segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Apóstolo I - Parte 3

Padre Emmanuel de Gibergues



A vida inútil é condenada pela razão.
A razão diz-nos que uma vida tal faz injúria a Deus, lesando todos os Seus direitos.
Deus é criador, e, por conseguinte, soberano Senhor do homem e de sua vida. Será necessário prová-lo?
Qual é para o homem, a operação análoga à ação criadora? É o trabalho.
E que lhe confere o trabalho? O direito de propriedade. O que o homem fez com as suas mãos, com a sua indústria, com o seu gênio, pertence-lhe, e pertence-lhe em absoluto. Pode dar o produto do seu trabalho, vendê-lo, destruí-lo, que não tem que dar contas a ninguém. Ainda com mais razão, Deus tem os mesmos direitos sobre a Sua criatura; porque o homem não deu senão a forma aos objetos saídos de suas mãos; não criou a sua matéria primordial; operou somente uma transformação; mas Deus tirou-nos do nada. Nada havia; só Deus é que existia.
Sem obrigação alguma, sem interesse, sem nenhuma necessidade, tendo, em Si mesmo, tudo, Deus criou-nos por um ato soberanamente livre e gratuito de Sua vontade. Somos inteira e totalmente de Deus, portanto; somos inteira e totalmente para Deus; somos o Seu bem, a Sua propriedade, a Sua obra, a Sua obra prima. Deus, por direito de criação, é soberano Senhor do homem.
Ainda mais: a obra saída de nossas mãos subsiste por si mesmo, pelo menos por um tempo mais ou menos longo, segundo a sua natureza.
Os que construíram as nossas belas catedrais da Idade-Média morreram há muito tempo, e esses monumentos, obra deles, subsistem ainda... Nós não podemos subsistir um instante sem Deus, nem mesmo agir sem Ele. Criador do nosso ser, é o seu conservador necessário, e como uma pedra não pode equilibrar-se no espaço, sem que a nossa mão a sustente, nós não podemos subsistir no ser, senão mantidos por Deus; diz São Paulo, nós somos n’Ele. Não podemos agir e viver senão com o Seu auxílio, in ipso vivimus e movemur.[1]
Como o ar, que respiramos, nos envolve, nos penetra, regenera o nosso sangue, renova e entretém a nossa vida, o poder de Deus envolve-nos, sustenta-nos, dá-nos o ser, o movimento e a vida. O direito de Deus conservador do nosso ser, não é menos absoluto do que o direito de Deus criador.
Somos, a todo o instante da duração, por Deus; portanto, somos, a todo o instante, de Deus.
Ainda não é tudo. A vida sobrenatural da graça, que nos foi dada no batismo, essa vida maravilhosa, que é a própria vida de Deus em nós, divinae consortes naturae[2], é, em realidade, uma segunda criação, bem mais admirável do que a primeira, e que confere a Deus, sobre nós, novos direitos, que excedem aos primeiros como o infinito excede ao finito. Sobrenaturalmente, bem mais ainda do que naturalmente, somos de Deus, e por Deus; portanto, para Deus. Os direitos de Deus, o Seu domínio soberano sobre o cristão, aumentam na proporção de toda a extensão do dom que ele recebeu o dom da vida divina.
Neste novo dom, que liberalidade!
Tinhamo-los perdido pelo pecado; Deus no-lo deu de novo. Tornou a dá-lo à humanidade pela Redenção: dá-o de novo a cada um de nós, pelo Batismo e pela Providência. Torna a dá-lo, até aos pagãos, se seguem a luz natural da sua consciência, pelo desejo do batismo.
Como torna Ele a dá-lo? Superabundavit[3], com superabundância. E à custa do que? Será sem esforço, sem sofrimento da Sua parte? Podia fazê-lo: um só ato da humanidade do Verbo teria sido suficiente para resgatar milhares de mundos...
Não o quis. Para fazer-nos apreciar mais a Sua grandeza, e para tocar mais o nosso coração endurecido, foi por Sua pobreza, por Sua humildade, pelo Seu trabalho, pela Sua obediência, pelos Seus sofrimentos, pela Sua morte, pelo Seu sangue e pela Sua vida, que no-lo deu novamente, que nos resgatou: pretioso sanguine redemisti[4].
Se a justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido, o que devemos a Deus, sendo infinito, pois que o valor é infinito, e o preço pelo qual o recuperamos infinito também, a justiça confere a Deus, sobre nós, direitos infinitos, direitos absolutos.  
Eis o que nos diz a razão.
E que o homem não nos venha dizer: Não pedi para nascer, tivessem-me deixado no nada... Objeção insensata, que limita o supremo poder de Deus, tirando-Lhe o direito de criar; objeção que dá direitos ao nada, o direito de recusar-se ao ser, objeção que põe em paralelo o nada com Deus! – O que? Deus não teria o direito de dar, o direito de ser bom, o direito que vós tendes, sim, vós, o direito de serdes pai? Deus não teria o direito de criar? Deus deveria pedir licença ao nada, antes de produzir o ser? Não, mil vezes não!
Pelo Seu amor e a Sua onipotência, Deus cria o homem, eleva-o ao estado sobrenatural, resgata-o e salva-o. Estes atos de Deus constituem o homem na dependência e no dever, conferindo-lhe, ao mesmo tempo, os direitos necessários para cumprir o seu dever e alcançar o seu duplo fim: a glória de Deus e a sua própria felicidade.
“O homem foi criado para Deus”, diz santo Inácio, resumindo tudo nestas três palavras. Para Deus, isto é, para reconhecer os Seus direitos, para submeter-se a Ele, para glorificá-lO.



[1] Atos dos Apóstolos, XVII, 28.
[2] Segunda Epístola de São Pedro I, 4. “Participantes da natureza divina”.
[3] Epístola aos Romanos V, 20.
[4] Te-Deum.