sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A perfeita casada (XI) - Frei Luís de León

Não temerá a neve para sua família, porque 
toda sua gente está vestida com vestes duplas.


Não é esta a menor parte da virtude desta perfeita casada que pintamos, nem a que traz menos louvor à que é senhora de sua casa; o bom tratamento de sua família e criados, é como uma amostra onde claramente se conhece a boa ordem com que se governa todo o resto. E havia lhe mostrado Salomão, no que vem antes disto, a ser esmoleira com os estranhos, concordou em lhe avisar agora e lhe deu a entender que este cuidado e piedade devem começar com os seus; como diz São Paulo, "aquele que se descuida da provisão dos que têm em sua casa, infiel é, e pior que infiel". E mesmo falando aqui Salomão do vestir, não fala somente dele, e sim, pelo que diz neste particular, ensina o que deve ser em tudo que pertence ao bom estado da família. Porque, assim como se serve do trabalho dela o senhor, assim há de prover suas necessidades, e há de acompanhar o um com o outro, e ter grande medida em ambas as coisas, para que nem lhes falte o que necessitam, nem no que farão os sobrecarregue, como o avisa e declara o sábio no capítulo trinta e três do Eclesiástico. Um é injustiça e o outro escassez, e tudo crueldade e maldade.
E o pecado dos senhores com seus criados geralmente nasce da soberba e do desconhecimento de si mesmos. Se considerassem que tanto eles como seus criados são feitos do mesmo material, que a fortuna que é cega e não a natureza provida, é que os diferencia, que nasceram dos mesmos princípios, que terão o mesmo fim, e que vão em direção aos mesmos bens; e se considerassem que os que servem agora poderiam ser servidos depois, se não eles, seus filhos ou netos, como sempre acontece; que no fim todos, tanto os amos como os criados, servimos a um mesmo Senhor, que nos medirá como nós medimos; assim, se considerassem isto, deixariam os brios de lado, e seriam mansos, e tratariam os criados como a parentes e os mandariam como se não estivessem mandando.
E aqui convém que as mulheres prestem mais atenção, porque há algumas tão vãs, que quase desconhecem sua carne, e pensam que a sua é carne de anjos e a de suas criadas de cachorro, e desejam ser adoradas por elas, acham que tudo é pouco e nada para o que lhes devem ou pensam que devem. Além do muito que ofendem a Deus, tornam sua vida mais miserável do que já é, porque se tornam aborrecíveis aos seus, o que é maior miséria; porque nenhuma inimizade é boa e a dos criados, que vivem entre os amos, e sabem os segredos da casa, e são seus olhos, e mesmo que lhes pese, testemunhas de sua vida, é perigosa e pestilenta. Daqui geralmente saem as fofocas e as falsas testemunhas, e na maioria das vezes as verdadeiras.
E como é perigosa desventura fazer dos criados fiéis, cruéis inimigos com indevidos tratamentos. Assim, tratá-los bem não é só segurança, mas também honra e bom nome. Pois devem entender os senhores que sua gente é como parte de seu corpo, e que é como parte da casa, onde eles são a cabeça, e a família os membros e que os tratando bem, tratam bem e honradamente sua própria pessoa. E como se orgulham de que em suas feições e disposição não haja nem membro torto nem figura desagradável; como lhes acrescentam a todos os membros, tudo o que for beleza, e procuram vesti-los com cores, assim deve se apreciar que em toda sua gente reluza sua muita liberalidade e bondade, de modo que os de sua casa nem estejam nela com faltas, nem saiam dela queixosos.
Conheci eu neste reino uma senhora, que já morreu, ou por melhor dizer, que vive no céu, que, do cavalo troiano que dizem, não saíram tantos homens valorosos como de sua casa criadas suas donzelas e outras mulheres remediadas e honradas; aconteceu de mandar embora de sua casa, devido a um desentendimento, uma criada sua não tão remediada como as demais, a ouvi dizer muitas vezes que não tinha consolo quando pensava que, das pessoas que Deus lhe havia dado, havia saído uma de sua casa com desgraça e pouco remediada. E eu sei que nesta bondade gastava grandes somas, e que, fazendo estas despesas e outras semelhantes, não só conservou e sustentou os seus filhos, que vinham de muitos avós de antiga nobreza, mas também os acrescentou e ilustrou com novos e ricos vínculos; e assim era abençoada por todos.
Devem, pois, amar esta bênção as mulheres de honra, e se desejam elas ser estimadas e amadas, este é o caminho certo. Não quero dizer que tudo há de ser doçura e regalo; que bem vemos que a boa ordem pede algumas vezes severidade; mas, porque é comum que os amos pequem nisto, que é ser descuidados no que se refere ao bom tratamento dos que os servem, por isso falamos disso e não falamos de como os hão de ocupar.