domingo, 7 de outubro de 2012

O PAI - A sua importância e os seus deveres - Parte 3

Padre Emmanuel de Gibergues


Após o dever de dar a vida, vem o dever de engrandecê-la, o dever da educação. Não é exagero dizer que é uma obra divina. Educar, educere, significa elevar o homem, tirá-lo do pecado original, em que está mergulhado por sua natureza; arrancá-lo das trevas, das servidões, das incapacidades, das humilhações, das paixões de sua natureza decaída, da escravidão do demônio, para revesti-lo de Jesus Cristo, para elevá-lo a pouco e pouco, esclarecê-lo, formar o seu espírito e coração, torná-lo vencedor de suas paixões e senhor de si mesmo, fazer dele um homem honesto, um cristão, quiçá um santo; completar nele, enfim, a semelhança divina à qual foi criado, conduzindo-o ao estado e grau de perfeição que Deus lhe destinou e, finalmente, ao lugar da sua morada eterna.
Eis a educação! é bem a obra de Deus, a obra criadora, porque Deus havia criado o homem perfeitamente educado, “a justiça e santidade da verdade” é a obra redentora, sobretudo, porque o pecado, tendo destruído a educação original do homem, foi preciso que Jesus Cristo a restabelecesse na dor e no sangue; e a continuasse todos os dias, em cada um de nós, pela graça e pelos sacramentos.
A educação é a própria obra de Jesus Cristo sobre a terra; os pais são os Seus continuadores e auxiliares; é a obra por excelência!
Mas, ai! como são raros os que pensam neste dever ou que desejam cumpri-lo! Não se preparam para isto. A educação é uma obra eminentemente difícil. Não só requer dedicação, mas muito tato, saber, experiência e observação. Quais são os rapazes e raparigas que pensam seriamente nisto, antes do seu casamento e se preparam eficazmente? ...
Preparai vossos filhos e vossas filhas; meus senhores, para serem educadores. Preparam-se para serem oficiais, magistrados, professores, industriais, sábios; preparam-se para todas as funções sérias, durante anos de trabalho, e porque os futuros pais e as futuras mães se não hão de preparar para a mais difícil de todas as tarefas; - a educação?
Não se preparam porque não se querem incomodar com isto. Logo que as crianças nascem confiam-nas a cuidados mercenários; assim que podem, para se verem livres deles, colocam-nos em colégios, ou os abandonam sem fiscalização a professores ou a professoras; e continuam a vida de prazeres, de festas, a vida mundana e egoísta.
Os enjeitados têm a caridade para recebê-los; têm religiosos ou religiosas que lhes servem de admiráveis pais e de extremosas mães. Há crianças de famílias ricas, de famílias que se dizem cristãs, que não são tão bem tratadas e que, seus pais, para livremente se divertirem as confiam a criados que, na maior parte dos casos, as corrompem e depravam.
Naturalmente, nem um pai nem uma mãe se devem isolar da sociedade, mas é necessário que o tempo que deve ser empregado nos cuidados e educação dos filhos, não seja absorvido pelos entretenimentos e outras preocupações mundanas.  
O contrário significa um abatimento moral, o desprezo do maior dever dos pais, cuja desordem e infelicidade não se poderiam lastimar bastante, e recear as consequências perniciosas.
Mas supondo um pai que compreenda a gravidade do seu dever e esteja preparado para cumpri-lo, decidido a fazer os sacrifícios necessários, a trabalhar quanto for necessário, seriamente, pessoalmente, na educação de seus filhos; que deverá fazer?
Tudo se pode resumir nos pontos seguintes: a correção, a religião, o exemplo, a preservação, a última educação, o futuro.
O dever de correção é consequência imediata da queda original.
O homem não nasce naturalmente bom, como afirma Rousseau: nasce mau, depravado, com uma vontade propensa para o mal, com terríveis paixões em gérmen; em uma palavra, com o que a Igreja chama a concupiscência, que o batismo, tornando-o filho de Deus, enfraquece, contrabalança, mas não suprime. São estes instintos perversos que a correção combate, ou antes, ensina à criança a combater por si mesma. Visto não os poder suprimir e não dever ceder-lhes, será preciso que os domine, para vencê-los mais tarde. A correção exige do pai e da mãe quatro qualidades: a perspicácia, a firmeza, a bondade e a concórdia mutua.
A correção exige a perspicácia porque é uma obra de luz e de sapiência, em que, primeiro que tudo, é preciso ver lucidamente.
É preciso conhecer-se bem o fim proposto; necessitam-se idéias nítidas; princípios sólidos, e pensar em educar as crianças para Deus e não para si mesmo. Se os pais não estão certos do que creem ou querem, como poderão corrigir seus filhos?
É preciso conhecer nas próprias crianças o que elas são; pois que nem todas são semelhantes; as suas naturezas físicas e morais são essencialmente diferentes. Tratá-las todas do mesmo modo, é um engano e um erro.
É preciso estudar, em especial, a natureza de cada criança; o seu caráter, as suas qualidades, os seus defeitos, para se saber como se há de tratar, o que se poderá exigir de dela, a medida de esforços de que poderá dispôr, o que ela tem de mais importante a combater ou a desenvolver.
Para isto, é necessário força de vontade para ver sem paixão; porém, bem poucos pais são capazes de assim proceder em virtude da cegueira a que os leva a afeição natural. Diz-se que a cegueira das mães, no que diz respeito às filhas, não se pode comparar senão à cegueira dos maridos, no que diz respeito a suas mulheres. Pode dizer-se o mesmo, dum modo geral, da cegueira dos pais para com seus filhos; é profunda e como incurável. Os educadores sabem-no e lamentam-no; os mais ilustres têm-no afirmado mais de cem vezes. Os pais defendem os filhos quando os mestres os repreendem, e dão razão aos filhos. Muito poucos pais querem reconhecer os defeitos dos filhos, saber a verdade a seu respeito.
Com a perspicácia desaparece esta cegueira da alma e morrem todas as suas ilusões. É o fruto do verdadeiro amor: illuminatos oculos cordis1. A correção é obra de luz, requer a perspicácia.

1- Epístola aos Efésios: I 18. "Os olhos esclarecidos do coração." 
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