sábado, 16 de junho de 2012

A Perfeita Casada por Frei Luís de Leon - Introdução

Tradução feita por Liliana Raquel Chwat
adaptada e complementada por Letícia de Paula
que teve como base edição espanhola de 1945 - La perfecta casada, 
colección "CHRISTUS" N.º 31, Editorial Difusion. S.A



A dona Maria Varela Osório

Introdução

Em que se fala sobre as leis e condições do estado do matrimônio e da estrita obrigação que tem as casadas de conhecê-las e cumpri-las.

            Este novo estado em que Deus a colocou, sujeitando-a as leis do santo matrimônio, apesar de se apresentar como caminho real, mais aberto e menos trabalhoso que outros, não carece contudo de dificuldades e maus passos e é o caminho onde também se tropeça, corre-se perigo, erra-se e que tem necessidade de guia como os demais; porque servir ao marido, governar a família, a criação dos filhos, a conta que junto com isso se deve ao temor de Deus, e a guarda e limpeza da consciência, tudo o que pertence ao estado e ao ofício da mulher que se casa, são obras que requerem cada uma por si mesma muito cuidado e que, todas juntas, sem particular favor do céu, não podem ser cumpridas. Nisso se enganam muitas mulheres que pensam que casar-se não é mais que deixar a casa do pai, passando para a do marido e sair da servidão para a liberdade e a felicidade; e pensam que, tendo um filho de tanto em tanto e jogando-o nos braços de uma ama, são saudáveis e plenas mulheres.
            Já que o seu bom senso e a inclinação a toda virtude, com a qual Deus a dotou, me garante para que não tema que será como algumas dessas que menciono, entretanto, o profundo amor que lhe tenho e o desejo de seu bem que arde em mim, me impelem a lhe fornecer algum aviso, para que busque e acenda alguma luz que, sem engano nem erro, ilumine e endireite seus passos por todos os maus passos desse caminho, por todas as voltas e rodeios que ele há.
            E como costumam os que fizeram uma longa navegação ou os que peregrinaram por lugares estranhos, que a seus amigos, os que querem empreender a mesma navegação e caminho, antes de começá-lo, antes de partir de suas casas, com diligência e cuidado, dizem-lhes detalhadamente os lugares por onde devem passar, das coisas que devem se precaver, informam-nos de tudo aquilo que acreditam que seja necessário, assim eu, nesta jornada que vossa mercê (você) começou, lhe ensinarei, não o que me ensinou a própria experiência passada, porque é alheia a minha profissão, e sim o que aprendi nas Sagradas Letras, que é o ensinamento do Espírito Santo. Nelas como em uma loja comum e como em um mercado público e geral, para o uso e proveito de todos os homens, põe a piedade e sabedoria divina copiosamente tudo aquilo que é necessário e convém a cada estado; e marcadamente neste das casadas se revê e desce tanto ao particular que chega até, entrando por suas casas, a colocar a agulha em suas mãos, preparar a roca e mover o fuso entre os dedos. Por que na verdade, mesmo que o estado do matrimônio em grau e perfeição seja menor que o dos castos ou virgens, porém, pela necessidade que há dele no mundo para que se conservem os homens, para que saiam deles os que nascem para ser filhos de Deus e para honrar a terra e alegrar o céu com glória, foi sempre muito honrado e privilegiado pelo Espírito Santo nas Letras Sagradas; porque delas sabemos que este estado é o primeiro e mais antigo de todos os estados, e sabemos que é o lar, não inventada depois que nossa natureza se corrompeu pelo pecado e foi condenada à morte, e sim ordenada logo no início, quando os homens eram íntegros e bem-aventuradamente perfeitos no paraíso.
            Elas mesmas nos ensinam que Deus por Si mesmo promoveu o primeiro casamento que existiu, e que lhes juntou as mãos aos primeiros casados, os abençoou e foi justamente, por assim dizer, o casamenteiro e o sacerdote. Ali vemos que a primeira verdade que nelas se escreve é que Deus disse para nos ensinar e a primeira doutrina que saiu de Sua boca foi a aprovação, dizendo:

            "Não é bom que o homem esteja só" (Gênesis, 2).

            E não só nos livros do Antigo Testamento, onde ser estéril era maldição, mas também nos do Novo, nos quais se aconselha e apregoa geralmente como ao som de trombetas, a continência e a virgindade; ao matrimônio são feitos novos favores. Cristo, nosso Senhor, sendo Ele a flor da virgindade e máximo amante da virgindade e limpeza, é convidado para algumas bodas, se encontra presente nelas, come nelas e as santifica, não somente com a majestade de Sua presença, mas também com um de Seus primeiros e marcantes milagres (Joan., II, 11). Ele mesmo, tendo-se enfraquecido a lei conjugal e se afrouxado de certo modo o estreito nó do matrimônio, havendo os homens deixado entrar muitas coisas alheias à limpeza, firmeza e unidade que se lhe deve; assim pois, acontecendo que um homem tomara uma mulher quase que só para receber uma moça de serviço, paga pelo tempo que quisesse, o próprio Cristo, entre as principais partes de Sua doutrina e entre as coisas para cuja solução havia sido enviado por Seu Pai, reparou também este vínculo santo, restituindo-lhe assim o primeiro grau (Math., XIX, 3-9).
            E, sobretudo, fez do casamento que tratam os homens entre si, significado e sacramento santíssimo do laço de amor com que Ele se une às almas e quis que a lei matrimonial do homem com a mulher fosse como retrato e imagem viva da unidade dulcíssima e tão estreita que há entre Ele e Sua Igreja (Efés. V, 24); e assim enobreceu o matrimônio com riquíssimos dons de Sua graça e de outros bens do céu. Do mesmo modo que o estado dos casados é estado nobre e santo, muito apreciado por Deus; eles são avisados muito em particular e detalhadamente o que lhes convém, nas Sagradas Letras pelo Espírito Santo; o qual, por Sua infinita bondade, não deixa de colocar os olhos em nossas baixezas, nem tem por vil ou pequena nenhuma das coisas que nos fazem bem.
            Pois, entre os muitos lugares dos divinos Livros que tratam disso, o lugar mais próprio e onde está recapitulado tudo ou a maior parte que se refere a isto em particular, é o último capítulo dos Provérbios, onde Deus, pela boca de Salomão, rei e Seu profeta, e como a pessoa de uma mulher, mãe do mesmo Salomão, cujas palavras ele põe e refere com grande beleza de razões pintando uma virtuosa mulher casada, com todas as suas cores e partes; para que, as que pretendem sê-lo, e devem pretendê-lo todas as que se casam, se espelhem nela, como em um espelho claríssimo, e saibam, olhando-se ali, tudo que lhes convém para fazer o que devem.
            Assim, conforme costumam fazer os que entendem de pintura e mostram algumas imagens de excelente qualidade aos que não entendem tanto de arte, mostrando o que está longe e o que está pintado como próximo, realçam as luzes e as sombras, a força da perspectiva, e com a destreza das palavras fazem com que o que na tela parecia estar morto, viva e quase se mova frente aos olhos dos que a contemplam; nem mais nem menos, meu ofício, nisto que escrevo, será apresentar a vossa mercê esta imagem que já disse, lavrada por Deus, colocá-la diante de sua vista, lhe assinalar com as palavras, como com o dedo, suas belíssimas figuras com todas suas perfeições; fazer com que veja claramente o que com grande artifício o saber e a mão de Deus colocou nela encoberto.
            Porém, antes disso, que é declarar as leis e condições que tem sobre si a casada, será bom que vossa mercê entenda a estreita obrigação que tem em empregar no cumprimento delas, aplicando-se em todas elas com ardente desejo. Porque como em qualquer outro negócio ou ofício que se pretende, para se sair bem, são necessárias duas coisas: uma, saber o que é e as condições que tem e aquilo em que principalmente consiste; e a outra, ter verdadeira afeição; assim, nisso que vamos tratando, primeiro falemos do entendimento e descubramos o que este ofício é com todas suas qualidades e partes; convém que inclinemos a vontade para saber amá-las e, depois de sabidas, se deseje aplicá-las. Em qual não penso gastar muitas palavras nisso, nem com vossa mercê, já que é naturalmente inclinada ao bem, porque ao que teme a Deus, para que deseje e procure satisfazer seu estado, basta-lhe saber que Deus o manda, e que o próprio e particular que pede a cada um é que responda as obrigações de seu ofício, cumprindo com a sorte que lhe coube e que se nisto falta, mesmo que em outros pontos avance e cumpra, O ofende, porque como na guerra o soldado que abandona seu posto não cumpre com seu capitão, mesmo que em outras coisas lhe sirva, como na comédia vaiam os espectadores o mau ator, mesmo que na vida real seja bom, assim os homens que se descuidam de seus ofícios, mesmo que tenham outras virtudes, não agradam a Deus.
            Teria vossa mercê um cozinheiro e pagaria o seu salário, se ele não soubesse usar uma panela, mas tocasse bem discante? (espécie de instrumento de corda pequeno). Assim também Deus não quer em Sua casa aquele que não exerce o ofício em que Ele o coloca. Cristo diz no Evangelho que “cada um pegue a sua cruz” (Luc., XIV, 27); não diz que pegue a alheia, mas manda que cada um carregue a sua própria. Não quer que a religiosa se esqueça do que é ser religiosa e carregue os cuidados da mulher casada; nem que a mulher casada se esqueça do ofício de sua casa e se torne freira.
            O homem casado agrada a Deus sendo um bom homem casado e sendo um bom religioso o frei, o comerciante fazendo devidamente seu trabalho, e mesmo o soldado serve a Deus mostrando em tempos devidos, seu esforço e contentando-se com seu soldo, como diz São João (Luc., III, 14). E a cruz que cada um há de levar e por onde há de chegar para se juntar a Cristo, propriamente é a obrigação e a carga que cada um tem em razão do estado em que vive; e quem cumpre com ele, cumpre com Deus e com sua tentativa, fica honrado e ilustre, e pelo trabalho da cruz, alcança o descanso que merece. Mas pelo contrário, quem não cumpre com isso, mesmo que trabalhe muito cumprindo os ofícios que toma por sua vontade, perde o trabalho e as graças.
            Mas a cegueira dos homens é tão miserável e tão grande, que, não havendo dúvida desta verdade, como se fosse ao contrário, e como se nos fosse vedado satisfazer nossos ofícios e ser aqueles que professamos ser; assim temos inimizade com eles e fugimos deles, e colocamos todos os esforços de nossa indústria e cuidado ao fazer o alheio. Porque verá vossa mercê algumas pessoas religiosas de profissão que, como se fossem casadas, governam a casa de seus parentes ou de outras pessoas que por sua vontade tomaram a seu cargo e que se recebe ou se despede o criado, há de ser por suas mãos; e pelo contrário, entre as casadas há outras que, como se suas casas fossem das vizinhas, não cuidam delas e dedicam a vida ao oratório e ao devocionário, e a esquentar o chão da igreja de manhã e de tarde, e se perde, entretanto a moça e cobra mal as reivindicações à filha, e a fazenda se afunda, tornando-se um demônio o marido.
            E se o seguir o que não custasse menos trabalho do que cumprir com aquilo que devem ser, teriam alguma desculpa, ou se, havendo se esforçado muito naquilo que escolheram por vontade própria, o fizessem perfeitamente, seria um consolo de alguma maneira; porém é ao contrário, que nem o religioso, mesmo que trabalhe muito governará como se deve a vida do homem casado, nem jamais o casado chegará àquilo que é ser religioso; porque assim como a vida do monastério e as leis e observâncias e todo o tratamento e assento da vida monástica favorecem a vida do religioso, para cujo fim tudo isso se ordena, assim ao que, sendo frade, se esquece do frade e se ocupa do que é ser casado, isso se toma um estorvo e embaraço muito grave. E como suas tentativas e pensamentos e seu alvo, não são o monastério, assim tropeça e ofende em tudo o que é monastério, na portaria, no claustro, no coro e silêncio, na aspereza e humildade da vida; pelo que lhe convém ou desistir de sua louca persistência ou romper por meio de uma porção de duras dificuldades e subir, como dizem, a água por uma torre. Da mesma maneira, o estilo de viver da mulher casada, como a convida e alenta a se ocupar de sua casa, assim por mil partes a retrai do que é ser freira ou religiosa; e assim uns e outros, por não querer fazer o que propriamente lhes toca e por querer fazer aquilo que não lhes convém, faltam ao que devem e não alcançam o que pretendem, e trabalham incomparavelmente mais do que o fariam trabalhando perfeitamente cada um em seu ofício, ficando seu trabalho sem fruto e sem luz. E como na natureza os monstros que nascem com partes e membros de animais diferentes não se conservam nem vivem, assim esta monstruosidade de diferentes estados em um composto, um na profissão, e outro nas obras, os que a seguem não têm sucesso em suas tentativas; e como a natureza tem aversão aos monstros, assim Deus foge deles e os abomina. E por isso dizia a Lei antiga, que nem no campo se pusessem sementes diferentes, nem na tela fosse a trama de um e estame do outro (Lev., XIX, 19), ou menos se oferecesse em sacrifício o animal que habitasse a água e a terra (Deut., XIV, 19).
            Pois assente vossa mercê em seu coração, com íntegra firmeza, que ser amiga de Deus é ser uma boa (mulher) casada e que o bem de sua alma está em ser perfeita em seu estado e que o trabalhar nele e o desvelar é oferecer a Deus um sacrifício aceitíssimo de si mesma. E não digo eu, nem me passa pelo pensamento, que o casado, ou alguém, devem carecer de oração, e sim falo da diferença que deve haver entre a boa religiosa e a mulher casada; porque naquela o orar é todo seu ofício; nesta há de ser meio para que melhor cumpra seu ofício. Aquela não quis marido, negou o mundo e despediu-se de todos, para conversar sempre e desembaraçadamente com Cristo; esta há de tratar com Cristo para alcançar dEle graça e favor para que acerte criar o filho,  governar bem a casa e servir como se deve ao marido. Aquela há de viver para orar continuamente; esta há de orar para viver como deve. Aquela agrada a Deus entregando-se a Ele; esta Lhe há de servir trabalhando no governo de sua casa por Ele.
            Mas considere vossa mercê como reluz aqui a grandeza da divina bondade, que se tem por servido de nós com aquilo mesmo que é para nosso proveito. Porque em verdade, quando não houvesse outra coisa que inclinasse a mulher casada a cumprir com seu dever, a paz e o sossego e o grande bem que desta vida tiram e o interesse de ser boa, somente isso já bastava; porque é sabido que, quando a mulher assiste a seu ofício, o marido a ama, e a família está em harmonia, os filhos aprendem a virtude, a paz reina e a fazenda cresce. E como a lua cheia, nas noites serenas, se regozija rodeada e como que acompanhada de claríssimas luzes, as quais todas parece que avivam suas luzes nela e admiram-na e reverenciam-na; assim a boa mulher casada em sua casa reina e resplandece, e converte para si os olhos e os corações de todos.
            O descanso e a segurança acompanham-na aonde quer que vá seus passos, e para qualquer coisa que olhe encontra a alegria e a satisfação porque, se colocar os olhos no marido, descansa em seu amor; se os voltar para os filhos, regozija-se com suas virtudes; encontra nos criados bom e fiel serviço, e na fazenda proveito e crescimento, tudo lhe é alegre e prazeroso, como ao contrário, a que é má caseira (dona de casa) tudo se converte em amarguras, como se pode ver com infinitos exemplos. Porém não quero me deter em coisa, por nossos pecados, tão clara, nem quero tirar vossa mercê de seu próprio lugar.
            Volva os olhos por seus vizinhos e conhecidos e revire em sua memória o que ouviu em outras casas. De quantas mulheres sabe que, por não levar em conta seu estado e levá-lo pelos seus desejos próprios, estão com os maridos em perpétua luta e desgraça? Quantas já se viram lastimadas e enfeadas com os desconcertos de seus filhos e filhas, a quem não quiseram levar em conta? Quantas padecem em extrema pobreza porque não atenderam a guarda de suas fazendas ou, melhor dizendo, porque foram a perdição e a ruína delas. Assim, pois, não há coisa mais rica nem mais feliz que a boa mulher, nem pior nem mais desastrada que a mulher casada que não o é. Uma e outra coisa nos ensina a Sagrada Escritura, da boa, diz assim: "O marido da mulher boa é ditoso e viverá o dobro de dias, e a mulher de valor põe em seu marido descanso e cessará os anos de sua vida com paz. A mulher boa representa boa sorte, e como prêmio dos que temem a Deus, dar-lhe-á Deus ao homem pelas suas boas obras” (Ecli., 26). O bem da mulher diligente deleitará seu marido e encherá de gordura seus ossos. Grande dom de Deus é o seu bom trato bem sobre bem e beleza sobre beleza é uma mulher que é santa e honesta. Como o sol que nasce parece nas alturas do céu, assim o rosto da boa mulher adorna e embeleza sua casa.
            E da má diz o contrário: "A ciumenta é dor no coração e pranto contínuo” (Ibid., 8), “e tratar com a má é tratar com escorpiões” (Ibid., 10). “A mulher que promove a discórdia é como uma casa com goteiras” (Provérbios XIX, 13) “e o que perturba a vida é se casar com uma mulher repugnante” (Ibid., XXX, 23). “A tristeza do coração é a maior ferida, e a maldade da mulher representa todas as maldades. Toda chaga, e não chaga do coração; todo mal e não mal de mulher” (Eccli., XXV, 17,18,19). “Não há cabeça pior que a cabeça da víbora, nem ira que iguale à da mulher enraivada. Viver com leões e com dragões é mais fácil que conviver com uma mulher malvada” (Ibid., 22,23). “Todo mal é pequeno em comparação com a mulher má; que aos pecadores caiba tal sorte. Tal como a subida arenosa para os pés anciãos, assim é para o modesto a mulher tagarela” (Ibid., 26,27). Tristeza de coração e chaga mortal é a mulher má. A mulher que não dá felicidade ao marido é como o corte das pernas e decaimento das mãos. A mulher deu início ao pecado, e por sua causa morremos todos (Ibid., 31, 32,33), e da mesma forma muitas outras razões.
            E acontece nisto uma coisa maravilhosa, que, sendo de sua colheita as mulheres pessoas de grande dignidade e desejosas de ser apreciadas e honradas, como o são todos os de ânimo fraco, e gostando de vencer em si umas as outras, mesmo em coisas pequenas e ninharias, não prezam, antes se descuidam e se esquecem, do que é sua própria virtude e louvor. Uma mulher gosta de parecer mais formosa que a outra, e se sua vizinha tem uma saia melhor ou se por ventura tem um melhor penteado, coloca-se sem paciência; e em ser dona de casa a põe em vantagem, não se aflige nem se dói, antes faz questão da honra sobre qualquer miudeza e só a isto estima.
            Tanto é assim que ser vencida naquilo não a magoa, e não vencer nisto a destrói, uma vez que aquilo não é culpa, e isto destrói todo o seu bem e de sua casa; sendo assim, o louvor que por aquilo se alcança é ligeiro e vão louvor, e louvor que antes de nascer já perece, e tal, que se falamos com verdade, nem merece ser chamado de louvor; pelo contrário, o elogio que tem verdadeiras raízes e que floresce pela boca dos bons juízos, que não se acaba com a idade, nem se gasta com o tempo, antes cresce com os anos e a velhice o renova, e o tempo o reforça, a eternidade se espelha nele, tornando-o sempre mais viva e mais fresca por mil viradas de séculos. Porque a boa mulher é reverenciada pela sua família, amada por seus filhos e adorada pelo marido; os vizinhos a bendizem, e os presentes e os vindouros a elogiam e exaltam.
            Na verdade, se há debaixo da lua uma coisa que mereça ser estimada e prezada, é a boa mulher e, em comparação com ela o próprio sol não brilha e são escuras as estrelas; eu não conheço jóia de valor nem de louvor que assim levante e embeleze com claridade e esplendor aos homens, como é aquele tesouro de imortais bens de honestidade, de doçura, de fé, de verdade, de amor, de piedade e entrega, de regozijo e de paz, que encerra e contém em si uma boa mulher quando lhe é dada como companheira para sua boa sorte.
            Se Eurípides (Em Hécuba), escritor sábio, parece que em geral fala mal de todas, diz que se alguém do passado falou mal delas (boas mulheres), e dos presentes o diz, ou se o disserem os que vierem depois, tudo o que disseram, dizem e dirão, ele só quer dizer e diz; assim pois, se isso diz, não o diz em sua pessoa, e quem o diz tem a justa desculpa de haver sido Medeia* o motivo para que o dissesse, mas, já que chegamos aqui, é razoável que calem minhas palavras, e comecem a soar as do Espírito Santo, o qual, na doutrina das boas mulheres que traz no livro dos Provérbios (Provérbios XXXI) e eu ofereço agora aqui à vossa mercê, começa com os mesmos louvores que acabei de dizer e diz em poucas razões o que nenhuma língua poderia dizer em muitas; e diz desta maneira:

Mulher de valor quem a encontrará? Raro e extremado é seu preço
(Prov., 31-10)

[N.T. Na mitologia grega, Medeia (em grego Μήδεια) era filha do rei Eetes, da Cólquida (atualmente, a Geórgia), sobrinha de Circe -- aparecendo, ainda, como filha de Circe e Hermes ou como irmã de Circe e filha de Hécata -- e que foi, por algum tempo, esposa de Jasão. É uma das personagens mais terrivelmente fascinantes desta mitologia, ao envolver sentimentos contraditórios e profundamente cruéis, que inspiraram muitos artistas ao longo da história]

P.S: Continuará...
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