terça-feira, 28 de agosto de 2012

Formação para os homens - parte 3


Padre Emmanuel de Gibergues

Até aí, não se conhecia a si mesmo.
Seus pais, os seus professores, haviam-no repreendido; os seus amigos haviam-lhe apontado os defeitos, e talvez tivessem zombado dele! Mas nada havia podido fazer cair o véu espesso que os melhores se obstinam em conservar, e que impede que se vejam.
O sentimento de sua responsabilidade começará a abrir-lhe os olhos. Se quiser ser sincero, há de sentir-se impotente para fazer a felicidade daquela que ele ama! ...
Em seguida, na intimidade da vida conjugal, no contato diário, nas decisões a tomar em comum na fusão das duas existências, o fundo da sua natureza depressa se revelará. Admirar-se-á de descobrir em si defeitos que não conhecia, porque lhes faltara ocasião de se produzirem.
Além disso, se não quiser entrincheirar-se em seu orgulho, não receará de aceitar os conselhos de sua mulher; não há de querer privar-se de luzes tão preciosas. Se a mulher tem menos conhecimento e talvez menos razão, tem mais coração e perspicácia. Um marido que rejeitasse os seus conselhos ou que a desanimasse de renová-los, pelo seu mau acolhimento, não sabe de que luzes e, quase, de que revelações o seu estúpido amor próprio o privaria para sempre. Quem poderá melhor do que a mulher conhecer o temperamento do marido notar-lhe e fazer-lhe compreender os seus defeitos? É ao marido que compete fazê-lo em primeiro lugar; mas os conselhos de sua afetuosa franqueza terão um acolhimento tanto maior, quanto mais pronto ele estiver para recebê-los com cordial gratidão e docilidade generosa.
Não se deve desacoroçoar do papel de monitor, porque, se é alívio o dizer uma verdade no arrebatamento da cólera, é uma aflição, e é preciso um esforço, na calma de uma afeição, que deseja o bem sem paixão nem rancor.
O matrimônio não ensina só a conhecer-se, ajuda a vencer-se, o que é bem preciso. Se não se quiser renunciar a felicidade, vê-la desfazer em fumaça, transformar num estado miserável de hostilidade surda e permanente, que torna a vida insuportável, é preciso renunciar a si mesmo.  A renúncia não é somente o fundamento da vida cristã, porém da felicidade conjugal; de sorte que, por um desígnio providencial, a mesma causa conduz-nos, ao mesmo tempo, à virtude e à felicidade.
Na vida conjugal, as ocasiões de renúncia são diárias, e, portanto, assim também as ocasiões de aumentar, de receber o aperfeiçoamento, que é o fim do matrimônio.
O egoísmo é o nosso inimigo mortal; vivermos em nós, de nós, para nós, é o nosso mal. A nossa educação moral consiste em sairmos de nós mesmos; e o matrimônio é a instituição divina, para obrigar dois seres humanos a saírem de si mesmos, para vencerem o seu egoísmo mutuo, e fazerem o aprendizado da virtude.
Nos primeiros dias nada custava; agora, tudo pesa, e vive-se como sob a pressão, de uma cadeia pesadíssima. Outrora era o sopro vernal de uma afeição, radiante; agora, é o vento da tempestade. O homem só via em sua mulher um ser atraente, encantador; agora começa a descobrir nela um ser, por vezes, terrível na sua doçura, horrível mesmo nos seus atrativos. É o momento da renúncia, de elevar-se ao desinteresse sublime: é a educação moral que se faz.
Que digo eu? É a educação divina, pois, não é só um ideal humano que deveis realizar no matrimônio, meus senhores, mas um ideal divino, a união de Cristo com a Sua Igreja.
Que fez Cristo por Sua Igreja? non sibi placuit 1 diz S. Paulo, não se orgulhou de Si mesmo. Humilhou-Se, renunciou-Se, despojou-Se, crucificou-Se. Sacrificou a glória de que gozava no seio de Seu Pai, e a glória humana, de que poderia ter-Se revestido. Sacrificou o Seu repouso, o Seu corpo, o Seu sangue, a Sua alma, a Sua vida. Não há um só sacrifício perante o qual haja recuado. Eis o modelo que São Paulo não receia propor-vos, maridos cristãos!
É que a moral cristã, na decadência humana, é a moral essencialmente do sacrifício e da renunciação. É, aí, que ela nos descobre o remédio para todos os nossos males e a fonte de todos os bens: tantum proficies quantum tibi ipsi vim intuleris, diz a Imitação, aproveitareis na proporção das contrariedades que vos impuserdes.
Nada é mais necessário na sociedade conjugal. Sem a abnegação, cedo ou tarde, virá a divisão, em seguida a incompatibilidade de humor, enfim a destruição do lar.
Se desejais a união, a fusão das vossas duas vidas em uma só, é à abnegação que deveis recorrer. Só com ela, o matrimônio atinge o seu fim: a educação do homem e do cristão.
Ora, a fonte inesgotável da abnegação acha-se no Evangelho, na força moral de que dispõe o cristianismo, nos sacramentos, e aqui, especialmente, no sacramento do matrimônio e em todas as graças de que é a fonte inexaurível.
Qual não é, pois, a infelicidade e a culpa daqueles, que, aproximando-se do sacramento do matrimônio sem preparação, se privam das graças mais preciosas? Mas a infelicidade maior, a culpa maior é dos que se aproximam dele sem confissão séria, em estado de pecado mortal, dos que profanam este grande sacramento, e constituem a família, - causa horror só em pensá-lo - por um sacrilégio!
Que vossos filhos e vossas filhas, meus senhores, se preparem seriamente para o matrimônio; que o não realizem senão em estado de graça e com disposições sérias e cristãs!
Só assim se encontrará o remédio para os sofrimentos da vida conjugal, e, com a virtude, a verdadeira felicidade.
Procurá-lo em outra parte; queixar-se das leis do Evangelho, que parecem esmagadoras, é um engano. Não são as leis que se devem modificar, são os costumes. E em vez de dizer como os decadentes: «Alargai a moral, não posso», é preciso dizer como os fortes, como os enérgicos, como os cristãos: Restaurai a moral, e com ela a felicidade: «Com Deus, que me fortifica, tudo posso»2

Notas:

1-      Epístola aos Romanos, XV, 3.
2-      Epístola aos Filipenses.

Continuará...