sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A perfeita casada (X) - Frei Luís de León

Suas palmas abriu para o aflito,
e suas mãos estendeu para o necessitado.



E em bom momento colocou isto Salomão, porque tendo dito e repetido tanto no que se refere a lucros e aproveitamento e havendo aconselhado a mulher tantas vezes e com tão encarecidas palavras para que seja prendada e caseira, deixava-a, parece, próxima à avareza e escassez, que são males vizinhos do lucro e que são próximos não poucas vezes. Porque, assim como há alguns vícios que têm aparência e semelhança de algumas virtudes, também há virtudes que estão como ocasionadas por alguns vícios; porque a verdade é que a virtude consiste no meio, mas como este meio não se mede com palmos, mas é o meio que se deve medir com a razão, muitas vezes se afasta mais de um extremo que do outro, como parece na liberalidade, que é virtude medida pela razão entre os dois extremos do avarento e do pródigo, e se afasta muito menos do pródigo que do avarento. E ainda acontece com a virtude e o vício, que em verdade são princípios muito diferentes na visão pública, e no que de fora parecem, nasçam frutos muito semelhantes. Tanto é disfarçado o mal, ou tanto procura se disfarçar para nosso mal, ou por melhor dizer, tanta é a força e a excelência do bem, e tão grande seu proveito, que mesmo o mal, para poder viver e valer, se aproxima dele e se veste dele, e deseja assumir sua cor.
Assim vemos que o prudente e recatado foge de alguns perigos, e que o temeroso e covarde foge também. Onde, mesmo as causas sendo diferentes é o mesmo e semelhante fugir. E vemos também que o homem cordato obtém lucros e benefícios de suas terras, e o avarento também, e que são iguais em lucrar, mesmo que os motivos sejam diferentes. E pode tanto este parentesco e dissimulação, que não somente os que olham de longe e vêem o que parece, se enganando, chamam de virtude o que é vício, mas também esses mesmos que põem as mãos nisso, muitas vezes não se entendem a si mesmos, e se convencem que é virtude o que lhes vêm de inclinação danosa e viciosa.
Por esse motivo tudo que é semelhante pede grande cuidado para que o mal disfarçado em bem não possa nos enganar. E isso porque Deus só gosta da virtude, e porque se a mulher lucra muito, isso pode ser sinal de avareza e vício; para que não se canse sem fruto e para que não ofenda a Deus no que pensa agradá-lO, cuidado aqui para que não seja esmoleira; que seja prendada e aproveitadora e zeladora, e que promova a união, porém não seja miserável nem escassa, de nenhuma maneira seja avarenta. E por isso diz elegantemente que abra a palma que a avareza fecha, e que alongue e estenda a mão que costuma encolher a escassez.
E já que ser piedoso e esmoleiro é virtude que convém a todos os que se sentem homens, com particular razão as mulheres devem esta piedade à sua brandura natural, entendendo que ser uma mulher de entranhas duras ou secas com os necessitados, é nela vituperável mais que em nenhum homem. E não é boa desculpa dizer que o marido segura suas mãos; porque mesmo sendo verdade que pertence a ele cuidar dos bens, não se entende porém que proíba a mulher e ponha lei para que não faça outras despesas perdidas, querendo também fechar-lhe a porta ao que é piedade e esmola, a quem Deus com tão expresso mandamento e de modo tão encarecido a abre.
E quando quiser ser ainda nisto escasso o marido, a mulher, se for como aqui a descrevemos, não deve por isso fechar-se às esmolas, que são devidas ao seu estado, nem que o confessor o proíba. Porque se o marido não quer, está obrigado a querer; e sua mulher, se não obedece em seu mau desejo, conforma-se com suas razões; e fazendo isto trata com utilidade e proveito da alma dele e de seus bens; porque primeiro cumpre com as obrigações que ambos têm de socorrer aos pobres; e depois garante e acrescenta seus bens com a benção de Deus, cuja palavra não pode faltar com a piedade prometida. E porque muitos nunca se fiam bem desta palavra, muitos homens são crus; se considerassem que recebem de Deus o que têm, não temeriam de tomar parte disso, nem duvidariam de que quem é liberal não pode jamais ser desagradecido; e quero dizer com isto, que Deus, o qual sem haver recebido nada deles, liberalmente os fez ricos, se repartissem depois com Ele suas riquezas, se tornariam grande realização.
Nisto que disse, entendo que são as esmolas mais comuns, que se oferecem a cada dia aos olhos; que, no que for de maior volume e mais particular, a mulher não deve ultrapassar a lei do marido, e em tudo deve lhe obedecer e servir. Eu confio que nenhum será tão miserável nem mau, que se ela for das que digo, tão caseiras, tão prendadas, tão zeladoras e tão cordatas em tudo e aproveitadoras, proíba que faça bem aos pobres. Nem será nenhum tão cego, que tema pobreza da esmola que faz quem enriquece a casa.
Então pois, que abra os braços e mãos à piedade a boa mulher, e mostre que seus lucros nascem da virtude, em não ser escassa no que, conforme a razão, é devido. E como quem lavra o campo, do que colhe nele dá suas primícias e dízimos a Deus, assim ela, de seu trabalho e de suas criadas, aplique sua parte para vestir a Deus nos carentes e fartá-lO de comida nos famintos, e com parte de seus lucros abra, como diz aqui, suas mãos ao aflito e ao necessitado, suas palmas.
Mas se diz que abra suas mãos e sua casa aos pobres, deve-se advertir que não diz que a abra geralmente a todos os que dizem ser pobres. Porque, em verdade, uma das virtudes da boa mulher é ter um grande recato acerca das pessoas com as quais conversa e a quem deixa entrar em sua casa; sob o nome da pobreza e cobrindo-se com piedade, às vezes entram na casa algumas pessoas enrugadas e de cabelos brancos, que roubam a vida, sujam a honra e danificam a alma dos que vivem nela, parecendo que os lambem e adulam. São Paulo quase indicou com o dedo esta linhagem de pessoas ou algumas pessoas dessa linhagem, quando diz (Epístola a Timóteo, 5): "Têm por ofício andar de casa em casa ociosas, e não somente ociosas, mas também tagarelas e curiosas, e faladoras do que não convém”. É assim que as tais entram para registrar tudo de bom que vêem, e, quando menos mal fazem, fazem sempre o dano que é trazer novidades e fofocas de fora, e levar para fora o que vêem ou acham que vêem na casa onde entram, inquietando a quem as ouve perturbando seus corações, de onde nascem muitas vezes os dissabores entre os vizinhos e amigos, matéria de zanga e diferenças, e por vezes até discórdias mortais.
Nas repúblicas bem ordenadas, os que antigamente as ordenaram com leis, nenhuma coisa vedaram mais que a comunicação com estranhos de diferentes costumes. Assim Moisés, ou melhor dizendo, Deus por Moisés, a seu povo escolhido, em mil lugares avisa isto com grande cuidado, porque o que não se vê, não se deseja e como diz o verso grego: "Do olhar nasce o amar". E pelo contrário, o que se vê e se trata, quanto pior for, tanto mais rapidamente, por nossa miséria, gruda em nós. E o que é em toda uma república, também é em uma única casa; que se os que entram nela são de costumes diferentes dos que nela vivem, uns com o exemplo outros com a palavra, alteram os ânimos bem ordenados, e pouco a pouco os desencaminham do bem.
E chega a velhinha e diz coisas no ouvido da filha e ensina-lhe os maus enfeites, e conta-lhe da desenvoltura do outro, e do que viu ou inventou, e altera-lhe o juízo, e começa a tingir com isto o peito singelo, fazendo a imaginar o que só com ser pensado corrompe; e danificado o pensamento, logo tenta o desejo, o qual acendendo-se para o mal, logo se esfria para o bem, e assim logo começam a desgostar do bom e cordato deixando-o de lado. Pelo que, acerca de Eurípides, diz bem quem diz: "Nunca, nunca jamais me contento com dizê-la uma só vez; o casado cordato consentirá que entrem quaisquer mulheres a conversar com a sua, porque sempre fazem mil danos. Umas por seu interesse, tratam de corromper sua fé no matrimônio; outras, porque falharam e gostam de ter companheiras para suas falhas; outras porque sabem pouco e são néscias. Pois contra estas mulheres e as semelhantes a estas, convém ao marido guarnecer com travas e ferrolhos as portas de sua casa; pois jamais estas entradas peregrinas põem nela alguma coisa saudável mas, pelo contrário, sempre fazem diversos danos". Mas vejamos o que temos a seguir:
Não temerá a neve para sua família,
porque toda sua gente está vestida com vestes duplas.