quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Meios de adquirir a simplicidade

A Simplicidade segundo o Evangelho,
Instruções às senhoras e jovens por Monsenhor de Gibergues, 1945.


Depois do que acabamos de dizer, quem não quereria adquirir a simplicidade?
Mas, como alcançá-la?
Primeiramente, é preciso meditar sobre essa virtude para compreender-lhe a primordial importância e a inevitável necessidade, e para que seja despertado o mais ardente desejo de alcançá-la a qualquer preço.
Sem esse ardente desejo, sem uma inabalável resolução da vontade, nada conseguireis e todos os vossos esforços servirão apenas para construir castelos no ar.
Vossas tentativas e veleidades ruirão desastrosamente diante do egoísmo, do amor próprio, do interesse, das paixões e de todos os objetivos humanos que incessantemente influenciarão e derrubarão o edifício da simplicidade, à medida que o erguerdes.
Mas, desde que tenhais serena e firme vontade de conquistar a simplicidade, eis o que deveis fazer.
Em primeiro lugar, regularizai a vossa vida em geral, e o conjunto das vossas ocupações e atividades, para ficardes certas de que tudo o que fizerdes estará de acordo com a vontade de Deus.
Um regulamento de vida bastante flexível para adaptar-se às diversas exigências de vossa condição e ajustar-se às mil circunstâncias imprevistas que sobrevirão e transformarão vossos planos; mas suficientemente precioso para excluir o capricho e a vontade pessoais que estão sempre tentando fugir à ordem e ao dever: tal regulamento, baseado nos conselhos de um prudente diretor e, sob seu controle, é a primeira condição e o meio indispensável para atingir a pureza de intenção e a simplicidade.
Somente, então, podeis estar seguras de verdadeiramente buscar a vontade de Deus, como fim último de vossas ações e de vossa vida.
Em seguida; toda noite, antes de adormecer, dedicai dois ou três minutos a passar revista ao dia seguinte, planejando as modificações ou acréscimos que deverão ser feitos no vosso regulamento, em geral, e a pôr todas as coisas nos devidos lugares, considerando sempre a vontade de Deus como regra constante e absoluta de todos os vossos atos.
De manhã, logo que acordardes, oferecei em conjunto a Deus todos os pensamentos, palavras e ações do dia. Prometei-Lhe e protestai que tudo desejais fazer por Ele, pela Sua glória, Seu serviço e Seu amor, em união com os atos que Nosso Senhor Jesus Cristo e Maria Santíssima realizaram aqui na terra, e que a todo instante o Espírito Santo faz com que sejam realizados pelos justos e pelos santos no mundo.
Se não for retratado, já este primeiro oferecimento comunicará a todas as vossas ações a intenção a que chamamos virtual e que é suficiente para as sobrenaturalizar. Tereis provocado em vossa alma uma disposição interior de simplicidade; e, enquanto durar tal estado, imprimirá aos vossos atos um sinal de santidade que os tornará essencialmente agradáveis a Deus.
Além disso, renovai de quando em vez vossa intenção da manhã, de modo particular, ao começardes alguma ação, sobretudo as principais e as mais demoradas, nem que seja dizendo mentalmente: "Para Vós, meu Deus! para Vós: esta meditação, este trabalho, esta refeição, esta visita, esta boa ação, este sofrimento, esta provação!...”
Conta-se que um piedoso eremita nunca iniciava uma ação sem que antes parasse um momento para levantar os olhos ao céu. E, quando lhe perguntavam a razão disto, respondia: "É para melhor garantir o êxito.”
Como o caçador, antes de atirar, mira a caça por um momento para mais seguramente atingi-la, assim o eremita mirava Deus para certificar-se de que O alcançaria. Fazei como ele: contemplai sempre Deus, antes de agir, formulando uma intenção reta e pura.
Se, no decurso de uma ação assim empreendida, se insinuar uma tentação que vos sugira intenções humanas, menos dignas ou até más, não vos perturbeis e não vos interrompais; respondei, simplesmente, como o venerável João d'Ávila, à vaidade: "Chegas demasiado tarde, já dei tudo a Deus"; e continuai o trabalho.
Mesmo que vos agite ou vos amedronte à idéia de que o mundo verá vossas boas obras, nem por isso deveis desistir. Lembrai-vos da palavra do Evangelho: "Que vossa luz brilhe diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus."[1]
Se transparecer o bem que fazeis, outros, a seu turno, desejarão praticá-lo, e Deus será glorificado. Pensai nisto para que vos alegreis e esquecei os elogios e o proveito que podereis conseguir. Desta forma vossa intenção permanecerá pura.
No decurso de vossas ações, principalmente quando se prolongarem, renovai vossa intenção, elevando a alma a Deus e repetindo do fundo do coração: "Para Vós, meu Deus!" Se puderdes interromper  o vosso trabalho alguns instantes, sem, prejudicar àquilo que fazeis, perguntai-vos: "Qual o objetivo que pretendo alcançar?" E logo tornai a dizer: "Para Vós, meu Deus, só para Vós!"
Se, durante a meditação ou a prece, alguém vos importunar, se, por motivo de saúde ou por dever de estado, fordes impedidas de comungar ou de assistir à missa, como de costume, lembrai-vos de que é preciso saber "deixar Deus por Deus." Renunciando, assim, sem má vontade, porque é Deus quem vos pede, a um exercício de piedade que vos é caro, unir-vos-eis ainda mais estreitamente a Ele; adiantai-vos na simplicidade e, por conseguinte, na perfeição.
Desconfiai da impulsividade, da precipitação, da agitação, do nervosismo, da atividade demasiado natural, muitas vezes febril, que não é abençoada por Deus.
Sede calmas, serenas, tranqüilas. Se não o fordes na imaginação, na sensibilidade, nas faculdades inferiores da alma, que nem sempre podem ser plenamente controladas pela vontade, sede-o pelo menos na parte superior de vós mesmas, em vossa pessoa moral, nas altas regiões que Deus olha quando vos julga, e que são as que dependem unicamente de vosso livre arbítrio. Apressai-vos lentamente, e com maior segurança encontrareis Deus.
Dizei jaculatórias com a maior freqüência possível. Para adquirir este hábito, não hesiteis em empregar meios que pareceriam pueris, se não fossem infinitamente realçados pela grandeza do fim a atingir. Convencionai, por exemplo, elevar por um instante o coração a Deus, todas às vezes em que ouvirdes o bater das horas, que passardes de uma para outra sala, que vos sentardes à mesa ou à secretária, que fechardes uma carta, que vos preparardes para viajar, que entrardes em uma casa ou sairdes dela, e em mil outras circunstâncias que estabelecereis.
Não há meios pequenos quando utilizados para grandes coisas. À medida que vos fordes habituando a recorrer a Deus, vosso coração se aquecerá, vosso amor crescerá. Em breve, não vos será mais necessário meio algum. De tal sorte vossa alma terá fome e sede de Deus, que espontâneamente, e por instinto, para Ele se elevará constantemente.
A agulha imantada da bússola dirige-se para o norte. Se a desviais, exerce pressão nos dedos e assim manifesta sua tendência natural; e, desde que a solteis, volta à sua orientação.
Da mesma maneira, a alma, que alcançou a verdadeira simplicidade, volta-se para Deus por instintiva necessidade. Se, aparentemente, as ocupações da vida a afastam de Deus, no íntimo tende sempre a voltar para Ele e, desde que o pode, retoma inteiramente a Ele. 



[1] São Mateus, V, 16.