quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A perfeita casada (VIII) - Frei Luís de León


Caiu-lhe no gosto uma propriedade, e comprou-a, 
e do fruto de suas palmas plantou vinhas.

 
Isto não é um novo preceito, diferente dos anteriores, nem outra virtude mais particular que as já mencionadas; e sim é como uma coisa que se consegue e nasce delas. Certamente que a mulher que for tão consciente em suas despesas e não curiosa por uma parte, e por outra tão caseira e cuidadosa e aproveitadora, não só conservará o que o marido adquirir, mas também ela acrescentará por sua parte, que é o que estamos dizendo agora. Porque de tamanho trabalho e preocupação, o fruto só pode ser grande.
De modo que aos demais títulos que, seguindo esta doutrina de Deus, haveremos dado à boa mulher, acrescentamos agora este: que seja a promotora do progresso de sua casa, não como título diferente dos primeiros, mas como coisa que os acompanha, e que declara a força dos passados, e o que podem, e até onde podem chegar. E assim, dizer que comprou terras e que plantou a vinha com o suor de suas mãos, é avisar que ser caseira, é não parar até abastecer sua casa, e também fazer progredir seus bens; não só fazer com que o que está dentro de casa esteja bem provido, mas fazer também que se acrescentem em número os bens e posses de fora. Ou seja, possa dizer claramente: "Este é o fruto do meu trabalho; meu cuidado acrescentou isto à minha casa; do meu suor frutificaram estas terras", como o fizeram algumas em nosso tempo, e que eu poderia indicar.
Algumas dirão porém que isto é muito. Às quais eu pergunto: o que chamam de muito? Chamam de muito que, do cuidado e aproveitamento e o trabalho de uma mulher, acompanhada pelas outras mulheres, saiam coisas de tanto valor como isto? Ou acham muito que deseje ela gastar o que adquirisse em aproveitamentos e terras, e não em prazeres e enfeites? Se isto último é o que acham muito e o que têm por áspero em doutrina, não têm razão, nem em ter outra despesa por mais prazerosa e gostosa, nem em pensar que se vendem nas lojas coisas que, compradas as embeleze mais que estas compras. Porque aquilo passa no ar, e o bem e a honra e a alegria, juntamente com o bom nome, é duradouro e perpétuo. Mas se o primeiro as assusta, porque não acreditam tanto em suas mãos, primeiro fazem injúria a si mesmas e limitam seu poder diminuindo-se; e depois sabem que não é assim, que podem, se quiserem se esforçar, e passar da raia, porque, aonde não chegará a que pode fazer e a que fizer o que vemos a seguir?

Cingiu-se de fortaleza e fortificou seu braço.
Tomou gosto pelo trabalho: sua vela
não se apagou de noite. Colocou as mãos
na fôrma, e seus dedos tomaram o fuso. 
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