segunda-feira, 30 de julho de 2012

O Estado religioso

Nota do blogue: Veja o Especial completo AQUI.
Padre Matias de Bremscheid
A donzela cristã



A maioria das moças é, sem dúvida, chamada ao casamento. Deus, no entanto, escolhe, às vezes, uma distinta jovem para o estado religioso, onde ela O deverá servir, com grande fidelidade e amor, pertencer-Lhe de certo modo totalmente e tornar-se Sua esposa mística. Sua vida toda com suas energias, desejos e esforços, transforma-se numa agradável oblação, num sacrifício generoso a Deus, à humanidade sofredora, ou à mocidade ignorante.

Tal vocação é, por certo, grande honra e graça especial, pelo que não se poderia deixar de felicitar a uma jovem assim contemplada.

1º- O estado religioso é muito elevado.

É antes de tudo um estado de virtude e perfeição. Quem o segue se compromete a trabalhar nele seriamente para a salvação, porquanto além do exercício das demais virtudes, também se observam os conselhos evangélicos. Pode acontecer que alguns membros isolados não se esforcem com zelo eficaz para a perfeição, que um ou outro não haja rompido inteiramente com o mundo e, até mesmo, com o pecado. São, todavia exceções; em regra, há nos conventos de religiosos um sério e fervoroso esforço para a conquista da virtude. O mesmo também se verifica nos conventos de religiosas. Que bela vida de oração e piedade aí domina! Quanto amor e fidelidade os religiosos dedicam a Jesus Cristo. Quão alegremente visitam o Santíssimo Sacramento! Com que boa vontade e com que prazer executam eles os trabalhos determinados! Como observam conscienciosamente a disciplina e as prescrições da regra! Que de esforços para mutuamente praticar a caridade fraterna e suportar com paciência as cruzes quotidianas! É incontestável que de modo geral reina em nossas Ordens religiosas e nos conventos femininos uma vida florescente de virtudes. O estado religioso é um coeficiente inestimável para a salvação da humanidade. Não quero aqui relatar o que testifica a história sobre a atuação das Ordens religiosas, para incrementar o Cristianismo, para a formação, para a cultura, para as ciências e para as artes. 

Quero simplesmente chamar à atenção a ação das Irmãs em nossos dias,
constatado até mesmo pelos insuspeitos adeptos de outras religiões. Com que abnegação e altruísmo tratam elas dos enfermos, assistem os moribundos, mitigando-lhes a dura a dura agonia, educam as crianças, protegem os órfãos, tornam-se muitas vezes para uma alma inexperiente o anjo tutelar e conselheiro, fazem desabrochar a esperança no coração do pobre e infundem consolação no ânimo do oprimido; atraem com suas orações e merecimentos muitas graças sobre a Igreja e lhe acrescem os tesouros sobrenaturais que, mediante a comunhão dos santos, se convertem em bênçãos para todos.

O estado religioso proporciona à pessoa que o abraça e que o corresponde, uma grande felicidade. Em regra, as religiosas são as pessoas que mais desfrutam da verdadeira felicidade. Muita gente, que deste assunto nada entende, pensa naturalmente o contrário. 

Se uma jovem rica e formosa, que poderia lograr no mundo a sua felicidade, ingressa no claustro, todos a lastimam e falam da vida solitária e triste reservada à pobrezinha. Mas, se passados alguns anos, pudessem revê-la radiante de felicidade, julgariam as coisas de modo bem diferente.

Santo Afonso de Ligório, doutor da Igreja, que no decorrer da sua longa vida tão ativa, como sacerdote, religioso e bispo adquirira tão copiosa experiência, costumava dizer amiúde na sua velhice: “Foi nos claustros bem disciplinados que encontrei os homens mais felizes”. Assim é. Os religiosos que têm verdadeira vocação para este estado, e solícitos cumprem, de acordo com as suas forças, os deveres que abraçaram, são, por via de regra, mais felizes do que os que vivem no mundo. Livram-se dos muitos cuidados e múltiplas aflições a que estão sujeitos estes.

O amor de Deus que os anima, o ativo exercício de oração que os une em estreita intimidade com Cristo, infundem-lhes no coração uma paz que o mundo desconhece. Até mesmo o sacrifício que, por amor de Deus, faz a religiosa diariamente, na doação generosa, na renúncia dos bens terrenos e a si mesma, convertem-se para ela numa fonte perene de paz interior e de felicidade. Realiza a mensagem de Cristo: “O meu julgo é suave, e o meu peso leve” (MT. 11,30).

Visto ser o estado religioso uma escola florescente de virtudes, trazer muitos e grandes benefícios para a salvação da humanidade, tornar contentes e felizes os seus membros, quando estes, fiéis e conscienciosos cumprem os seus deveres; pode ser tido com toda a razão por um estado excelente e elevado e a moça que para ele for chamada deve alegrar-se e julgar-se feliz. Em vista destas considerações, podes objetar: Como pode uma jovem saber se tem vocação?

2º- Sinais que denotam falta de verdadeira vocação.

Não tem verdadeira vocação, a moça que deseja entrar no convento, impelida por motivos terrenos para ver-se livre dos cuidados da própria subsistência, pata granjear honras e celebridades, para viver uma vida cômoda e agradável. Quem se deixa dominar por semelhantes intenções, não entre para o claustro, que de vocação não se lhe nota aí nenhum traço.

Não tem vocação para o estado religioso a moça que, intelectualmente, não é sadia e, equilibrada pouco talentosa ou de espírito obtuso ou muito propensa para a melancolia. Pessoas néscias ou de escasso entendimento, não são feitas para a vida claustral, porque não têm capacidades para preencher as atividades e as incumbências concernentes à vida que abraçaram, muito menos para compreender os compromissos que assumem com a profissão religiosa.

Almas melancólicas não devem tampouco ingressar no convento; porque os numerosos exercícios  de  piedade,  as  profundas  meditações  e  todo  aquele  sistema  de  vida, favorecem e aumentam nelas o pendor para a tristeza e melancolia. Não terá vocação para o estado religioso uma jovem fraca e doentia. Todos os conventos estabelecem para as suas cândidas a condição de terem boa saúde e principalmente não sofrerem de nenhum  mal  hereditário.  As  Religiosas  deverão,  assumir  grandes  e  importantes responsabilidades de diversas espécies como: de professoras, de enfermeiras e as prescrições impostas pela regra qual seja: durante a noite, cantar o Ofício divino. São encargos que requerem pessoas de saúde perfeita...

Não terá vocação para a vida claustral uma moça obstinada e caprichosa: pois é isto impedimento à perfeita obediência que se deve praticar, no claustro, e à paz que há de reinar entre os membros da Ordem. Será muito difícil, e até quase impossível uma jovem de temperamento forte e arrebatado e de caráter teimoso e obstinado, satisfazer a estas importantes condições, salvo se, a poder de longos e decididos combates contra si mesma, conseguir refrear-se e dominar-se.

Não terá vocação para a vida Religiosa, uma jovem de forte e extraordinária inclinação sensual, ou quiçá de maus costumes já inveterados. Somente depois de rigorosa prova com promissores efeitos na repressão da violenta sensualidade, poderá talvez, pensar em fazer-se freira. Sem isso, temerário seria pretender fazer voto de castidade. Não deve, finalmente,  pensar  em  ingressar  no  estado  religioso  uma  moça  à  qual  incumbe particulares obrigações para com os pais, que é, por exemplo, o único arrimo seguro na sua velhice. Esta particularidade é indício de que não tem vocação para o estado religioso, a não ser que outros sinais o demonstrem.

3º- Características que dão a conhecer a verdadeira vocação.

Se pertenceres ao número daquelas almas eleitas, cuja vocação brota como flor viçosa do coração, poderás entrar de ânimo tranqüilo. Desde a juventude, não conhecem tais jovens outro intento, nem outro ideal. Sentir-se-ão atraídas, irresistivelmente, para esse ideal.  Sentir-se-ão  atraídas,  irresistivelmente,  para  esse  ideal,  e  todos  os  seus sentimentos e esforços tenderão para ele. Chamadas por Deus, devem segui-lO: Deus as fará perfeitas e felizes. Se já desde largos anos possuíres um sério e sincero desejo de perfeição, ou sentires uma inclinação cada vez mais pronunciada de te consagrares por amor de Deus ao serviço dos pobres e doentes, ou à instrução e formação da mocidade, poderás esperar que seja tua vocação verdadeira e que te não iludirás se a seguires generosamente.

Se, apesar de sentires atração para as vaidades e futilidades a despeito da propensão para seguir as máximas do mundo e nele permanecer, Deus, de tempo em tempo, por assim dizer, atravessar o teu caminho contrariando teus planos, desfazendo-os e por sucessos inesperados invadir tua vida, inspirando-te nova tendência para a perfeição e para vida religiosa - então não desprezes o chamado de Deus, antes atende à voz divina, implora Suas luzes, prova-te seriamente e expõe o caso ao teu confessor, ou a algum sacerdote experiente e piedoso. Não reveles os teus segredos a qualquer conselheiro, que só poderá perturbar-te e conduzir-te a uma vereda falsa. Pelos caminhos que te deslindei agora, Deus, de vem em quando, tem levado para o convento certas pessoas que chamava a grande santidade e benfazeja atividade.

Não  te  admires,  porém,  se,  no  tocante  à  vocação  para  o  claustro,  encontrares contrariedades e obstáculos por parte de teus parentes e conhecidos. É o que sucede mui freqüentemente; às vezes, os próprios pais, não obstante pretenderem ser bons católicos, são os primeiros que séria e diuturnamente se opõem à vocação religiosa da filha. 

Sobretudo se a moça tem caráter vivo, insinuam-lhe que não lhe serve o convento, dado o seu gênero alegre e jovial. É provado pela experiência que as candidatas dotadas de espírito expansivo, vencem com a maior facilidade os obstáculos e se tornam as religiosas mais felizes.

Se encontrares, portanto, contradições não te deixes abater nem desanimar; recorre a Deus, com firme esperança e continua a cumprir com filial pontualidade os teus deveres para  com  teus  pais.  Mantém,  porém,  firme  e  perseverante;  supera  tranqüila  e corajosamente, todos os obstáculos que te embaraçam o caminho. Mais tarde, porfia com todo o empenho por seres, deveras, uma santa religiosa.