quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A perfeita casada (XIV) - Frei Luís de León


Levantaram-se seus filhos e a louvaram,
e elogiou-a também seu marido.


Parecerá a alguns que uma mulher que tem filhos e marido que a elogiem, tem mais boa fortuna que virtude. E dirão que não é esta alguma das coisas que ela deve fazer para ser quem deve, e sim das que, se for, acontecerão.
Mas mesmo sendo verdade que lhes acontece isso, deve-se entender que não é por acaso, e sim porque fizeram por merecer. E nos ensina Salomão a cuidar do marido; criar bem os filhos, de modo que não só com devidas e agradecidas palavras a louvem, porém muito mais com feitos e obras. Que é pedir tanta bondade e virtude, como são necessárias, não só para si, mas também para o marido e os filhos. E assim não se deve pensar que pedir esta virtude é pedir o que não podem fazer, porque se alguém pode com o marido é a própria mulher. E se o pensamento cristão obriga ao bem do estranho, deve-se pensar que a mulher está obrigada a cativar e melhorar seu marido.
São duas as coisas que elas têm para persuadir a eficácia: a amizade e a razão. Pois vejamos qual dessas duas coisas falta na mulher que falamos aqui, ou vejamos se há algum deles que se iguale com ela em isso.
O amor que há entre marido e mulher é mais estreito, como é notório, por natureza lhe acrescenta graça, acende o costume e os une estreitamente com outras obrigações. Pois a razão e a palavra da mulher discreta é mais eficaz que nenhuma outra nos ouvidos do homem, porque é doce.
Muitos homens que habitam em Israel são de tão discreta e mais discreta razão que a mulher de Técua (I Livro dos Reis, 1); e para persuadir Davi para que retomasse a graça a seu filho Absalão, Joab, seu capitão-geral, aproveitou-se do aviso de esta mulher só, e ela quis que com sua boa razão e sua palavra doce, amolecesse a piedade do coração do rei, justamente indignado; e conseguiu. Porque, como digo, melhora-se e esforça-se muito qualquer boa razão, na boca da boa e sábia mulher. Quem não gosta de agradar a quem ama? Ou quem não se fia de quem é amado? Ou quem não dá crédito ao amor e à razão quando se juntam? A razão não se engana o amor não quer se enganar; e assim, por esse motivo, tem a boa mulher agarrado o marido em todos os portos, porque não pensará que se engana a que é tão discreta, nem suspeitará que quer lhe enganar a que, como sua mulher, o ama. E se os benefícios, na vontade de quem os recebe, criam desejo de agradecimento e garantem que sem receio se fie daquele que os recebeu, ambas coisas fazem poderosíssimo o conselho que dá o beneficiador ao beneficiado.
De um homem estranho, se ouvimos que é virtuoso e sábio, acreditamos em seu parecer; duvidará o marido de obedecer à virtude e discrição que a cada dia vê e sente? E porque dizemos a cada dia, têm ainda mais as mulheres para alcançar de seus maridos o que quiserem e que podem tratar com seus maridos nos melhores momentos. Muitas vezes o que a razão não consegue a importunidade vence, e principalmente a da mulher, que como dizem os conhecedores, é a maior.
A mulher pode muito, e a virtude e a razão por separado são muito valentes, e juntas se ajudam entre si e se fortificam de modo tal, que deixam tudo aos seus pés. Elas sabem que digo a verdade, e que é verdade que se pode provar com o exemplo de muitas, que com seu bom conselho e discrição, corrigiram mil males sinistros em seus maridos e ganhando-lhes a alma e corrigindo sua condição às vezes brava, em outros distraída e em outros de diferentes formas viciosa. De modo que as que se queixam agora deles e de sua desordem, queixem-se primeiro de si mesmas e de sua negligência, pela qual não são como devem.
Mas se não podem com o marido, com os filhos, que são parte sua e os têm desde seu nascimento e que são na infância como de cera, que podem dizer, senão confessar que os vícios deles e os desastres provocados por seus vícios, na maioria das vezes são culpa dos pais. E agora falando das mães, entendam as mulheres que, se não têm bons filhos, grande parte disso se deve a que não são elas totalmente suas mães. Porque não há de pensar a mulher casada, que ser mãe é só gerar e parir um filho; que o primeiro foi seu deleite, e o segundo necessidade natural.
O que se segue depois do parto é o puro ofício da mãe, e o que pode fazer o filho bom e o que de verdade a obriga. Por isso esta perfeita mulher casada não o será se não cria seus filhos, e que a obrigação que tem por seu ofício de fazê-los bons, essa mesma obrigação tem de criá-los no peito; porque com o leite, não digo que se aprende, que seria o melhor, porque contra o mal aprendido o remédio é o esquecimento; mas digo que se bebe e se transforma em substância e como na natureza, tudo de bom e tudo de mau que há naquela de quem se recebe. Porque o corpo tenro de uma criança, que saiu como começada do ventre, termina de se formar com o seio maternal. Depois de bem formado o corpo, virá (o cuidado da) alma, cujos costumes nascem de suas próprias inclinações; e se os filhos saem aos pais de quem nascem, como não sairão às amas que os amamentam, se for verdadeiro o refrão espanhol? Por acaso não vemos que quando a criança está doente purga se a ama que o cria, e purificando e sarando o mau humor dela, damos saúde a ele.
Entendamos que como é única a saúde, assim é único o corpo; e se os humores são únicos, também o serão as inclinações, as quais por andar sempre irmanadas com eles, com razão são chamadas de humores. Se a ama for bêbada, devemos entender que o coitadinho beberá, com o leite, o amor pelo vinho; se colérica, se tonta, se desonesta, se de vis pensamentos, como geralmente o são, a criança será igual. Se não criar os filhos é colocá-los em tão claro perigo, como é possível que cumpra com o que deve a mulher casada que não os cria? Quer dizer que aquela que na melhor parte se sua casa, e para cujo fim casou-se, põe tão poucos cuidados, de que lhe vale ser diligente no resto, se no mais importante é descuidada? Se o filho for um perdido, de que lhe servem os bens; que bem pode haver na casa onde os filhos para quem é, não são bons? E se a piedade com todos é parte da virtude conjugal, como já dissemos, como é possível entregar o fruto de suas entranhas a um estranho, e a imagem de virtude e de bem que nele havia a natureza começado a obrar, consentem que a outra apague, e que imprima vícios no que saiu do ventre com boas inclinações; certamente não são boas mulheres casadas. Porque é próprio da mulher casada gerar filhos e fazer isso é perdê-los; e é próprio dela gerar filhos legítimos, e os que se criam assim, olhando-os bem, são bastardos.
Para que você entenda que é verdade, a mãe que gera o filho só põe uma parte de seu sangue, a qual a virtude do homem, torna carne e ossos. A ama que cria põe o mesmo, porque o leite é sangue, e naquele sangue a mesma virtude o pai que vive no filho faz a mesma obra; mas a diferença é esta, que a mãe o manteve por nove meses e a ama por vinte e quatro; (a ama acaba tendo mais influência sob a criança que a mãe). De modo que, levando tudo em conta, a ama é mãe e quem o pariu é pior que madrasta, pois afasta de si o filho e deixa de lado o que havia nascido legítimo, sendo a causa de que seja mal nascido quem poderia ter sido nobre, e comete de certo modo um tipo de adultério, um pouco menos ruim, mas não menos danoso que o comum, porque naquele vende o marido pelo filho que não é, e aqui o que não é dela, e faz sucessor de sua casa o filho da ama e da moça, que as vezes é uma vilã...
Combina com isso o que disse certo romano, da família dos Gracos, que voltando da guerra vencedor e rico, e vindo ao seu encontro para recebê-lo, alegres e regozijadas, sua mãe e sua ama ele repartiu com elas os presentes que trazia: para a mãe um anel de prata e para a ama um colar de ouro; e como a mãe reclamasse indignada, ele respondeu que ela o teve por  nove meses no ventre e a ama por dois anos no peito...; a mãe, depois de nascer o afastou, mas a ama se ofereceu e o recebeu em seus braços, tratando-o amorosamente, fazendo com que seja o que é hoje.
Manda São Paulo, na doutrina que dá às mulheres casadas, "que amem seus filhos". É natural que as mães os amem, e não tinha porque São Paulo se encarregar de um preceito tão comum, do qual se entende que dizer "que os amem"; que os crie, e os amamente; é isso que São Paulo chama de amá-los, pois não criá-los é vendê-los e fazê-los não filhos seus, e como deserdá-los de seu natural, já que todas elas são obras de grande aborrecimento, e tão grande que vencem até as feras. Qual é o animal que não cria seus filhotes e os entrega para que outro os crie, confiando a criação do que pariu? A braveza da leoa, que sofre mansamente com seus filhotes sugando suas tetas. E a tigresa, sedenta de sangue, dá alegremente o seu, pelas suas crias. Se olhamos para o delicado passarinho, que, por não deixar seus ovos, se esquece de comer e enfraquece, e quando eles saem do ovo; voa ao redor trazendo com o bico o que vão comer, e não come para que eles comam.
A natureza por si mesma declara sua vontade, enviando, logo depois do parto, leite às mães. Esse é o mais claro sinal que Deus envia. Quando enche os peitos das mulheres, as manda criar; enchendo seus peitos avisa que devem ser mães; os raios do leite que vêm são como ferroadas, que as despertam para que se aproximem do que pariram. Mas algumas fazem ouvidos surdos a tudo isso, e se desculpam dizendo que é muito trabalho e que envelhece parir e criar. É trabalhoso, confesso; mas, se for assim, quem fará seu próprio serviço? Que não esgrima a espada o soldado, nem se oponha ao inimigo, porque é perigoso e cansativo; e porque se desgasta muito no campo, descuide o pastor de suas ovelhas.
É trabalhoso parir e criar; mas entendam que é um trabalho irmanado e não há permissão para dividi-lo. Se incomoda criar não devem parir (entenda-se aqui que o primeiro fim do matrimônio é a prole), e se gostam de parir também criem. Se nisso há trabalho, o do parto é sem comparação maior. Porque, então, as que são valentes no que é maior, se acovardam no que é menor? Bem se deixam entender as que o fazem assim, e quando não pelos filhos, por vergonha, deveriam trazer mais cobertas e disfarçadas suas inclinações. Parir, mesmo que seja uma dor terrível, passa.
Ao criar não enfrentam, porque não há deleite que o delate. Apesar de que, se olharmos bem, nem isto lhes falta às mães que criam; antes neste trabalho a natureza, que é sábia e prudente, repartiu grande parte de gosto e contentamento; o qual, mesmo os homens não o sentindo, a razão nos diz que há, e nos extremos que fazem as mães com os filhos o vemos. Que trabalho não paga a criança a sua mãe, quando ela o tem em seu colo nu... quando a agarra com sua mãozinha, quando a olha sorrindo. E quando se prende em seu pescoço e a beija, acho que ainda a deixa agradecida.
Crie, pois, seu filho a mulher casada perfeita, e conclua nele o bem que formou, e não deixe que façam mal à obra de suas entranhas, e não queira que torne a nascer mal o que havia nascido bem, nem que o leite seja mestre de vícios, nem faça bastardo seu sucessor, nem consinta em que conheça a outra antes que a ela por mãe, nem queira que começando a viver comece a se enganar.
Que seja ela a primeira a olhar seu filho, que o rosto dela se fixe no dele. A piedade, a doçura, o cuidado, a modéstia, o bom saber, com todos os demais bens, não só os passe com o leite ao corpo da criança, mas também os comece a imprimir na alma tenra dele com os olhos e com o semblante; e ame e deseje que seus filhos sejam totalmente seus... Porque esses com as obras a elogiarão sempre, e muitas vezes com palavras dizendo o que segue:

Muitas filhas alegaram riquezas,
mas tu superaste a todas elas. 

P.S: Excerto e com algumas observações em parênteses.
P.S2: Entenda-se que o autor trata da mãe que por vontade própria (e não por uma debilidade física) não quer amamentar ela própria os seus filhos.