segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A perfeita casada (XV) - Frei Luís de León

Muitas filhas alegaram riquezas,
mas tu superaste a todas elas.


O hebreu chama de filhas todas as mulheres. Por riquezas haveremos de entender, não só os bens materiais mas também os da alma, como são o valor, a fortaleza, o trabalho, cumprir com seu ofício, com tudo o demais que pertence à perfeição desta virtude. Diz Salomão que os filhos da perfeita mulher casada, louvando-a, a elevam sobre todas, e dizem que das boas ela é a melhor. Salomão escreve que dirão conforme o costume dos que louvam, que é comum que o que é louvado fique fora de toda comparação. Em verdade, tudo que é perfeito em seu gênero tem isso que, se olharmos com atenção, enche a vista de quem olha, que o faz pensar que não há nada igual.
Dizendo de outra maneira, não é que se faz comparação com outras casadas que foram perfeitas, e sim com as que pareceram querer sê-lo. E isso se encaixa muito bem, porque esta mulher que é louvada aqui, não e nenhuma em particular que foi como dissemos, e sim o modelo; e não é uma perfeita, mas todas as perfeitas, ou melhor, a própria perfeição; e assim não se compara com outra perfeição de seu gênero, porque não há outra. Porque a cada virtude segue outra, que não é ela nem virtude; como a ousadia parece fortaleza, e não é, e o despachado não é liberal, mesmo que pareça.
Do mesmo modo há mulheres casadas que querem se mostrar completas e perfeitas em seu ofício, e quem não prestar atenção pensará que são, mas na verdade não o são. E isso por diferentes motivos: porque algumas se são caseiras, são avarentas; umas criam os filhos e não se preocupam com os criados; outras porque mimam a família e se unem em bando contra o marido. E porque todas elas têm algo dessa perfeição, parece que a tem toda, e de fato carecem dela, porque não é coisa que se vende por partes. Ainda há algumas que se esforçam, mas não por razão, mas por inclinação ou por desejo; e assim são volúveis e não conservam sempre um teor nem têm a verdadeira virtude, mesmo chegando bem perto. Porque esta virtude como as outras, não é planta que cresce em qualquer terreno, nem é fruta de toda a árvore, mas que quer seu próprio tronco e raiz e não nasce nem brota se não for de uma fonte que é a que se declara a seguir:
Engano é a graça, e zombaria,
a beleza; a mulher que teme a Deus 
é digna de louvor.