quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O Apóstolo I - parte 4

Padre Emmanuel de Gibergues


Deus é o nosso soberano Senhor: o Senhor da nossa inteligência, do nosso coração, da nossa vontade, da nossa atividade, do nosso corpo e da nossa alma.
A nossa vida não nos pertence, é d'Ele, e devemos dedicar-lh'a.
A vida sem utilidade é a maior das injustiças para com Deus, lesa todos os Seus direitos. Eis o que nos diz a razão, condenando a vida improdutiva, inútil.
A vida que não traz utilidade é condenada pela natureza. Desde a raiz duma herbácea, que absorve os sucos da terra para alimentar-se, até aos astros que giram por cima de nossas cabeças, em obediência a leis necessárias, e numa admirável e perpétua harmonia, tudo trabalha na natureza; tudo grita ao inútil: trabalha também por tua vez!
Mas ainda temos considerações mais atuais e evidentes.
A vida inútil é condenada pela sociedade, porque a prejudica e ofende, privando-a do que lhe é devido. Meus senhores, tendes recebido muito da sociedade, e é nessa proporção que lhe deveis pagar. Porque fostes pagos antecipadamente, não é razão para não merecerdes o vosso salário. O que serieis vós, e o que teríeis sido, sem a sociedade? As casas que vos abrigam, o vestuário que trazeis, o pão que comeis, os prazeres da arte, da ciência, da literatura, todas as comodidades da civilização que gozais, tudo isto, é à sociedade que o deveis. Não seria a mais iníqua de todas as injustiças, se os beneficiados com tantas vantagens não contribuíssem com as suas habilitações pessoais e trabalho, para o bem geral e para a riqueza comum?

Seria mais do que uma injustiça: seria um escândalo. O rico inútil torna-se egoísta, orgulhoso, insolente. Chega a persuadir-se que há duas raças na humanidade:
Uma, feita para servir, para trabalhar, para padecer, para se gastar ao serviço da outra; outra feita para gozar, para ser servida.
Uma, cuja mão é fina e branca, coberta de pedras preciosas, ou elegantemente enluvada; cujo corpo é delicado, e lhe repugna sofrer; cuja vida é feita de perfumes, de flores e prazeres; outra, cuja mão é rude e calosa, o corpo endurecido pela dor, a vida devotada, ao trabalho e ao sofrimento.
Oh! não, não, rico inútil e cego, não há duas raças na humanidade; há só uma. Todos os homens são irmãos e devem auxiliar-se mutuamente.
Ou antes, se houvesse uma preferência no coração de Deus, no coração d'Aquele que nos há de julgar a todos, seria pelos pobres e trabalhadores.
A vida d'Aquele que deve servir de modelo a todos nós, d'Aquele que nos, resgatou, salvou, foi uma vida de trabalho, de pobreza, de sofrimento.
A mão d'Aquele que foi pregado na Cruz, para nos livrar do pecado e da morte eterna, é a mão de um trabalhador!
O inútil constitui um escândalo para a sociedade, e, por isso mesmo, uma ameaça para a sua existência, um fermento perpétuo de revolução, um perigo de morte.
Um dia, atravessando um dos nossos boulevards, tive a empolgante demonstração de tudo isto. A alguns passos do lugar em que eu me encontrava e adiante de mim, pára uma soberba carruagem à porta dum hotel: uma senhora, maravilhosamente vestida, apeia-se com sua filha. Nesta ocasião, do lado oposto ao da carruagem e perto de mim, passava, afadigadamente, uma jovem operária, que levava um embrulho debaixo do braço. A pobre mocinha ia, penso eu, levar obra feita a alguma freguesa, e receber algumas moedas, para o seu sustento e, talvez, o de sua família.
Vendo a senhora e sua filha descerem do carro, parou repentinamente, e o seu olhar, tornando-se bruscamente refulgente, tomou uma expressão profunda e singular de dor e de inveja. Olhava para aquele soberbo vestuário, para aqueles cavalos de preço, e, sem dúvida, dizia consigo mesmo: “Com tudo isto, teria eu o bastante para alimentar minha família, durante muitas semanas!...”
É a inveja que se apodera do coração do pobre, quando o fausto dos ricos o deslumbra e lhe aparece como um escárnio. E, se a riqueza não se faz desculpar, perdoar, pelos serviços prestados, pelo emprego útil da vida, pela dedicação; se, pelo contrário, ostenta a sua inutilidade como um escândalo e uma provocação, então nasce no coração dos que sofrem, e a quem tudo falta, uma inveja desmedida, um ciúme feroz, e que se pode converter em ameaças.
No lugar dessa costureira, colocai um trabalhador de braços vigorosos; colocai cem, mil, dez mil; suponde-os sem religião, sem esperanças eternas, sem o temor de Deus; suponde que tenham a compreensão e o orgulho da sua força, do seu poder; colocai diante deles ricos orgulhosos, egoístas, ociosos, pensando só no gozo da vida e no acumular dos seus haveres; em uma palavra, homens inúteis: o primeiro grito de ódio e vingança que se erguer do seio dessas multidões trabalhadoras, arrebatá-las-á todas ao assalto da riqueza e do capital, e a sociedade afogar-se-á em sangue!
Relede a vossa história. Houve um século em que as classes elevadas haviam abandonado as funções úteis, e desertado dos cargos sociais, para irem divertir-se e dançar na Corte. A inutilidade tinha os seus grandes dias, e o escândalo ostentava-se mesmo no trono. Foi o sinal! E como a religião havia sido desprezada, rebaixada, destruída por aqueles mesmos que a deviam ter sustentado e defendido, e, não havendo já freio para as paixões populares, deu-se uma das crises mais medonhas como a história nunca tinha registrado.
A vida inútil é o fermento das mais violentas revoluções; a sociedade condena-a por ser o escândalo, a desonra e a ruína da própria sociedade.
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