segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A perfeita casada (VII) - Frei Luís de León

A perfeita casada
Frei Luís de León



Madrugou e repartiu a seus ajudantes
os alimentos, e a tarefa a suas criadas.

É, como dissemos, esta mulher que surge aqui e põe como exemplo das boas casadas o Espírito Santo, mulher de lavrador. E a razão pela qual põe como modelo de virtudes uma mulher deste tipo, e não de outras, também está dito. Nessas casas as famílias devem estar habituadas às coisas do campo e é necessário que acorde muito cedo e como, não retorna até a noite, é importante que leve consigo a provisão de comida, e que reparta a cada um o alimento para seu sustento, assim como as tarefas para aquele dia; pois sendo assim, diz Salomão que a boa mulher casada não encomendou esta tarefa a uma de suas criadas e ficou se regalando com o sono da manhã descuidadamente em sua cama; mas foi a primeira a se levantar, e ganhou da estrela d' Alva, e amanheceu ela antes que o sol, e por si mesma, e não por mão alheia, forneceu à sua gente e família, tanto o que deviam fazer, como o que haveriam de comer.
Com o que ensina e manda às que são deste tipo, que assim o façam, e, para as que são diferentes, que utilizem a mesma determinação e diligência. Porque, mesmo que não tenham ajudantes nem operários para mandar ao campo, tem cada uma outras coisas como estas, referentes ao bom governo e provisão da casa e de cada dia, que as obriga a despertar e levantar, e colocar nisso seu cuidado e suas mãos. E assim, com estas palavras ditas e entendidas geralmente, avisa duas coisas o Espírito Santo e acrescenta duas novas cores de perfeição e virtude a esta mulher casada. Uma é que seja madrugadora; e a outra que, madrugando, forneça ela logo e por si mesma o que a ordem de sua casa pede: que ambas são coisas importantíssimas. E digamos do primeiro.
Muito se enganam as que pensam que enquanto elas, de quem é a casa, e a quem toca o bem e o mal, dormem e se descuidam, a criada se preocupará e cuidará, coisa que não lhe compete já que olha tudo como alheio. Porque, se o amo dorme, por que despertará o criado? E se a senhora, que é e há de ser o exemplo e a mestra de sua família, e de quem deve aprender cada uma de suas criadas o que convém, se esquece de tudo, pela mesma razão e com maior razão, os demais serão esquecidos e dados ao sono.
Bem disse Aristóteles a esse mesmo respeito, que quem não tem bom modelo, não pode ser bom imitador. Não poderá o servo cuidar da casa, se vê que o dono descuida dela. De modo que há de madrugar a mulher para que madrugue a família. Porque deve entender que sua casa é um corpo, e que ela é sua alma, e que, os membros não se movem se não forem movidos pela alma; assim suas criadas, se não indicar seus trabalhos, não saberão se mexer. E se as criadas madrugassem por si mesmas, dormindo sua senhora e não a tendo por testemunha e por guardiã, é pior que madruguem, porque então a casa, por aquele espaço de tempo, é como um povoado sem rei e sem lei, e como comunidade sem cabeça; e não se levantam para servir, e sim para roubar e destruir.

Assim, como no castelo que está na fronteira ou em um lugar onde se temem os inimigos, nunca faltam os vigias, do mesmo modo, na casa bem governada, quando estão acordados os inimigos, que são os criados, sempre há de velar o senhor. Ele deve ser o último a ir para o leito, e o primeiro a se levantar. E a senhora que isto não fizer, deverá estar preparada para sua grande desventura, persuadida e certa de que seus inimigos entrarão no forte, e que um dia sentirá o dano e no outro verá o roubo, e continuamente a zanga e o mal serviço, e que ao mal da casa acompanhará também o mal da honra; como diz Cristo no Evangelho, enquanto o pai de família dorme, semeia o inimigo a discórdia; assim ela, com seu descuido e sono deixará a liberdade e desonestidade entrarem em sua casa, que abrirá as portas e falseará as chaves e quebrará os cadeados, e penetrará até os últimos segredos, corrompendo as criadas e não parando até contaminar suas filhas: pelo que a senhora que não soube então, nem quis pela manhã despedir dos olhos o sono, nem deixar de dormir um pouco, infortunada e ferida no coração, passará em amargos suspiros, muitas noites velando.
Mas é trabalhoso madrugar e danoso para a saúde! Quando for assim, sendo por outra parte tão proveitoso e necessário para o bom governo da casa e tão devido ao ofício da chamada senhora dela, haveria de se adiar este dano, porque mais deve o homem a seu ofício que a seu corpo, e maior dor e enfermidade é trazer continuamente sua família desordenada e perdida, que padecer um pouco, ou no estômago de fraqueza, ou na cabeça de pesar; madrugar é tão saudável, que à própria razão da saúde, mesmo que não despertasse o cuidado e obrigação da casa, haveria de levantar a casada da cama, amanhecendo.
E guarda nisto Deus, como em todo o resto, a doçura e suavidade de seu sábio governo, em que aquilo que nos obriga é o mesmo que mais convém a nossa natureza e onde recebe por seu serviço o que é nosso proveito. Assim pois, não só a casa, mas também a saúde, pede à boa mulher que madrugue. Porque é certo que nosso corpo é do mesmo material dos outros corpos, e que a ordem que mantém a natureza para o bem e conservação dos demais é a mesma que conserva e dá saúde aos homens. Pois naquela hora desperta o mundo todo junto, e a luz nova saindo, abre os olhos de todos os animais; se fosse então danoso deixar o sono, a natureza, que em todas as coisas em geral e em cada uma em particular, esquiva e foge do dano, não romperia tão cedo o véu das trevas que nos adormecem, nem traria pelo oriente os claros raios do sol; se os trouxesse, não lhes daria tantas forças para nos despertar. Se não despertasse naturalmente a luz, não fechariam tão rapidamente as janelas os que abraçam o sono. De modo que a natureza, que nos envia a luz, deseja sem dúvida que nos desperte.
E ela nos desperta, pois à nossa saúde convém que despertemos. E não contradiz a isto o uso das pessoas que agora o mundo chama de senhores, cujo principal cuidado é viver para o descanso e regalo do corpo, as quais ficam na cama até o meio-dia. Antes esta verdade, palpável, condena aquele vício, do qual, por nossos pecados ou pelos pecados dos mesmos, fazem honra e estado, e põem parte de sua grandeza em não guardar nem mesmo nisto a tarefa que Deus lhes põe. Castigava bem esta torpeza uma pessoa que conheci, e a chamava com seu merecido vocábulo. E mesmo sendo tão vil como o é o fato, eu o porei aqui, porque é palavra que cabe. Assim, quando dizia alguém que era o estado nos senhores este dormir, costumava ele responder que erravam a letra, e que, por dizer estábulo, diziam estado.
E isso em verdade é assim, que aquela confusão de vida se inicia e nasce de outra confusão maior, que está na alma e que é causa também e início de muitas outras confusões torpes e feias. Porque o sangue e os demais humores do corpo, com o calor do dia e do sono acesos e danificados demais corrompem não somente a saúde, mas também afetam e infeccionam o coração. É coisa digna de admiração que, sendo estes senhores em tudo grandes seguidores, ou por melhor dizê-lo, grandes escravos de seu deleite, nisto só se esquecem dele e perdem, por um vicioso dormir, o mais deleitoso da vida, que é a manhã. Porque então a luz, como vem depois das trevas e se encontra depois de haver sido perdida, parece outra e fere o coração do homem com uma nova alegria; a visão do céu, o pintar das nuvens e o surgimento da aurora, que não sem motivo os poetas coroam de rosas, e o surgir da beleza do sol, são coisas maravilhosas. O cantar das aves, há alguma dúvida de que soa mais docemente? E as flores, as ervas, o campo exalam um tesouro de aroma.
E como quando entra o rei novamente em alguma cidade, se embeleza toda ela, e os cidadãos se mostram e fazem alarde de suas melhores riquezas, assim os animais e a terra e o ar e todos os elementos, com a chegada do sol se alegram e, como para recebê-lo, se embelezam e melhoram e mostram cada um de seus bens. E como os curiosos costumam colocar seus cuidados e seu trabalho para ver tal coisa, assim os homens cordatos, somente por gosto, não perderão a festa que faz toda a natureza ao sol, pelas manhãs; porque não é gosto de um só sentido, mas geral contentamento de todos, porque a vista se deleita com o nascer da luz, e com o ar, e com as nuvens; e para os ouvidos as aves fazem agradável harmonia; para o olfato o cheiro do campo, e as ervas desprendem de si um aroma muito suave; o frescor do ar tempera com grande deleite o humor aquecido com o sono, e cria saúde e lava as tristezas do coração e não sei de que modo o desperta para pensamentos divinos, antes que mergulhe nos trabalhos do dia.
Porém se mesmo do dia fazem noite, e perdem o fruto da luz com o sono, nem o deleite, nem a saúde, nem a necessidade e proveito que dissemos são poderosos para fazê-los levantar, você, que é filha da luz, levante-se com ela e abra a claridade de seus olhos quando descobrir seus raios o sol, e com peito puro levante suas mãos limpas ao Doador da luz, oferecendo a Ele, com santas e agradecidas palavras, seu coração, e, depois de haver feito isso, e de haver gozado do gosto do novo dia, voltada para as coisas de sua casa, entenda o seu ofício, como fim a quem se ordene o primeiro a madrugar.
Não se entende que, se madruga a casada, deve ser para que, rodeada de potes e arcas, como fazem algumas, fique sentada três horas arrumando as sobrancelhas, e pintando o rosto, negociando com o espelho para que minta e a chame de formosa. Além do grave mal que há neste artifício postiço, do qual falaremos depois, falha por se ocupar em coisas tão erradas, que seria preferível dormir.
Levante-se, pois, e levantada governe sua gente e olhe o que deve ser feito naquele dia, e a cada um de seus criados reparta seu trabalho; e como na guerra o capitão, quando ordena em fileiras sua esquadra, coloca cada soldado em seu lugar e avisa cada um para que guarde seu posto, assim ela há de repartir a seus criados os trabalhos e colocar ordem em tudo, com o que gera grandes proveitos. Por um lado, faz-se o que convém com tempo e com gosto; por outro lado, quando acontecer que a doença ou alguma outra ocupação afastem a senhora, estarão já os criados, acostumados como mestres em tudo aquilo que devem fazer. E além disso, do cuidado da senhora aprendem as criadas a ser cuidadosas, e não se atrevem a se descuidar das ordens de sua senhora; e como sabem que a atenção dela se estende por toda parte, acham, e com razão, que tudo quanto fazem a tem presente e por testemunha, animam-se não só a tratar com fidelidade do seu trabalho, mas também a adiantá-lo. E assim cresce o bem, e melhora a casa, reinando a harmonia e desterrando a zanga. E finalmente, a presença e a voz de mando da senhora, fazem com que suas criadas não só sejam proveitosas, mas que elas em si não sejam viciosas, o que também pertence ao seu ofício.
Vemos a seguir:
Caiu-lhe no gosto uma propriedade, e comprou-a, e do fruto de suas palmas plantou vinhas.

Continuará...