terça-feira, 23 de outubro de 2012

O Apóstolo I - Parte I

 O APÓSTOLO

Da obrigação de ser apóstolo
Demonstrada pela condenação do inútil
Padre Emmanuel de Gibergues
Servum inutilem ejiciste.
Rejeitai o servo inútil.
S. Mateus, XXV, 30.

Meus senhores,
É um processo que vamos instaurar esta tarde. É um acusado que se julga inocente, e que dorme na mais profunda ilusão: o servo inútil, “Servum inutilem”, que vamos citar, sucessivamente, perante seis tribunais, que o condenarão sem piedade: o tribunal de Deus, do Evangelho, da razão, da sociedade, da natureza e de seus próprios interesses.
Primeiramente, é necessário precisar bem a questão, tornar conhecido o acusado, descrevê-lo em termos nítidos e precisos. Vou tocar numa chaga viva da nossa sociedade moderna: entristecerei alguns, darei prazer a outros. Lembrai-vos, meus senhores, que os missionários e os apóstolos têm todos os direitos, porque falam em nome de Deus, e porque tudo o que dizem lhes passa pelo coração, ou antes pelo coração de Deus, para penetrar no vosso, para o bem e salvação de vossas almas.
O inútil é aquele para quem a moral tem duas partes: uma que ele aceita e outra que rejeita. Declina a malo, et bonum[1]; eis a moral. Declina a malo, evitar o mal, não o consegue sempre; muitas vezes, não o evita absolutamente; mas, enfim, reconhece que faz mal, e que deveria evitá-lo.
Fac bonum, fazer o bem, não se julga obrigado a isso; não vê nisso senão um conselho, e não uma obrigação determinada e um dever.
O inútil é aquele que se dá por justificado perante Deus, se não pratica o mal, embora não pratique o bem. Para ele, não há pecados por pensamentos, por palavras e obras; nem existem pecados por desmazelo ou desleixo.
O inútil é aquele que guarda os dons que recebeu de Deus sem fazê-los frutificar, ou fazendo-os frutificar somente para ele próprio.
Poderia aplicar-se aqui a reflexão de Diderot, escrita por ele, já no fim da sua vida, na margem dum capítulo de Seneca sobre o número dos anos perdidos: “Nunca li este capítulo sem corar; é nele que está a minha história”.
O inútil é aquele que recebeu inteligência e que a não cultiva, ou cultiva-a somente para si próprio, para seu prazer e satisfação. Poderia falar, escrever, fazer obras úteis, prestar serviços, combater o erro, o mal, esclarecer os espíritos, propagar a fé nas almas, mas não o faz!
O inútil é aquele que possui fortuna e a emprega somente em satisfação dos seus prazeres. Poderá fazer algumas esmolas, e, às vezes, importantes, para dar na vista, ou para acalmar a consciência; mas nunca dará o que poderia e deveria dar. Poderia fazer muito bem, sustentar famílias inteiras, auxiliar ou criar obras meritórias, empregar, enfim, a sua fortuna magnificamente. Mas nunca tem bastante para os seus cavalos, os seus cachorros, as suas caçadas, as suas viagens, os seus prazeres, as suas reuniões, o seu modo de viver, as toiletes de sua mulher... - ia a empregar o plural, mas já não seria a vida inútil, para ser a vida culpada.
O inútil é aquele que desperdiça a sua fortuna, em vez de empregá-la em conformidade com os sentimentos cristãos e com os desejos de Deus.
O inútil é aquele que tem tempo e não o emprega senão em prazeres. Sempre muito ocupado! No inverno: no clube, bailes e espetáculos; no verão: nas águas, nas viagens; no outono, na caça.
O inútil é aquele que profana a coisa sagrada, que se chama o tempo na ociosidade e no prazer.
O inútil é aquele que tem influência ou que poderia tê-la, sobre os seus semelhantes, na família, sobre sua mulher, seus filhos, seus criados, ao redor de si, sobre seus amigos, parentes, no seu distrito, sua aldeia, seu cantão, seu departamento, seu país, e que não a tem porque se não quer incomodar. Prefere despeitar-se com o seu tempo e século - é mais cômodo -; queixar-se de que tudo vai mal, e esperar um salvador que caia do céu, a quem pediria com mais empenho, se tal acontecesse, o aumento do aluguel dos seus prédios ou terras, do que a restauração ou engrandecimento do país.
O inútil é aquele que se podia casar e não quer, para viver mais sossegado; que poderia ter filhos, e não os tem, porque não quer; ou só tem um, porque não quer ter o cuidado de muitos.
É aquele que não se interessa pela educação de seus filhos, e não lhes pede senão que o deixem sossegado. É aquele que não procura ao pé de sua mulher, senão satisfações e prazeres; que não lhe pede senão que seja a alegria e o encanto de sua vida, sem ocupar-se de desenvolver, o espírito, a vontade, o coração, a alma de sua esposa, de educá-la, de instigá-la à pratica do bem, à santificação, às boas obras, e que é capaz de impedir, até, o bem que ela deseje fazer, porque isso mesmo incomodá-lo-ia.
O inútil, em sentido ainda mais elevado[2] é aquele que trabalha, cuja vida está preenchida, mas que só visa a um fim: ter mais comodidades, ter mais êxito.
É aquele que pratica boas obras, mas somente por filantropia, ou por necessidade de atividade ou de soberana.
É aquele que deseja alcançar uma situação elevada, mas para seu próprio interesse, e não para servir o país.
É aquele que, inutilizado pela idade, ou pelo sofrimento, se revolta e murmura, em vez de submeter-se à vontade de Deus, e transformar em apostolado a sua inação forçada e as suas provas.
Todas estas vidas ocupadas, completas pelo sofrimento, trabalho, afazeres, que poderiam ser muito úteis, se fossem dirigidas para Deus, tornam-se inúteis perante Deus, porque lhes falta à intenção sobrenatural, e só é útil, no sentido cristão, o que se faz em honra de Deus.
Como vedes, há graus e categorias na inutilidade da vida. Pode-se ser um pouco inútil, muito, ou completamente inútil; duma ou doutra maneira; nisto ou naquilo...
Que cada um de vós, meus senhores, se examine, e medite para ver sobre o que há de recair a condenação que vamos pronunciar.
Se a vossa vida é totalmente inútil, empenhai-vos em transformá-la.
Se houver lacunas, preenchei-as. Se a intenção for má, corrigi-a.
Se a vossa vida for boa e útil, firmai-vos no bem: compreendei melhor as razões de nela permanecerdes; e lembrai-vos desta instrução para a repetirdes a outros, que não estão aqui, e que teriam grande necessidade de ouvi-la.
Assim, para um de vós, meus senhores, a palavra de Deus não ecoará no deserto; mas frutificará em vossas almas.



[1] Salmo, XXXVI, 27. “Evita o mal, e faze o bem.”
[2] São Mateus, VI, 22.
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