sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Formação para os homens - parte 4

Padre Emmanuel de Gibergues


Receber o complemento de si mesmo, o seu aperfeiçoamento moral e divino no sacrifício mútuo, eis o fim essencial da sociedade conjugal, e o primeiro dever do marido.
O objeto da sociedade conjugal é dar. E dar o que, meus senhores? - O que há nela de maior, de mais completo, de mais universal: - a pessoa humana, isto é, o corpo e a alma, a matéria e o espírito, a liberdade e a vontade, a inteligência, as crenças e idéias, as virtudes, as aflições e alegrias, as provações e esperanças, os bens e a vida, em uma palavra, tudo.
É o dom mais absoluto que se pode conceder. É o sentido profundo da palavra do Evangelho: erunt duo in carne uma fam non sunt duo.1 Serão dois na mesma carne... já não são dois, para serem um, e para sempre.
É a união indissolúvel de dois espíritos, de dois corações, de duas vontades, de dois caracteres, de dois corpos e de duas almas, uma fusão de duas existências numa só, sustentando-se e ajudando-se mutuamente, tanto nos deveres como nos prazeres, tanto nas alegrias como nas dores; sacrificando um ao outro a paciência, e dedicação de todos os dias, na liberdade santa de um amor puro, fiel, inviolável; achando ambos o sentimento da mesma natureza, e amando-se com toda a firmeza e com toda a força do seu ser e da sua vida: eis o matrimônio cristão de todo o coração, por impossível, a outro.
Vedes, digamo-lo de passagem, como é conveniente para esta unidade profunda, total, indissolúvel, que haja harmonia entre as naturezas, as inteligência, as idéias, os gostos, os caracteres, temperamentos, sentimentos religiosos; e o que acontecerá de tantos matrimônios, onde não se faz muito caso de tudo isto?
Nesta união tão perfeita, qual será a forma da dádiva que deve fazer o marido?
Qual será, para ele, o objeto do contrato? Qual o seu papel a desempenhar?
A Escritura Sagrada o diz em uma palavra: caput.2  É a cabeça, o chefe; é ele que tem a autoridade, o poder, a direção. Donde concluo: 1.º que o deve usar; 2.º que o deve usar na ordem e para os fins do matrimônio.
Primeiramente, deve usá-lo: é a condição para que a união persevere; e não é inútil lembrá-lo, porque há maridos que o não empregam; abdicam; é mais cômodo. Esquecem que o exercício da autoridade não é só um direito, mas um dever, de que lhes serão pedidas contas.
Alguns, é por fraqueza; é preciso muito trabalho, não têm coragem. - Outros, é por incapacidade; não sabem, e com receio de não acertarem, nada fazem.  - Outros, é por indiferentismo; que lhes importa? as coisas irão aonde têm de chegar.  - Outros, é por orgulho desdém; está abaixo do homem o ocupar-se com uma mulher, a não ser para gozá-la ou torná-la sua serventuária. Estes formam partido à parte. - Outros enfim, é por egoísmo: é bastante o pensarem em si, em seus negócios, prazeres, (quando não é, ah! em suas paixões) ia a dizer na continuação das afeições de sua mocidade, nas suas desordens de maridos libertinos, ou em seus vícios de velhos.
Os maridos que abdicam, e quebram a unidade da família e o objeto do contrato, arrebatando eles mesmos a sua coroa, cometem todos em sua multidão banal uma injustiça comum; fazem geralmente uma idéia muito clara dos deveres que o matrimônio impõe a sua mulher, e uma idéia muito vaga dos deveres que impõe a eles mesmos.  Acrescentar às delícias habituais de sua vida, um acessório agradável na pessoa de uma mulher honesta e graciosa, atenta em poupar-lhes os pequenos cuidados da vida material, tornando o seu lar sempre alegre e duradouro, fazendo dele um abrigo sempre pronto para as horas de fadiga ou aborrecimento, é todo o seu sonho. Que tenham a responsabilidade da alma, que uma grande parte da educação intelectual, moral e religiosa de sua mulher lhes incumbe, não parecem duvidar.
É, entretanto, o seu papel, o seu dever exercerem a autoridade e empregarem a sua influência na família para o primeiro e o maior de todos os bens, o de sua mulher.
A mulher tem essencialmente necessidade de ser dirigida; e quase sempre, sobretudo, a mulher francesa, o deseja e é própria para recebê-lo.
Deseja-o. Quantas vezes ouvimos as moças dizerem: «Quero um marido que me seja superior, e que me guie.» Uma superioridade que lhes inspire confiança e sobre a qual se apoiem, é o seu desejo mais sincero.
É também a sua necessidade. Uma moça pouco sabe. Por mais cuidados que tenham tido na sua educação e instrução, tanto uma como outra, ainda não estão completas. Além disso, viveu muito recatada; vai ser lançada de repente, noutra posição; é impossível que se torne assim uma mulher perfeita: tem necessidade de uma direção.
E é muito apta para recebê-la. A maioria das mulheres seriam o que seus maridos desejassem, se eles se dessem ao trabalho de prepará-las. Mesmo que até então tenha havido educação fútil, gosto de dissipação, vaidade, há raramente frivolidade incurável. Toda a mulher, ainda jovem, tem em si um grande fundo de abnegação e dedicação, que a doce autoridade do primeiro amor é onipotente para desenvolver. É o marido que deve modelar a sua vontade, formar segundo os seus desejos, elevar à dignidade dos seus sentimentos e pensamentos, esse jovem coração e esse jovem espírito que só deseja agradar-lhe. Ele deve acrescentar aos laços que unem o esposo à esposa, os que unem o discípulo ao seu mestre, ao seu guia, ao seu amigo. Há, aí, um papel muito digno de tentar os que desejam atingir, pela virtude, a felicidade verdadeira.
É o aperfeiçoamento da esposa, é a união cristã, a edificação dos filhos, é todo o bem da família.
O marido deve empregar a autoridade; é a sua função, é o seu papel.

Notas:

1- Gênesis II, 24.
2- Epístola aos Efésios, V, 23.

Continuará...