quinta-feira, 19 de julho de 2012

A perfeita casada (IV) - Frei Luís de León


Pague-lhe com bem, não com mal, 
todos os dias de sua vida. 

(Prov., XXXI, 12)

            Significa que a mulher deve se esforçar, não para causar problemas ao marido e sim para livrá-lo deles e em lhe ser perpétua causa de alegria e descanso. Porque, que vida é a daquele que vê consumir seu patrimônio nos desejos de sua mulher, que seu trabalho é levado todos os dias pelo rio, pelo esgoto, que tomando cada dia novos caminhos, crescendo continuamente suas dívidas, vive vil, escravo, aferrado ao joalheiro e ao mercador?
            Deus, quando quis casar o homem, dando-lhe mulher, disse (Gênesis, 2): "Façamos-lhe um ajudante que seja semelhante", de onde se entende que o ofício natural da mulher, e o fim para o qual Deus a criou, é para que ajude seu marido e não para que seja sua calamidade e desventura: ajudante e não destruidora. Para que o alivie nos trabalhos que acarreta a vida de casado, e não para que acrescente novas cargas. Para repartir entre si os cuidados, tomar sua parte. E finalmente, não as criou Deus para que sejam rochas onde quebrem os maridos e naufraguem os bens e as vidas, e sim portos desejados e seguros onde, chegando em suas casas, repousem e se refaçam das tormentas dos trabalhos pesadíssimos que realizam fora delas.
            Assim como seria lamentável que um mercador, depois de haver padecido navegando grandes fortunas, e depois de haver vencido muitas correntes, navegado por muitos lugares desconhecidos e perigosos, havendo Deus o livrado de tudo, chegando já com sua embarcação inteira e rica, prazeroso e feliz para descansar no porto, quebrasse nele e afundasse; assim é lamentável a miséria dos homens que forcejam todos os dias contra as correntes dos trabalhos e fortunas desta vida, para vadear nelas, e no porto de suas casas perecem; e lhes é a guardiã destruição, e o alívio maior problema, e o sossego ondas de tempestade, e o seguro e o abrigo penhasco áspero e duro.
            Onde vemos que o justo e natural é que cada um seja aquilo mesmo que é; e que a guardiã seja a guardiã, e o descanso, e o porto seguro, e a mulher doce e perpétuo refresco e alegria do coração, e um agrado tênue que continuamente esteja trazendo à mão, o peito de seu marido, apagando os problemas dele; e, como diz Salomão: "Deve lhe pagar com bem e não com mal, todos os dias de sua vida". E diz, não sem mistério, que há de lhe pagar bem, para que se entenda que não é graça e liberalidade isto, e sim justiça e dívida que a mulher deve ao marido e que sua natureza carregou sobre ela, criando-a para este ofício, que é agradar e servir, e alegrar e ajudar nos trabalhos da vida e na conservação dos bens daquele com quem se casa; que como o homem está obrigado ao trabalho de adquirir, assim a mulher tem a obrigação de conservar e guardar; que guarda é como o pagamento e salário devido por aquele serviço; que como ele está obrigado a trazer os pesares de fora, assim ela deve aceitá-lo e espairecê-lo quando chega em casa, não tendo desculpa que a desobrigue.

            A propósito disto é o exemplo de São Basílio(1), e o que diz acerca dele: "A víbora, diz, animal ferocíssimo entre as serpentes, vai diligente se casar com a lampreia marinha; chegando, assobia, avisando que está ali, para deste modo atraí-la para o mar e se abraçar maritalmente com ela. Obedecendo, a lampreia se junta à peçonhenta fera sem medo. Por que digo isso? Porque por mais áspero e piores as condições em que o marido esteja, é necessário que a mulher o suporte, e que não consinta de forma alguma que se divida a paz. Oh! É um verdugo? Mas é teu marido! É um ébrio? Mas o acordo matrimonial fez dos dois um só. É áspero e desagradável? Porém já é parte sua e a parte principal. E para que o marido ouça o que lhe convém também: a víbora então, respeitando a união, afasta sua peçonha; e tu não deixarás a crueza desumana de tua natureza, honrando o matrimônio?" Isto é de Basílio.
            E além disso, Salomão diz que a boa mulher casada paga bem e não mal ao marido, é avisar ao marido que deve ser paga e que deve merecê-lo primeiro, tratando-a honrada e amorosamente; porque mesmo sendo verdade que a natureza e o estado põe obrigação na casada. Como dissemos, de cuidar de sua casa e de alegrar e distrair continuamente seu marido, nenhuma má condição dele a desobriga; mas não por isso devem pensar eles que têm permissão para ser ferozes com elas e fazê-las escravas; antes como em todo o resto o homem é a cabeça, por isso todo esse tratamento amoroso e honroso deve partir do marido; porque há de entender que é sua companheira, ou melhor dizendo, parte de seu corpo e a parte fraca e tenra, e a quem pelo mesmo motivo se deve particular cuidado e zelo. E em São Paulo Jesus Cristo, usa esta mesma razão, dizendo:
            "Vós os maridos, amai vossas mulheres(2) e, como a vaso mais frágil, colocai mais cuidado de vossa parte para honrá-las e tratá-las bem". Porque, assim como a um vaso rico e bem lavrado, se for de vidro, rodeamos de cuidados, e como no corpo vemos que os membros mais propícios de receber danos a natureza dotou de maiores defesas, assim na casa a mulher, como a parte mais fraca, deve receber melhor tratamento. Além do mais o homem que é a cordura e o valor, o mestre, e todo o bom exemplo de sua casa e família, deve tratar sua mulher como quer que ela seja com ele, e ensinar com seu exemplo o que deseja que ela faça, fazendo que, com seus bons modos e seu amor, ela se preocupe em agradá-lo. Que, se ele que tem mais juízo e coração mais esforçado, e sabe condescender em algumas coisas e ter paciência com outras, em tudo, com razão e sem ela, deseja ser impaciente e furioso; por que a fraqueza e o saber e ânimo menores da mulher acaba sendo algo desgraçado e penoso?
            Ainda há nisto outro inconveniente maior: como as mulheres são menos enérgicas, e pouco inclinadas às coisas que são de valor, se não as alentam, quando são maltratadas e não levadas em conta pelos maridos, perdem o ânimo e não conseguem colocar as mãos nem o pensamento em alguma coisa, por melhor que seja. Do mesmo modo que o agricultor sábio, às plantas que olham e se inclinam para o chão, se as deixasse, se estenderiam arrastando-se nele; mas com forquilhas e estacas as apóia endireitando e levantando, para que cresçam em direção ao céu. Do mesmo modo o marido sensato não deve oprimir nem envilecer com más obras e palavras o coração da mulher que é frágil e modesto, mas ao contrário, com amor e com honra há de elevá-la e animá-la, para que sempre conceba pensamentos honrosos. E a mulher, como dissemos acima, foi dada ao homem para alívio de seus trabalhos, e para repouso e doçura e afago, pela mesma razão e natureza pode ser tratada por ele de modo doce e afetuoso porque não se consente que se despreze alguém que lhe dá conforto e descanso, nem que traga guerra perpétua e sangrenta com aquilo que tem o nome e o ofício da paz.
            Ou por que motivo se permite que ela esteja obrigada a lhe pagar serviço e contentamento, e ele se desobrigue de merecê-lo? Pois deva ele e pague porque deve, e mesmo que não deva, pague; porque, se ele não devesse, o que deve a Deus e a seu ofício, põe sobre ela esta dívida de agradar sempre ao seu marido, guardando sua pessoa e sua casa, e não sendo, como já foi dito, cara e gastadora, que é a primeira das duas coisas em que consiste esta guarda.
            E contentando-nos com o que dela escrevemos, passemos agora para a segunda, que é ser prendada ou ativa, o que pertence ao que Salomão acrescenta, dizendo:

Buscou lã e linho e obrou com o saber
de suas mãos.

(1)   – In Hexaem., homil. VIII, De reptilibus.
(2)   – Efésios, V, 25.

Continuará...