sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A perfeita casada (V) - Frei Luís de León

Nota do blogue: Acompanhe este Especial AQUI.

Buscou lã e linho e obrou com o saber
de suas mãos.


             Não diz que o marido comprou linho para que ela lavrasse, mas que ela o procurou para mostrar que a primeira parte de ser prendada é saber aproveitar o que tem em casa, e com aquelas coisas que sobram e que parecem perdidas se abasteça ela de linho e lã, e das demais coisas que são como estas; estas são como as armas e o campo onde descobre sua virtude, a boa mulher. Porque, juntando seu artifício, e ajudando-o com sua preocupação e a de suas criadas, sem fazer novas despesas, e como sem sentir, quando menos pense, encontrará sua casa abastada e cheia de riquezas.
            Porém dirão porventura as senhoras delicadas de agora que isso é grosseiro e que aquela é mulher de algum lavrador, que fia e tece, e que o estado dessa mulher é diferente do seu. Respondemos aqui, que esta mulher é o modelo de perfeição de todas as casadas, à qual todas devem se ajustar, tanto quanto lhes for possível; é como o padrão desta virtude, ao qual quem mais se aproxima, mais perfeita é. Prova disso é que o Espírito Santo, que nos fez e nos conhece, querendo ensinar à casada seu estado, a mostra dessa maneira.
            Mas para que fique mais claro, tomemos a água de seu princípio e digamos assim. São três os modos de vida, nos quais se dividem e se reduzem todos os modos de moradias, que há entre os que vivem casados: ou lavram a terra ou se sustentam com algum ofício, ou arrendam suas terras a outros e vivem ociosos do fruto delas. Assim, um modo de vida é o dos que lavram, ou seja, vida de lavrador; a outra a dos que contratam, ou seja, vida de contratação; e a terceira é a dos que comem de suas terras, porém lavradas com o suor dos outros e chame-se vida descansada.
            À vida de lavrador pertence, não só o lavrador que com um par de bois lavra seu patrimônio, mas também os que com muitas juntas de bois e com uma grande família aram os campos e criam grande quantidade de gado.
            A outra vida, que dissemos de contratação, abrange o contratador pobre, o mercador importante, o oficial mecânico, o artífice e o soldado, e finalmente qualquer um que vende seu trabalho ou sua arte ou sua criatividade.

            A terceira vida, ociosa, própria dos chamados nobres e cavalheiros e senhores, os que têm arrendatários, ou vassalos de onde tiram suas rendas.
            Se alguém nos perguntar qual destas três vidas é a mais perfeita e melhor, dizemos que a de lavrador é a primeira e a verdadeira; e que as outras duas, ao que parece são boas e conforme delas se desviam, são perigosas. Porque deve-se entender que, nesta primeira vida que dizemos de lavrador, há duas coisas: lucro e ocupação; o lucro é inocente e natural, como dissemos acima, e sem agravo ou desgosto alheio; a ocupação é louvável e necessária, e mestre de toda virtude.
            A segunda vida, de contratação, se comunica com esta porque é também vida ocupada e isto é o que tem de bom; porém se diferencia do primeiro, que é o lucro, porque a recolhe dos bens alheios, e na maioria das vezes com desgosto dos donos deles e poucas vezes sem um pouco de desvio. E assim, tem menor sua reputação.
            Na terceira e última vida, se olharmos para os lucros, são quase iguais à primeira; pelo menos nascem ambas de uma mesma fonte, que é o trabalho da terra, já que, quando chega aos da vida que chamamos ociosa, por parte dos mineiros por onde passa, adquire algumas vezes um colorido ruim sobre o arrendamento e o arrendatário pela desigualdade que costuma haver; mas enfim, na maior parte e quase sempre são lucros e renda, seguros e honrados, e nesta parte esta terceira vida é boa; porém, se olharmos para a ocupação, é completamente diferente da primeira, porque aquela é muito ocupada, e esta muito ociosa, e pela mesma causa, muito exposta a danos e males gravíssimos. De modo que o perfeito e natural, nisto que estamos falando, é a vida de lavrador. Poderia eu me estender aqui louvando-a, mas não o farei para não esquecer meu propósito e porque é coisa sentenciada já pelos sábios antigos; também porque, ao que sabemos, Deus colocou o homem nesta vida, e não na outra, quando o criou, e antes que houvesse pecado; isso nos basta para saber que, de todos os modos de viver, este é o
mais natural e melhor.
            Deixando, pois, isto como coisa estabelecida, acrescentamos, prosseguindo, que, em todas as coisas que são de uma mesma linhagem há graus de perfeição diferentes; aquilo que todas têm, esteja em umas mais inteiro e em outras menos, a razão pede que a mais avantajada e perfeita seja regra e modelo das demais, que quer dizer que todas devem olhar para a mais avantajada, e aproximar-se dela o máximo possível. A que mais se aproximar será a de melhor sorte. Claro exemplo temos disto nas estrelas e no sol; são todos corpos cheios de luz, e o sol possui mais que todos sendo o mais brilhante e resplandecente, por isso é o que tem a presidência na luz, e a quem todas as coisas brilhantes olham e seguem, e de quem colhem suas luzes, quanto mais se aproximam.
            Digo agora que, como entre todos os modos de vida dos homens casados, tenha o mais alto grau de segurança, a agricultura, e seja ela, como se conclui, a medida e a regra que devem seguir e o modelo que devem imitar, não convém de modo algum que o Espírito Santo, que pretende colocar aqui uma que seja modelo das casadas, pusesse uma mercadora, mulher dos que vivem de contratação, ou uma senhora regalada e casada com um ocioso cavalheiro, porque uma e outra são imperfeitas e menos boas, e pelo mesmo motivo inúteis para ser colocadas como exemplo e modelo; escolheu a melhor sorte, fez uma pintura da perfeita mulher, colocou-a frente aos olhos de todas as mulheres, para que fosse comum a todas; às do mesmo estado, que se ajustassem totalmente com elas, e para as outras, que se aproximassem o máximo possível. Porque, mesmo que não seja para todas o linho e a lã, o fuso e a tela, a preocupação com as criadas, repartir as tarefas e rações, há porém em todas outras coisas que se parecem a estas e podem se espelhar nas boas mulheres casadas. E a todas, sem exceção, lhes cai bem e lhes convém, a cada uma do seu modo, não ser perdidas e gastadoras, e sim prendadas e acrescentadoras de seus bens.
            E se o regalo e o mau uso de agora as persuadiu que o descuido e o ócio são parte da nobreza e grandeza, é bom que mudem de idéia. Porque se voltarmos os olhos para trás, e olharmos para os tempos passados, veremos que, sempre que reinou a virtude, a agricultura e o reino andaram irmanados e juntos; e vivemos que viver da granja e do cultivo era a vida usada e que acarretava reputação aos príncipes e grandes senhores.
            Abraão, homem riquíssimo e pai de toda a verdadeira nobreza, arou os campos; David, rei invencível e glorioso, não só antes do reino pastoreou ovelhas mas, depois de rei sustentava-se de seus cultivos e de seu gado. E dos romanos, senhores do mundo, sabemos que iam do arado ao consulado, ou seja, ao comando e governo de toda a terra, e voltavam do consulado ao arado. E se não fosse esta vida de nobreza, também devida e conveniente aos mesmos, nunca o poeta Homero em sua poesia, que foi a imagem viva do que a cada pessoa e estado convinha, introduziria Helena, rainha nobre, que quando saiu para ver Telêmaco sentada em sua cadeira, teve ao seu lado uma rica cestinha com pedaços de lãs prontas para fiar, e usadas já fiadas, e a roca para que fiasse. Nem no palácio de Alcino, príncipe de seu povo riquíssimo, de cem damas que tinha a seu serviço fizesse, como fez, cinqüenta fiandeiras. E Penélope, princesa de Ítaca, com seu tecer e destecer, não fingisse o julgamento de tão grande poeta, se o tecido e tecer fosse alheio às mulheres principais. E Plutarco escreve que em Roma todas as mulheres, por mais importantes que fossem, quando se casavam e quando as levava o marido para sua casa, logo na entrada, tinham como cerimônia necessária, uma roca, para que o que primeiro vissem ao entrar em sua casa lhes servisse de aviso de que naquilo haveriam de se ocupar sempre.
            Mas será necessário trazer exemplos tão passados e antigos, e colocar diante dos olhos o que, de tão longínquo, quase se perde de vista? Sem sair de nossas casas, na Espanha, e quase na idade de nossos avós, encontramos claros exemplos desta virtude, [como o da rainha dona Isabel a Católica, princesa bem-aventurada]. E se as que são tidas agora duquesas e rainhas não se persuadem pela razão, façam a experiência disso por um breve tempo, e tomem a roca, armem os dedos com a agulha e dedal, e cercadas pelas suas damas, no meio delas, façam trabalhos ricos com elas; ocupem parte da noite nesse exercício, e se furtem ao vicioso sono, e ocupem os pensamentos jovens de suas donzelas nestes trabalhos, e façam com que, animadas com o exemplo de sua senhora, disputem todas entre si, procurando ser a mais prendada; e quando para o adereço ou provisão de suas pessoas e casas não for necessária esta tarefa (apesar de nenhuma casa ser tão grande nem tão real, onde semelhantes obras não tragam honra e proveito) porém, quando não para si, façam-no para remédio e abrigo de cem pobrezas e mil necessidades alheias.
            Então, tratem as duquesas e as rainhas o linho, e lavrem a seda, e dêem tarefa a suas damas, e experimentem com elas estes ofícios, e ponham em estado e honra esta virtude; e eu vou lutar para que o mundo as louve, e que seus maridos, os duques e reis, que as prezem por isso e as estimem; e ainda conseguirei com eles que, como pagamento por este cuidado, as absolvam de outros mil importunos e memoráveis trabalhos com que atormentam seus corpos e rostos; que as escusem e livrem de ler os livros de cavalarias, de trazer o soneto e a canção no seio, da graça dos enfeites, o terreiro e do sarau, e de outras cem coisas do tipo, mesmo que nunca as façam. De modo que a boa mulher casada, prendada e caseira, deve ser ou lavradora, do modo como foi dito, ou semelhante à lavradora tanto quanto possível.
            E do fato de ser prendada a primeira parte era ser proveitosa, e por causa disso Salomão não disse que o marido comprava o linho para esta mulher, mas ela o procurava e comprava; deve-se advertir algumas que não são prendadas, e por lhes faltar esta parte, são mais caras lavrando que descansando; porque tudo o que fazem e lavram deve vir da casa do joalheiro e do mercador, ou fiado ou comprado a preços maiores, e quer a ventura depois que, tendo vindo muito ouro e muita seda e aljôfar, seja todo o artifício e trabalho um ninho de pássaros, ou coisa semelhante.
            Pois a estas, que seus maridos as mandem descansar, ou elas o farão sem mandá-las, pois menos ruins são para o sono que para o trabalho; a uma boa mulher, consiste em que nenhuma coisa de sua casa seja desaproveitada, mas que tudo ganhe valor, e cresça em suas mãos, e que, sem saber como, fique rica e tire um tesouro. Que mesmo em tarefas menores saiba tirar algo de bom e proveitoso, e as que se aplicam nesta virtude, elas mesmas o entendem; como, pelo contrário as que são perdidas e desperdiçadoras, por mais que lhes seja dito, nunca aprendem.
Atentemos para o que vem a seguir:
Foi como navio de mercador, que de longe traz seu pão. 

Continuará...