quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A perfeita casada (XIII) - Frei Luís de León


Rodeou todos os cantos de sua casa
e não comeu o pão em vão.


Quer dizer que se levantando, a mulher há de prover as coisas de sua casa, colocar ordem nelas, não há de fazer o que muitas agora fazem, isto é, logo que põem os pés no chão ou mesmo ainda na cama, comem seu almoço como se houvessem passado a noite trabalhando. Outras se sentam frente ao espelho e ficam se pintando durante três ou quatro horas e quando chega o marido não há nada pronto.
Salomão fala disso, não porque não houvesse falado antes, mas porque repetindo fica mais firme na memória, como coisa importante. E o diz também, porque dizendo à mulher que gire pela casa, quer ensinar o espaço pelo qual ela deve andar; é como dizer que o campo dela é a própria casa e não as ruas, nem as praças, nem as hortas, nem as casas alheias.
"Rodou, diz, pelos cantos de sua casa"; para que se entenda que deve andar pela casa, que deve estar presente em todos os cantos. Não dissemos antes que o motivo pelo qual Deus fez a mulher e a deu ao marido como companhia, foi para que guardasse a casa, e cuidasse do que o marido traz para casa? Se é próprio de sua natureza guardar a casa, não se permite que ande na rua, de casa em casa e ociosa. Diz São Paulo a seu discípulo Tito que ensine às mulheres casadas para que "Sejam prudentes, que sejam honestas, que amem seus maridos e cuidem de suas casas”. Porque Deus fez as mulheres fracas e com membros moles, para que fiquem no seu canto.
A mulher da rua perverte seu natural. E como os peixes, enquanto estão dentro d'água, nadam ligeiros, mas se por acaso saem dela ficam ali sem poder se mexer, assim a boa mulher enquanto está dentro de casa é ágil e ligeira, mas fora dela é manca e torpe.
Deus não as dotou da criatividade necessária para os negócios maiores, nem de força para a guerra e o campo, contentem-se com o que são que é sua sorte, e entendam-se em sua casa e andem por ela, pois Deus as criou para isso.
(...)

Mesmo na igreja, onde a necessidade da religião as leva, quer São Paulo que estejam cobertas, e que quase não sejam vistas pelos homens. O que há de fazer fora de casa se não tem nada a ver com as coisas que fora se tratam?
Sendo assim, as que ficam em suas casas, ocupadas (com o lar), as melhorarão e andando fora, elas as destroem. E as que andando pelos cantos ganharão a boa vontade do marido, andando pelas ruas corrompem os corações alheios e amolecem as almas dos que as vêem, as que, por ser elas moles, foram feitas para a sombra e o segredo das paredes.
E se é próprio da má mulher vagar pelas ruas, como diz Salomão nos Provérbios, temos que há de ser propriedade da boa mulher aparecer poucas vezes em público.
Diz alguém, acerca do poeta Menandro:

À boa mulher lhe é próprio e bom
continuamente estar em sua moradia,
porque vagar fora é próprio das vis.

Nem por isso pensem que não serão conhecidas ou estimadas se ficam em casa, porque ao contrário, não há nada que as faça mais apreciadas que assistir nela o ofício, como a pitagórica de Teano, em seu canto fiando e tecendo.
Porque às que assim o fazem acontece o que digo a seguir:

Levantaram-se seus filhos e a louvaram,
e elogiou-a também seu marido.
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