quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Formação para os homens - parte 5

Nota do blogue: Creio que este seja um dos melhores livros que Deus tenha me dado para uso do meu apostolado, não apenas pela raridade do tema abordado (a formação feminina é mais comum) mas também pelo valor do ensinamento moral contido nele. Se a mulher caiu nas "garras" da sociedade feminista esquecendo o seu papel dentro do lar e assumindo postos masculinos, o homem, por sua vez, acomodou-se a essa situação e contribui para a desvalorização feminina com seu comodismo. A formação masculina se faz necessária sim, pois os lares cristãos necessitam de pais e maridos realmente conscientes de seus deveres e qualidades masculinas.

Em Cristo,
Letícia de Paula 

Padre Emmanuel de Gibergues



Receber no sacrifício e renunciação, como é o fim do matrimônio; dar na dedicação por uma autoridade justa, digna, pacífica e terna, como é o seu objeto; não está acima das forças humanas? Não; porque há um motivo todo poderoso, um móvel soberano o amor, o amor movido pela graça, o amor cristão.
As dificuldades da tarefa, meus senhores, fazem com que compreendais a sua necessidade, e a loucura dos matrimônios sem amor. Onde se achará, pois, a força para cumprir tais deveres? Só o amor é capaz disso. Só o coração tem toda a força que exige este ato decisivo, soberano, irrevogável, e do qual está suspenso um destino inteiro.
E que amor será preciso? Apelo para vós, meus senhores, que tendes amado santamente, que tivestes o vosso ideal. Amaveis, sem medida, para a terra e para o céu, para o tempo e para a eternidade. Amar, unicamente e para sempre, aquela que havia sabido merecer toda a vossa estima, toda a vossa confiança, todo o vosso amor, e serdes amados por ela unicamente e para sempre, era o vosso sonho!
O amor é eterno, ou não existe.
Mas qual é o amor que pode ser eterno? O amor carnal não, porque dura tanto quanto o encanto que o provocou, - uma primavera. As paixões não alimentam o amor, não; antes o profanam e matam.
Se o amor quiser viver, que se modere e se equilibre! Saído de Deus, se quiser crescer, que sacuda a matéria e se eleve para Deus!
O amor racional, baseado nas qualidades do espírito, do coração, da alma, sem aliás excluir, de modo algum, os encantos físicos, pode ser durável. Mas ainda não é suficiente; é preciso subir mais alto; é preciso chegar ao amor cristão!
O amor cristão não exclui o precedente; pelo contrário, supõe o amor racional; completa-o, eleva-o e excede-o, libertando-o do tempo. Não é somente a alma que ele vê através do corpo, porém Deus na alma. É uma afeição superior, de ordem divina, tal qual a afeição de Cristo por Sua Igreja: Viri diligite uxores vestras, sicut Christus dilexit Ecclesiam1. Já não é uma chama terrestre: é o fogo do céu; já não é o amor do homem: é o próprio amor de Deus no coração do homem.
Se o marido não é cristão, não sente a diferença, porque não pensa nisto; ou não está ao alcance de compreendê-la, a mulher cristã sente-a e sofre cruelmente.
Não o sabeis? Não o quereis saber; fechais os olhos para não vos incomodardes; mas não impedireis que sofra aquela que vos ama, e que sofra tanto mais profundamente, quanto mais vos amar.
Não é razoável, nem justo. Seria melhor pensar nisto, e vós também procurardes no sofrimento, força para subirdes mais alto.
Só o amor cristão é verdadeiramente eterno; o outro não reflete, ou, se reflete, é muito pouco, no além.
Só o amor cristão é verdadeiramente forte. Se o amor humano for feliz; se não tiver tentações demasiadamente fortes, poderá ser feito, mas duma fidelidade de ocasião. Mas, se a tempestade bramir, se a tentação se levantar, será arrebatado; ou, o que é pior, não acreditará mais na fidelidade.
Mas o amor cristão tirou do sacramento uma força que o aperfeiçoa e santifica, e lhe dá a mais perfeita fidelidade; a fidelidade sem mancha, a fidelidade do coração, à imagem de Jesus Cristo para com a Sua Igreja. Está ao abrigo de todas as vicissitudes; o que Deus uniu, nada o poderá separar: quod Deus conjunxit, homo non separet.2
Não se contenta em ser eterno, precisa crescer, porque o amor, como tudo quanto vive, tem necessidade de desenvolver-se.
É pela paciência, humildade, franqueza do coração, confiança absoluta, pelo hábito de se dizer tudo e de fazer tudo em comum por uma intimidade sempre progressiva, que o amor crescerá. Em vez de tornarem os pontos de contato tão raros quanto possível, como aqueles que não se amando, ou suportando-se dificilmente, querem, todavia, conservar a paz, os esposos que se amam multiplicam-nos para estreitarem mais a aliança. A diversidade dos caracteres, a variedade dos pontos de vista, a diferença das opiniões subsistem, e isto é mais um encanto. Só desaparece a diversidade dos sentimentos.
Ambos desprezam tudo o que é vil, ambos se elevam; amam tudo o que é nobre e grande. Lêem o mesmo livro, admiram o mesmo quadro, ou a mesma paisagem; gozam do mesmo prazer ou do mesmo repouso. Rezam juntos; preenchem os seus deveres religiosos; praticam a caridade. Praticam junta a virtude, o bem, as boas obras. A sua vida intelectual, moral, religiosa é realmente uma só vida; sempre os mesmos interesses de espírito, de alma e de coração.
O seu lar não é só a sua casa, levam-no consigo como um altar doméstico. Está em toda a parte onde estão juntos; está em seu coração, em toda a parte onde confundem, numa intimidade sempre crescente, os seus pensamentos, as suas impressões, os seus entusiasmos, as suas crenças, os seus esforços, as suas virtudes, a sua caridade!
Este hábito de intimidade em trocas mútuas e constantes de sacrifícios e dedicação, por motivos sobrenaturais e santos, é tão poderoso para aumentar o amor, que até pode criá-lo entre dois seres que sentem estima e confiança um pelo outro, sem, todavia, ainda se amarem na verdadeira acepção da palavra. Não é esta a história de Paulina? No começo, ama a Polyeucte, por dever de esposa, como o desposara por dever de filha. A sua vontade aí está, o seu coração ainda não; e a perturbação que lhe causa a volta de Severo, a sua repugnância em servir «um vencedor tão poderoso,» a coragem com que exige dele a promessa de que nunca mais a tornará a ver, provam, suficientemente, para que lado se deixaria arrastar o seu coração, se a razão e a virtude não o desviassem dessa tendência. No fim, toda a sua alma, toda a sua ternura pertencem aquele a quem chama, daí por diante, o seu Polyeucte: o coração e a razão harmonizaram-se num amor que ela criou pela força da virtude.
Quando o coração e a razão são assim unidos; quando o amor é sobrenatural e cristão, os anos podem vir, pode-se envelhecer que o coração não envelhece. O amor eleva-se, apura-se e a gente aproxima-se por uma ascensão lenta, dessa maneira de amar, que é a do céu.
Se o vácuo se faz à roda dos esposos; se a morte os fere, se lhes aparecem provações, mais se unem pelo amor que se fortifica na repetição mútua das tocantes palavras de Andromaca a Heitor: «Tu és, agora, o meu venerado pai e a minha venerada mãe; tu és os meus irmãos; tu és o meu esposo muito amado.»
A morte pode chegar; será uma dor viva e amarga, mas não os desunirá; após alguns momentos, a reunião far-se-á em Deus, e, em lugar do tempo terão, para se amarem, a eternidade.
Tal é o amor cristão no matrimônio. É verdadeiramente o amor de Cristo e da Sua Igreja, amor todo-poderoso, amor santo, sem mácula, indissolúvel, amor para a terra e o céu, para o tempo e para a eternidade.

Notas: 

1) Epístola aos Efésios V, 25: "Maridos amai vossas mulheres como Cristo amou a Sua Igreja". 
2) S. Matheus XIX, 6.
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