sábado, 27 de outubro de 2012

O Apóstolo I - Parte 2

Padre Emmanuel de Gibergues


A vida inútil é condenada por Deus.
Sempre o foi, desde a origem, pela lei do trabalho, imposta ao homem, mesmo antes do pecado. Deus, diz a Escritura Sagrada, havia colocado o nosso primeiro pai no Paraíso terrestre “para trabalhar, ut operaretur”[1].
A lei do trabalho foi renovada ainda mais formalmente, depois do pecado. Já obrigatório, mas alegremente aceito, como desabrochamento necessário da atividade livre, o trabalho tomou, desde então, um caráter novo de expiação, de castigo e reparação: In sudore vultus tui, vesceris pane[2].
Nenhuma exceção, aliás, foi feita, nem por direito de nascimento, nem por direito de fortuna, nem por direito de superioridade alguma, intelectual ou moral. Os príncipes como os vassalos, os reis corno os povos, os senhores como os servos, os ricos como os pobres, os que possuem o necessário ou o supérfluo como os que nada têm, a todos toca a lei, pois a lei foi feita pelo Criador do universo e Senhor do mundo.
Os escritores sagrados não cessaram de lembrá-la à humanidade decaída “O homem, dizem eles, é feito para trabalhar, como o pássaro para voar”[3]. “Aquele que não trabalha não é digno de comer”[4].
Levantam-se indignados contra a preguiça, e forçam o inútil a corar, indicando-lhe a formiga como exemplo do trabalho, e com quem póde aprender. Vade ad formicum, opiger[5].
Não se trata, todavia, só do trabalho material, do trabalho do corpo. O trabalho do espírito está compreendido na lei, e não é menos doloroso: o Padre Lacordaire dizia, com razão, que se “crucificava à sua pena”. Trata-se de todo o trabalho útil, de todo o emprego do corpo ou da alma, para o bem e a felicidade dos outros. É a lei de Deus; condena o inútil.
O inútil é condenado pelo Evangelho. São os exemplos e as palavras de Jesus Cristo que o condenam. Jesus Cristo sujeitou-Se a trabalhar numa humilde oficina durante trinta anos, para honrar o trabalho, para nos mostrar evidentemente a necessidade de trabalhar, para ter o direito de dizer-nos, como o fez no fim de Sua vida: dei-vos o exemplo: exemplum dedi vobis[6].
Jesus Cristo, nos Seus ensinamentos, levantou-Se, com toda a Sua força, contra os inúteis.
Que imagem maravilhosa dá-nos do inútil, a árvore que, embora plantada em terreno fértil e, não obstante ter sido objeto de todos os cuidados, não produz fruto, no primeiro, no segundo, nem no terceiro ano.
Ut quid terram occupat?[7] que faz ela sobre a terra? Porque toma o lugar que poderia ser tão utilmente ocupado por outras? Para que, esses bens de que goza e gasta em seu próprio beneficio, sem dar nada nem produzir nada para os outros? Mas cautela, que a cólera do Salvador póde explodir!
Primeiro que tudo, é uma ameaça: excidetur, et ignem mittetur[8] será cortada e lançada ao fogo. Mas não, isto não basta! Para que esperar mais? A paciência divina está cansada: succidite[9] cortai-a imediatamente!
Que retrato mais frisante pode haver do inútil, do que o desse servo que recebe do seu senhor certo talento, e, em vez de fazê-lo prosperar, o esconde, o enterra? Recebeu de Deus muitos dons: dons da situação e da fortuna, dons da inteligência e do coração, dons da natureza e dons da graça. Esteriliza tudo; sepulta tudo, no seu egoísmo e na sua inação.
Que fará o seu Senhor, que fará Jesus Cristo? Indignar-Se-á contra ele; dar-lhe-á justas repreensões; tirar-lhe-á o que lhe deu; repudiá-lo-á; amaldiçoá-lo-á; Servum inutilem ejicite in tenebras exteriores[10], repudiai este servo inútil!
E Jesus Cristo acrescenta: que pedirá mais aquele que tiver recebido mais: cui plus datum est, plus datum est, plus quaeretur ab eo[11]... Oh, vós a quem Deus encheu de favores, compreendei a grandeza de vossas obrigações!
A medida de vossa responsabilidade é a medida dos benefícios que tiverdes recebido; e se fordes infiéis, o castigo será proporcional às graças que houverdes desprezado: potenter potenier tormenta sustinebunt[12].



[1] Genesis, II, 15.
[2] Genesis, III, 19. “Comerás o pó com o suor de teu rosto.”
[3] Jó, V, 7.
[4] São Lucas, X, 7, 1ª epístola aos Coríntios, III, 8.
[5] Provérbios, VI, 6.
[6] São João, XIII, 15.
[7] São Lucas, XIII, 7.
[8] São Mateus, VII, 19.
[9] São Lucas, XIII, 7.
[10] São Matheus, XXV, 18.
[11] São Lucas, XII, 48.
[12] Sabedoria, VI, 7. “Os pecadores serão poderosamente torturados”.
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