quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A perfeita casada (XII) - Frei Luís de León


É assinalado nas portas seu marido, 
quando senta-se com os governadores do povo.


Nas portas da cidade ficavam as praças, e nas praças ficavam os tribunais e assentos dos juízes, e dos que se juntavam para consultar sobre o bom governo e regimento do povo. Conta-se que nas praças e lugares públicos, e onde houver junta de homens principais, o homem cuja mulher for como se indica aqui, será mediante ela conhecido, e assinalado e apreciado por todos. E diz isto Salomão em Salomão e o Espírito Santo, não só para mostrar quanto vale a virtude da boa, pois dá honra a si mesma e enobrece seu marido, mas também para ensinar nesta virtude da perfeita casada, da qual estamos falando, que é o sumo dela, e a meta até onde há de chegar, que é coroa de luz, e benção e alteza de seu marido. Pois assim é conhecido por todos e acatado e reverenciado, e todos têm por ditoso e bem-aventurado ao que coube esta boa sorte; em primeiro lugar porque lhe coube, porque não há jóia nem posse tão apreciada e invejada como a boa mulher; e segundo porque, mereceu que coubesse; porque assim como este bem é precioso e raro, e dom propriamente dado por Deus, que só é alcançado por aqueles que temendo-O e servindo-O, o merecem com marcada virtude.
Assim testemunha Deus no Eclesiástico: "Sorte boa é a mulher boa, e é parte do bom prêmio dos que servem a Deus, e será dada ao homem pelas suas boas obras". Aquele que tem uma boa mulher, é estimado por tê-la, e virtuoso por merecer tê-la. De onde se entende que carecer deste bem, muitas vezes, é por sua própria culpa. Porque em verdade, o homem vicioso e distraído, de avessa condição, que joga seus bens, é um leão em sua casa e segue a desonestidade, não espere ter uma boa mulher, porque não a merece; nem Deus a quer tão mal que deseje juntá-la a uma tão má companhia e porque ele mesmo, com seu mau exemplo a estraga e corrompe.

Porém Salomão toma ao caseiro da mulher, e diz:
Pano teceu e vendeu-o;
franjas deu ao cananeu.

Chama de cananeu ao mercador, porque os daquela nacionalidade geralmente tratam disto, como o português. E vai sempre acrescentando uma virtude a outra virtude, e leva pouco a pouco sua maior perfeição a esta pintura que faz, e quer que o trabalho e o cuidado da boa casada seja não só para sua casa, mas que venda o que sobra e o transforme em riqueza sua e provisão alheia.

E que seja suficiente o que já dissemos.
Fortaleza e boa graça seu vestido,
reinou até o último dia.

A boa mulher casada há de ser, e muito, o que aqui Salomão chama de fortaleza e não por isso tem permissão para ser insossa, e em seus modos sem graça. Quero dizer que, nem o trabalho nem o zelo, nem o cuidado com a casa farão com que ela seja áspera e terrível, nem a graça e a prazerosa fala e semblante hão de ser moles nem desatados, mas equilibrando um com outro, conserve o meio termo, fazendo uma agradável e excelente mistura.
E não há de conservar por um dia ou por um breve espaço este teor, mas para toda a vida, até seu último dia. O que é próprio de todas as coisas que são virtude ou têm raízes na virtude, é ser perseverantes e quase perpétuas, e nisto se diferenciam das que não são.
Os que já viram alguma mulher que se parece com estas da quais falamos, saberá a diferença. Uma, em qualquer momento nos oferece doce e agradável acolhida; outra, cuja graça e doçura sua não é graça que desata o coração de quem a vê, nem amolece; antes é como uma lei de virtude, e assim deleita e afeiçoa, mas também limpa e purifica; e apagando as tristezas, lava as torpezas também.
A força dela, e aquilo em que propriamente consiste, é declarado melhor no que se segue:

Sua boca abriu em sabedoria,
e lei de piedade em sua língua.

Duas coisas compõem este bem do qual falamos: razão discreta e fala doce. O primeiro é sabedoria, e o segundo piedade, ou melhor, ternura. Pois entre todas as virtudes, a boa mulher casada há de procurar ser sábia em sua razão e doce em sua fala. E podemos dizer que com isso brilhará, e terá toda a virtude, e sem isso, tudo ficará como morto e perdido. Porque uma mulher néscia e faladeira, como geralmente são as néscias, mesmo que tenha outros bens, é intolerável. E, nem mais nem menos, a que é brava, de dura e áspera conversa, não pode ser olhada nem tolerada. E assim, podemos dizer que o que foi antes visto é como o corpo desta virtude da mulher casada que desenhamos; mas isso último é como a alma, a perfeição, o arremate, e a flor de todo este bem.
No que se refere ao primeiro, que é cordura e discrição ou sabedoria, quem não a tiver, ou se Deus não lhe deu, com dificuldade a convenceremos de que lhe falta e que a procure. Porque o mais próprio da necessidade é não se conhecer e imaginar-se sábia, e mesmo que a convençamos será difícil colocá-la no bom caminho, porque se aprende mal aquilo que não se aprende no berço. E o melhor conselho que podemos lhe dar é que se cale, já que são pouco sábias, se esforcem para se manter caladas. Porque como diz o sábio: "Se o néscio calar, muitas vezes passará por sábio". Pode ser que calando e ouvindo, e pensando primeiro consigo mesma o que vão falar, acertem falando o que mereça ser ouvido.
Mas seja como for, é justo que se prezem de calar, tanto àquelas que convém que encubram seu pouco saber, como àquelas que podem sem vergonha descobrir o que sabem; porque em todas é, não só condição agradável, mas também virtude, o silêncio e o falar pouco.
E abrir sua boca com sabedoria, como o Sábio diz aqui, é só abri-la quando for necessário... Porque o falar nasce do entender, e as palavras são como imagens ou sinais do que o ânimo concebe em si mesmo; assim como a mulher boa e honesta não foi feita pela natureza para o estudo das ciências, nem para os negócios, e sim para um só ofício simples e doméstico, assim limitou seu entendimento, e por conseguinte taxou suas palavras e razões.
Costumava dizer Demócrito que o enfeite da mulher e sua formosura era a fala escassa e limitada.
O estado da mulher, em comparação ao marido, é o estado humilde, e como é dote natural das mulheres a mesura e a vergonha, não há nada que desfaça mais da humildade e da vergonha, que ser faladeira.
Conta Plutarco que Fídias, escultor nobre, fez aos elienses uma imagem de Vênus que apoiava os pés em uma tartaruga, que é animal mudo, que nunca abandona sua carapaça; dando a entender que as mulheres, do mesmo modo, devem guardar sempre a casa e o silêncio. Porque verdadeiramente, saber calar é sabedoria própria e aquela de quem fala aqui Salomão, mesmo que aprenda, é difícil se não o tem por si mesma. Isto quanto ao primeiro.
O segundo, que se refere à aspereza e desgraça da condição, que na maioria das vezes, nasce mais da vontade viciosa do que da natureza errada, é doença mais curável. E devem tomar cuidado com isso as boas mulheres, porque não sei se há coisa mais monstruosa e desagradável que ser uma mulher áspera e brava. A aspereza foi feita para os leões e tigres e ainda, para os homens por sua compostura natural, e pelo peso dos negócios nos quais geralmente se ocupam, têm a permissão para ser um pouco ásperos. A testa franzida e a esquivez neles algumas vezes está bem mas a mulher, se for leoa, o que lhe resta de mulher? É só olhar para seu feitio e se perceberá que nasceu para a piedade. E como nas onças as unhas agudas, os dentes grandes, a boca assustadora e os olhos sanguinolentos, as convidam à crueldade, assim a figura dela a obriga a que seja mesurada. E não pensem que Deus as criou e as deu ao homem só para que cuidem de sua casa, mas também para que tragam consolo e alegria. Para que nela o marido cansado e zangado encontre descanso, e os filhos amor, e a família piedade e todos em geral acolhimento agradável.
Os hebreus chamam as mulheres de "a graça da casa". E as chamam assim em sua língua porque quer dizer muitas coisas; quer dizer asseio, beleza, graça, luz e deleite, harmonia, contentamento. De onde entendemos que a boa mulher deve ter essas qualidades, e que a que não as têm, não deve ser chamada nem de graça, nem de luz, nem prazer da casa, e sim de traste dela, estropício, o duende e espantalho que a todos perturba e assombra.
E acontece assim, que como nas casas que são por esta causa assombradas, quem vive nelas as deixa, e onde reinam em figura de mulher estas feras, o marido teme entrar, e a família deseja sair, todos a detestam, e o mais rápido possível se benzem e fogem. O Sábio diz: "O açoite da língua da mulher brava por todos se estende; zanga feia da mulher airada e bêbada, é sua afronta perpétua". Eu conheci uma mulher que quando comia, brigava, e quando anoitecia, brigava também, e quando o sol nascia, a encontrava brigando, e fazia isso todo o santo dia, e por semanas e meses e anos, e era seu único ofício; ouvia-se sempre seus gritos e a voz áspera, e a palavra desagradável e os insultos. Nunca a ouvi sem lembrar o que diz o poeta.

Tesifone, rodeada de crueldade,
a entrada, sem dormir de noite e de dia
ocupa; soa o grito, a braveza,
o choro, o cru açoite, a teimosia.

Assim, era sua casa uma imagem do inferno nisso, mas no resto um paraíso, porque as pessoas dela eram, não para promover a braveza, e sim para dar contentamento e descanso para quem olhasse. De onde, pensando nisso algumas vezes, decidi que todas aquelas brigas não tinham um motivo mais sério, e aquela senhora geralmente se excedia.
Assim sendo, nestas bravas, se procurarmos bem as causas desta sua desenfreada e continua cólera, acharemos que as razões são besteiras; uma porque acha que quando briga é senhora; a outra por problemas com o marido desconta na filha ou na doméstica; a outra porque seu espelho não mentiu nem a mostrou hoje tão bela como ontem. Uma se embravece com o vinho, outra com seu não cumprido desejo, e a outra por sua falta de sorte.

Continuará...
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