terça-feira, 31 de julho de 2012

Prática da simplicidade para com Deus

 Nota do blogue: Acompanhe este Especial AQUI.

Monsenhor Gibergues 
A simplicidade segundo o Evangelho, instruções às senhoras e às jovens

 
          Façamos agora, como que o retrato da simplicidade, encarando-a pormenorizadamente e percorrendo vasto campo no qual tendes ocasião de exercê-la.
            A simplicidade deve ser exercida em relação a Deus, em relação a vós mesmos e em relação ao próximo.
            Na simplicidade está a perfeição de vossos encontros com Deus... "Caminha diante de mim, disse Deus a Abraão, e sê perfeito."1  A alma simples segue esse divino conselho e realiza esse admirável programa.
            Caminha diante de Deus, tem o sentimento da Sua presença, contempla-O incessantemente: atinge a perfeição, porque só tem um desejo: o de agradar a Deus.
            Compreende a extraordinária importância dos Exercícios de piedade. A eles se dedica pelo livre esforço de uma vontade resoluta e perseverante e não por uma atração sensível, condicionada a mil vicissitudes. Neles não procura mercenariamente, satisfação pessoal, repouso ou recompensa imediata. Busca apenas a vontade e a glória de Deus.
            Se acaso encontra consolação sensível, doçura e alegria, não rejeita essas graças; com reconhecimento recebe-as da bondade de Deus.
            Entretanto, aí não se detém não se compraz e não baseia nisso sua piedade. Ama a Deus mais que a todas as Suas dádivas; e, em vez de, egoisticamente, atribuir-se as graças divinas, emprega-as todas para a glória de Deus.
            A alma simples é mais inclinada à contemplação do que à meditação. Muita vez, diante de uma obra-prima, de um magnífico quadro, acontece-nos esquecer tudo o mais, absorvidos naquilo que vemos; por um instante, parece-nos que as faculdades da alma nos são arrebatadas e ficam como que em suspenso, até readquirirmos a consciência de nós mesmos.
            Uma alma simples não se cansa de admirar a eterna e infinita Beleza. Ora a contempla no próprio Deus, ora na humanidade do Cristo, como num espelho sem mácula.
            Nunca discute, e pouco raciocina: olha, contempla, esquece-se de si mesma, para absorver-se e perder-se em Deus2.
            Nos santos, tudo isso conduz ao arrebatamento e ao êxtase. Em suas asas poderosas, a simplicidade os transporta ao próprio seio da divindade. Assim, outrora, o profeta Daniel foi arrebatado, transportado, enlevado, porque, diz a Escritura, "era varão de ardentes desejos”3, isto é, homem perfeitamente simples, que só aspirava a Deus.
            A alma simples não se desencoraja, quando só encontra na oração aridez e tibieza, quando está como em "terra deserta, intransitável e sem água."4 Nessas duras provações, vê a vontade de Deus e não perde a calma nem a paz.
            Não se perturba nem desanima, se o dever de estado ou circunstâncias imprevistas, a caridade, a doença ou qualquer outra coisa permitida por Deus a impede de dedicar-se aos exercícios habituais de piedade, a obriga a interromper suas comunhões. Relembra, então, a resposta que Nosso Senhor, um dia, deu ao padre Alvarez, quando este, sobrecarregado de trabalho, se queixava de não poder entregar-se à oração: "Mesmo que Eu não esteja a teu lado, deve bastar que me sirva de ti.”
            Quando a alma não é simples, basta o afastamento de seu diretor para que se desoriente e se descuide.
            A alma simples atravessa esses momentos mais difíceis com igual fervor, assim como a pomba atravessa uma região brumosa, sem desorientar-se, sem retardar o vôo.
Mesmo que a morte ou um acontecimento decisivo a obrigue a mudar de diretor, não hesita, não adia, entrega-se com toda a confiança à direção do novo guia que a Providência lhe manda. 
            É admirável a e a piedade da alma simples para com a Igreja, os sacramentos e tudo o que é sagrado.
            Sua fé é inabalável. Não conhece a dúvida, exceto por vontade especial de Deus, que pelas provações santifica as almas mais perfeitas. Sua fé é límpida e sem nuvens; pura e integral. A submissão a todos os ensinamentos da Igreja já é pronta, alegre, filial e completa.
            Na confissão, vê no padre o próprio Deus. Acusa-se sem perturbação, sem restrição ou atenuações. Não diz mais nem menos do que é necessário; diz o que é e como é, sem exagerar nem encobrir a verdade.
            É a Jesus que fala, é a Ele que ouve: maleável e dócil, com perfeita humildade e obediência.
            Durante a absolvição, vê cair-lhe n'alma o sangue de Jesus; sente-se invadida pela contrição, pelo reconhecimento e pelo amor. Desse banho salutar sai regenerada, mais forte contra si mesma, mais dedicada aos outros.
            Durante a missa, imagina-se no Calvário, aos pés da Cruz. Contempla Jesus que eleva ao Pai os braços sangrentos, Jesus que perdoa, abençoa, ora, sofre e morre.
            Quando comunga, parece que o céu desce a seu coração; "sente-se envolvida pelas chamas, impregnada pelo bálsamo do amor."5
            Inundam-na a felicidade e a alegria. Absorvem-na de todo as maravilhas que nela se passam. Custa-lhe grande esforço arrancar-se à ação de graças, pois está inteiramente abrasada e consumida pelo fogo da divina caridade.
            Nessa alma que não lhe opõe resistência, a graça opera as mais belas transformações. Cresce em virtudes diante de Deus e dos homens. Para todos o que se aproximam, exala “o bom odor do Cristo”6. Na Igreja, nos sacramentos, só procura a Deus, e, por isso, O encontra com superabundância.

________________
           
1)        Gênesis, XVII, 1
2)     "Precisamos manter a alma firme na oração, diz São Francisco de Sales, sem permitir-lhe examinar o que faz ou verificar se está satisfeita. Ai de nós, se as satisfações e as consolações que temos não satisfazem os olhos de Deus, contentam somente ao miserável amor e à preocupação por nós mesmos, que existe fora de Deus e de sua consideração. Aquele que amorosamente procura agradar a Jesus Cristo não tem prazer nem ocasião de muito se analisar, pois tem o espírito continuamente atraído para onde o amor o leva, (Entretien XIII).
3)     Daniel, IX, 23
4)     Salmo LXII, 2.  
5)     Palavras do cura d'Ars 
6)     II Ep. Cor., II, 15. 
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