quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A perfeita casada (IX) - Frei Luís de León


Cingiu-se de fortaleza e fortificou seu braço.
Tomou gosto pelo trabalho: sua vela não se apagou de noite.
Colocou as mãos na fôrma, e seus dedos tomaram o fuso.


Tenha valor a mulher e plantará a vinha; ame o trabalho e acrescentará em sua casa, ponha as mãos no que é próprio de seu ofício e não se despreze dele, e crescerão suas riquezas; não amoleça, nem se faça de delicada, nem tenha por honra o ócio, nem por estado o descuido e o sono, mas ponha força em seus braços e acostume seus olhos ao desvelo, e saboreie o trabalho e não se prive de pôr as mãos no que se refere ao ofício das mulheres, por baixo e miúdo que seja, e então verá quanto valem e onde chegam suas obras.
Três coisas pede aqui Salomão, e cada uma: em seu verso: que seja trabalhadeira, o primeiro; e o segundo que zele; e o terceiro que fie. Não quer que fique no ócio, e sim que trabalhe.
Muitas coisas foram escritas por muitos em louvor do trabalho, e tudo é pouco para o bem que há nele; porque é o sal que preserva da corrupção a nossa vida e a nossa alma; mas não quero dizer aqui nada do geral. O que propriamente corresponde à mulher casada, direi: porque quanto mais a mulher é inclinada ao regalo e mais fácil de amolecer e dedicar-se ao ócio, tanto mais lhe convém o trabalho.
Se os homens, que são varões, com o ócio conseguem ânimo e condição de mulheres e se afeminam, as mulheres o que serão, se não o que hoje em dia são muitas delas? Que a seda lhes é áspera, a rosa dura, que as incomoda ficar em pé, com o ar que passa desmaiam, falar a palavra inteira as cansa, não há de olhá-las o sol, e todas elas são um melindre e um lixo, um nojo; perdoem por colocar este nome, que é do que mais fogem ou, para dizer melhor, agradeçam que tão suavemente as nomeio. Quem considera o que devem ser e o que elas mesmas fazem, e quem olha a grandeza de sua natureza e a baixeza em que se colocam pelos maus costumes, e compara um com o outro, pouco diz ao chamá-las assim; se as chamasse de lodo que corrompe o ar e o infecta e abominação aborrecível, ainda seria pouco.
Tendo uso de razão, e sendo capazes de coisas de virtude e louvor, e que estão chamadas ao gozo dos bens de Deus, desfazem tanto delas mesmas, se aninham assim com delicadeza, se envilecem em tal grau, que uma lagartixa e uma mariposa que voa têm mais volume que elas; a pluma que vai pelos ares, e o próprio ar têm mais corpo e substância. Assim pois, deve prestar muita atenção nisto a boa mulher, estando certa de que, descuidando-se nisso, se tomará nada. E como os que estão por sua natureza propensos a algumas doenças e males se guardam com recato daquilo que lhes faz mal, assim devem entender que vivem expostas a esta doença de ninharia e melindre, ou não sei como chamá-la, e que nela o ócio é arsênico; cuidem-se dele como fogem da morte, e contentem-se com sua natural insignificância, e não lhe acrescentem baixeza nem a façam menor; notem e entendam que seu natural é feminino, e que o ócio, por si efemina; não juntem um ao outro, nem queiram ser duas vezes mulheres.
Disse quase nada dos extremos aos quais vêm as mulheres moles e ociosas, e não falo da porção de vícios que disto mesmo nelas nasce, nem ouso colocar a mão nesse lodo; porque não há tanta água encharcada e corrompida que crie tantos e tão maus animais daninhos, como nascem vícios asquerosos e feios nos peitos destas damas delicadas das que estamos falando. E em uma delas que descreve nos Provérbios (cap. V) o Espírito Santo diz assim:
"Faladora e vagabunda, e que não consegue estar quieta, nem sabe manter os pés dentro de sua casa, está na porta ou na janela, na praça ou nas encruzilhadas, e estende por toda parte seus laços. Viu um mancebo, chegou até ele e disse-lhe com a cara mais lavada: ‘Hoje faço a festa e saio a tua procura porque não posso viver sem tua visita, e você é minha presa. No meu quarto pendurei belíssimas redes e tapeçaria do Egito; de rosas e de flores, de mirra e aloé está coberto o chão e a cama. Vem, e bebamos a embriaguez do amor, e gozemos em doces abraços até que chegue a aurora’”.
E se todas as ociosas não vão para as ruas como esta fazia, seus escondidos recantos são testemunhas secretas de suas praças, e não tão
secretas que não se deixem ver e entender. E a razão e a natureza das coisas diz que, certamente se produzem ervas daninhas no campo não cultivado, que com o desuso o ferro enferruja e se consome, que o cavalo folgado fica manco.
E além disso, se a casada não trabalha, nem se ocupa do que pertence a sua casa, em quais outras coisas vai se ocupar? Forçoso é que, se não trata de seus afazeres, empregue sua vida nos afazeres alheios, e que seja janeleira, visitadora, viva na rua, amiga de festas, inimiga do seu canto, esquecida de sua casa e curiosa das casas alheias, pesquisadora de tudo que acontece, e ainda do que não acontece; inventora, faladora, fofoqueira, arranjadora de encrencas, jogadora também, e dada à risada e à conversa e ao palácio com tudo o que em conseqüência se segue, e se cala aqui agora por ser coisa notória.
De modo que, em suma e como em uma palavra, o trabalho dá à mulher o ser, ou o ser boa; porque sem ele ou não é mulher, e sim um asco, ou é mulher tal, que seria menos mal que não o fosse. E se com isto que disse se convencem a trabalhar, não será necessário que lhes diga e ensine como devem tomar o fuso e a roca, nem será necessário rogar que zelem, que são as outras duas coisas que lhes pede o Espírito Santo, porque sua própria boa índole as ensinará. E assim deixando isto, passaremos ao seguinte:
Suas palmas abriu para o aflito,
e suas mãos estendeu para o necessitado.