverá de mais admirável, essencial e importante do que um olho? Que haverá de mais vil que um fio de cabelo? Preparai-vos para sofrer, para carregar pesadas cruzes, levando o vosso amor até o martírio, oferecendo a Nosso Senhor o que tiverdes de mais caro, até vossos olhos e, se necessário, vossa vida, e assim comovereis Seu coração por essas grandes coisas. Não negligencieis, porém, as menores, e, de acordo com o conselho expresso do Apóstolo, oferecei a Deus o que há de mais corriqueiro em vossa vida, até o alimento e o sono, e assim comovereis o Seu coração também pelas pequeninas coisas.
Quando Santa Catarina de Siena se entregava às mais sublimes meditações e caía em êxtase, quando ensinava aos grandes da terra, arrebatava o coração do celeste esposo pelo olho da sabedoria e da contemplação. Mas O agrava menos do que quando, por obediência ao pai, aplicava-se aos mais humildes serviços caseiros e tranquilamente continuava suas meditações no meio desses mesquinhos trabalhos. Considerando o pai como Nosso Senhor, a mãe como a Santíssima Virgem e os irmãos como os apóstolos, dedicava-se com alegria a tudo que lhe mandavam fazer.
E vós, embora vos devoteis às grandes coisas, às mais importantes e às mais excelentes obras, praticai também por Deus as pequenas e humildes virtudes que nascem como flores aos pés da cruz: suportar um pequeno sofrimento, uma enfermidade passageira, uma contrariedade, decepções, mágoas, humilhações e todas as insignificantes ocupações que existem no lar ou fora dele. Como tais ocasiões se repetem a cada instante, que fonte de riquezas espirituais poderíeis acumular, se as soubésseis aproveitar!
Não compreendeis, então, que o que mais vos falta é a simplicidade? Oh! que vos faltaria se fosseis verdadeiramente simples, simples em tudo, e qualquer encontro com Deus, com os outros e até convosco?
Tendes bom coração e o sabeis, disso dais prova e com isso concordais. Às vezes, chegais a dizer que o sentis demasiado, tanto ele vos faz sofrer!  
Tendes energia e força de vontade, e cada dia as desenvolveis e as despendeis sem conta. E, às vezes, é incalculável o quanto as utilizais em proveito de vossas paixões.
Tendes delicadeza, tato, sutileza, que causam vossos mais belos triunfos!              
Tendes nobres e generosas aspirações e impulsos admiráveis! Sois formadas na abnegação e no devotamento!              
De posse de tão admiráveis qualidades e tão poderosas virtudes, como podeis levar tantas vezes uma vida frívola, nula e inútil, e até detestável, culpada e escandalosa?
Que vos falta? Repito-o, falta-vos a simplicidade.
Não sabeis orientar vossas qualidades, vossas forças não as sabeis utilizar; deixais que se percam e esqueçam, porque não sois simples.
A simplicidade tudo exalta, tudo dirige, e faz com que tudo concorra para a glória de Deus.
Olhai a pomba! É maravilhosamente constituída para elevar-se nos ares, pairar e atingir em tempo as mais altas e longínquas regiões. De quê necessita para isso? De uma única coisa: abrir as asas e servir-se delas.
Digo-vos ainda: a pomba sois vós! A asa toda poderosa é a simplicidade. Que esperais, então, para utilizá-la?
Abri, abri as asas! E, em pouco tempo, com voo poderoso e rápido, transporeis incomensuráveis distâncias e chegareis a Deus.



[1] S. João. XV, 5.
[2] Ep. Filip., IV, v3
[3] Cânticos IV, 9.