segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Prática da simplicidade em todas as coisas

Por Monsenhor Gibergues



Aos vossos olhos, a simplicidade iluminará e transformará todas as coisas, fazendo com que tudo vejais à luz de Deus.
Mostrar-vos-á a verdadeira finalidade da vida, "o único necessário" do Evangelho, desprender-vos-ei do prazer, do sucesso, da fortuna e de todas as vaidades do mundo.
Mostrar-vos-á o pecado como o inimigo de Deus, o adversário irreconciliável de Jesus Cristo, o único mal a temer. Em vossos corações, porém, não deixará ódio e sim compaixão pelos perseguidores da Igreja. Fará com que os vejais mais como infelizes do que como culpados, cegos, transviados, almas no caminho do inferno e dignas de piedade.1
A simplicidade vos tornará vigilantes para fugir às ocasiões de pecado, desconfiadas de vós mesmas, mas cheias de confiança na toda poderosa proteção de Deus; e vos conservará em segurança no meio das mais terríveis tentações. Será para vós a torre de marfim, onde vos encerrareis para desafiar os assaltos do inimigo. Como diz a Escritura, “aquele que anda em simplicidade, anda afoitamente.” 2
No sofrimento, a simplicidade vos será maravilhoso auxílio. Não mais o vereis como fardo que vos esmaga, como chaga que vos irrita e enerva, como obstáculo intransponível à perfeição.
Se fordes simples, vereis o sofrimento através do coração e da bondade de Deus. Vê-lo-eis como remédio misterioso que a Deus apraz usar, em Seu amor infinito, para apagar e destruir vossos pecados, encher-vos a alma de riquezas sobrenaturais, unir-vos mais estreitamente a Jesus Cristo e com Ele vos fazer cooperar na redenção do mundo.
Quantos benefícios vos presta a simplicidade em todas as provações da vida!
O que é demorado para as almas que não são simples será breve para vós; que lhes parece uma eternidade vos parecerá um minuto.
O que as perturba e desorienta, as desencoraja e desanima, o que as torna amargas e irritadas, nunca satisfeitas, vos deixará calmas e tranqüilas. 3
Os elevados cumes cobertos de neve, pela sua brancura, separados dos montes que os rodeiam, não estão menos perto do céu quando a tempestade se desencadeia e se abate sobre eles; continuam firmes e imóveis como quando o céu azul os envolve e os banha de luz.
O mesmo acontece às almas que a simplicidade eleva e aproxima de Deus. Com sua brancura imaculada, dominam as provações da vida; conservam a calma e a paz no meio da tormenta e se mantêm tão perto de Deus como nos mais belos dias.
Que digo? Depois que a tempestade passa sobre os altos cumes, o céu fica mais puro; o ar que os envolve é mais transparente; a luz os penetra com mais intensidade e mais os embeleza. Da mesma sorte, depois que foram experimentadas, as almas simples revestem aos olhos de Deus o esplendor, a formosura e a transparente pureza que antes não possuíam.
A simplicidade não vos impedirá de sofrer, mas de tal forma modificará o sofrimento que não mais o reconhecereis.
Não continuareis a sofrer do mesmo modo. Não mais sofrer deixará de ser para vós o ideal, como o é para as pessoas do mundo. Não mais exclamareis num grito de triunfo: morreu sem sofrer não sentiu a morte! como se no mundo não houvesse outro mal que o sofrimento.
Vossos pensamentos serão mais elevados. Só o sofrimento longe de Deus, o sofrimento contra Deus, como o do mau ladrão, será por vós condenado e amaldiçoado.
No entanto, sabereis aceitar para vós e para os vossos o bom sofrimento, quando Deus vo-lo enviar e na medida em que Ele deseja que o suporteis.
Utilizá-lo-eis e o transformareis; ou, melhor, será ele que, aceito com espírito de simplicidade, vos transformará, tornando-vos semelhantes a Jesus e atravessando-vos, como a Ele, os pés e as mãos, dilacerando-vos o corpo, cobrindo-vos a cabeça de chagas, abrindo e transpassando-vos o coração.
Assim recebido, como o sofrimento perde a amargura, como se torna suave e como sentireis a verdade desta palavra de fé: "Todas as lágrimas secam aos pés de Jesus, todas as dores se aquietam e adormecem sob os divinos ósculos.”
A simplicidade transformará todos os vossos sentimentos, colocando-vos na verdade, quer se trate de alegria, quer de dor.     
Far-vos-á ver em luz muito pura que a única tristeza verdadeira é ofender a Deus, desagradar-Lhe, contristar Seu coração; ou a pena de ver que outros O ofendem. O desonram ou d’Ele se afastam. Oh! Eis o que vos arrancará lágrimas e, se vos tornardes bastantes santas, vos causará uma espécie de contínua agonia, como a do Salvador.
Foi nesse espírito que o cura d’Ars se queixou de ser o mais infeliz dos homens, por viver constantemente no meio dos pecadores e, de manhã à noite, ouvir o relato das ofensas feitas a Deus. “Os pecadores, dizia, matarão o pecador.”
Como estais longe de tais sentimentos! Humilhai-vos, ao menos, por não os experimentar e tende bastante simplicidade para compreendê-los e admirá-los!
A simplicidade vos desprenderá de tantas alegrias vãs, senão ridículas ou ímpias, às quais o mundo se entrega. Far-vos-á compreender a desgraça de todas as loucas que põem a própria felicidade na riqueza, no prazer, na lisonja, no sucesso, na beleza, nas flores e nos perfumes.
Desafortunadas mundanas! dizeis que a alegria é o vosso quinhão; e, ao ouvir vossas ruidosas gargalhadas, seríamos capazes de acreditá-lo. Mas não! são risos forçados que mal dissimulam as profundas feridas e o cruel despedaçar do coração entregue ao mal e ao pecado. A alegria só pode existir no coração puro e na alma simples. Aí transborda e se espalha, como um aroma, sobre todas as dores da existência.4 Como no-lo afirma o Evangelho, as almas simples são felizes mesmo entre lágrimas, porque encontram as mais divinas consolações.

Aos vossos olhos, a simplicidade transformará todos os deveres da vida. Mostrar-vos-á os grandes como se ainda fossem maiores e mais santos; far-vos-á sentir por eles maior entusiasmo e maior ardor. Engrandecerá e elevará os que são pequenos; fará transparecer a majestade de Deus nos mais humildes e nos menores.
Quantos benefícios vos fará a simplicidade!
São as coisas materiais da vida que mais vos fatigam. Os pequenos e humildes deveres, esses ínfimos nadas de cada dia, que se renovam com desesperadora monotonia, que vos envolvem como em emaranhada rede e que, ao fim de algum tempo, vos caem em cima tão pesadamente, eis o que vos cansa e vos abate.
Vos sentis feitas para subir; aspirais ganhar a amplidão; e ficais paradas, no meio de águas barrentas, dentro de um pobre barquinho, de onde não conseguis sair! É isso o que vos desespera!
Mas aqui está o meio fácil e sempre ao vosso alcance de ganhar novos horizontes, de vos expandirdes de cada vez buscar maior altura, de incessantemente vos alimentardes das grandes coisas de que tendes fomes e sede! Este meio é a simplicidade!
Deus encontra-Se aí nessas minúcias, nessas ninharias fatigantes e monótonas, nessas vulgares e comezinhas ocupações, como se encontrava na palha e nas faixas de Belém. Aí está Ele e não O vedes porque vos falta a simplicidade.
Se fordes simples, vereis Deus no pó das ações vulgares e materiais de cada dia, do mesmo modo que, no presépio, O viram os olhos de Maria e José; e, porque O vereis, estas ações se tornarão grandes e santas como Ele.
Sim, na vida a simplicidade eleva os deveres por mais que sejam materiais. A alma simples compreende que “O Verbo só se fez carne para que a carne se tornasse Verbo.” A simplicidade tem o maravilhoso poder de divinizar o pó!
“A simplicidade, escrevia São Francisco de Sales, dá a todas as nossas ações o mérito e o brilho, como a raiz proporciona beleza às flores, às folhas e aos frutos, o que os faz deliciosos. A simplicidade é como a cinza que vem do fogo e o conserva.”

Afinal, sede simples em todas as obras de apostolado, de caridade e de devotamento que realizardes. Sede simples, isto é, fazei tudo para Deus.
Há pessoas que se entregam às obras de caridade por ostentação. Procuram aparecer, desempenhar um papel, exercer uma direção que lhes lisonjeie o instinto de domínio.
Outras encaram essas obras como passatempo, distração útil ao isolamento e consolo às suas tristezas.
Outras, ainda, só enxergam o lado filantrópico e social.
E todas estão muito longe da simplicidade pregada pelo Evangelho. Não pairam como a pomba, Arrastam-se como aves de terreiro; limitam-se aos pensamentos terrenos. 
Algumas desejam sinceramente o bem do próximo, tudo que lhe é útil ao corpo e à alma, ao bem-estar e à salvação: essas, na verdade, esquecem-se de si e vivem para os outros. Mas, no ardor de servir ao próximo, perdem Deus de vista, ou, pelo menos, veem as almas mais do que a Deus. Amam as almas mais por elas do que por Deus. E na intenção que têm, em vez de colocar primeiro Deus e depois as almas, elas põem estas em primeiro lugar. Vêem Deus apenas através das almas e não as almas através de Deus.
Essas, embora já possuam a simplicidade, não a tem em grau suficiente, porque sua intenção não é bastante pura.
Finalmente, há as que procuram Deus, mas não o fazem ainda como seria necessário. Em lugar de servir ao plano de Deus, servem às próprias idéias. Gostariam de impôr a Deus, a visão que têm das coisas a própria maneira de agir, a própria pessoa. Sua simplicidade não é perfeita.
Em qualquer obra, a verdadeira simplicidade consiste em trabalhar para Deus com absoluta pureza de intenção, procurando agradar-Lhe antes e acima de tudo.
Por mais interessante que seja o próximo, é-o, acima de tudo, por causa de Deus. É bela a dedicação ao próximo por amor a Ele; mas essa dedicação é mil vezes mais bela quando a razão é Deus e quando a vivifica o pensamento de que, trabalhando-se para o próximo, se glorifica a Deus.
Se fordes simples, Deus será o primeiro em vosso pensamento e em vossa vontade, como o será também em vosso coração. Tudo provirá d'Ele, tudo se fará por Ele e para Ele, tudo Lhe será atribuído.
A glória, o serviço e o amor de Deus, eis a felicidade da alma simples!
Não se deve deixar absorver nem mesmo pelos mais instantes e elevados interesses das almas, mas sim renovar incessantemente as intenções e dirigi-las a Deus, vendo sempre Deus nas almas e as almas em Deus.
Não se deve esquecer tão pouco que a única forma de glorificar a Deus é servi-lO, dar-Lhe provas de amor e cumprir Sua vontade, isto é, dedicar-se na medida em que Deus o exige, jamais se impondo e agindo sempre de acordo com o plano de Deus e não com o próprio.
Portanto, vós, que recebestes de Deus a submissão do apostolado e da caridade, deveis repelir quaisquer pensamentos humanos, egoístas, maldosos, que a vós se apresentem, substituindo-os por intenções inteiramente puras, por pensamentos essencialmente divinos.
Se o demônio vos murmura ao ouvido que o mundo vos estima pelas obras de caridade que pratica e que valeis mais do que os outros, e vos incita espírito de domínio ou de complacência para convosco, se, aos vossos olhos, oculta a glória de Deus deixando aparecer o objetivo humano e temporal. Fechai os olhos, fechai os ouvidos a essas pérfidas sugestões, retificai vossa vontade e dizei a Deus: Senhor não almejo outro fim a não ser a realização de Vossa obra, outro guia além de Vossa vontade, outra verdade senão a de procurar a Vossa glória, trabalhando na salvação das almas.

Notas:

1- Se vês um pecado evidente, disse Deus a Santa Catarina de Sena, é preciso tirar o espinho da rosa, oferecendo-me os culpados numa santa e fraternal compaixão.” (Diálogo) 
2- Provérbios, X, 9. 
3- “As almas simples conservam a paz no meio das preocupações e das penas.” (São Vicente de Paulo). 
4- Esta verdade foi posta em relevo no belo livro "Vers la Joie", de Lucie Félix-F'aure-Goyau.