quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A perfeita casada (VI) - Frei Luís de León

Nota do blogue: Acompanhe este Especial AQUI.


Foi como navio de mercador, 
que de longe traz seu pão.

            A Sagrada Escritura chama de pão a tudo aquilo que pertence e ajuda na provisão de nossa vida. Pois compara Salomão a casada a um navio de mercador abastecido e rico, no qual eficazmente dá a entender a obra e o proveito disto que chamamos e tratamos de caseiro e prendado na mulher.
            A nau navega pelos mares por diversos lugares, toca em diferentes terras e províncias, e em cada uma delas toma o que nelas há de bom e barato, e para sua terra; dá-lhe maior preço, e dobra e triplica os lucros. Além disso, a riqueza que cabe em um navio, e a mercadoria que abrange, não é riqueza para um homem só ou para um tipo particular de pessoa, mas é provisão para uma cidade inteira, e para todas as diferentes pessoas que há nela; traz panos, e sedas, e brocados, e pedras ricas, e obras belíssimas de todo gênero. Pois isto mesmo acontece com a mulher caseira que como o navio corre por diversas terras buscando lucro; assim ela deve andar por todos os cantos da casa; e recolher tudo o que pareça estar perdido transformando em utilidade e proveito.
            E como aquele que navega para as Índias, das agulhas que leva, e dos alfinetes, e outras coisas do tipo, que aqui valem pouco e os índios estimam muito, traz rico ouro e pedras preciosas, assim esta nave há de transformar em riqueza o que parece mais sem importância, e transformá-lo, sem perceber, como faz o navio, que sem parecer que se mexe, nunca descansa; quando os outros dormem, navega e acrescenta só com mudar de ares o valor do que recebe; e assim a prendada mulher estando quieta, pára dormindo permanece em vigília e ociosa, trabalha e quase sem não perceber, torna-se rica.
            Deve ter visto vossa mercê alguma mulher como esta, e dentro de sua casa deve haver muitos exemplos desta virtude. Porém se não deseja pensar em si mesma, e quer ver com quanta propriedade a mulher caseira é como uma nau, coloque diante dos olhos uma mulher que cuida da casa, e do que nela parece perdido faz dinheiro, compra lã e linho; junto com suas criadas enfeita e trabalha, e verá que, estando sentada com suas mulheres girando fuso em suas mãos e como a nave, que, sem parecer que se move, vai navegando, e passando um dia, e sucedendo outro, e chegando as noites, e amanhecendo, e correndo como sem se mover a obra, tece-se o tecido e enfeita-se o pano, fazendo ricos trabalhos; quando menos se espera, cheia de prosperidade, entra nossa nave no porto, e começa a desdobrar suas riquezas, e sai dali o agasalho para os criados, a roupa para os filhos e seus melhores enfeites, e apetrechos para o marido, e as camas ricamente ornadas, e os atavios para as paredes da sala e todas as jóias da casa, que são um tesouro sem tamanho. E diz Salomão que traz esta nave de longe seu pão, porque, ao comparar-se o princípio desta obra com o final dela, e medindo bem os caminhos por onde chega a este porto, quase não se percebe como pode se chegar a ele, nem como foi possível, de tão delgados e afastados princípios, chegar a fazer depois tão caudaloso rio.

Mas vamos ao que vem a seguir:

Madrugou e repartiu a seus ajudantes o alimento, e a tarefa a suas criadas.

Continuará...