segunda-feira, 25 de junho de 2012

A PERFEITA CASADA III

Tradução: Liliane Raquel Chwat com complementação de Letícia de Paula conforme a edição de 1945 La perfecta casada - Fray Luis de Leon.




Que confiança há de gerar no peito de seu marido, e de como pertence ao ofício da mulher casada a guarda da fazenda, que consiste em não ser gastadora.

Confia nela o coração de seu marido;
não lhe farão falta os despojos.
(Prov., XXXI, 11)

            Depois de haver proposto o sujeito de sua razão e de havermos nos aficionado a ele, louvando-o, começa a especificar as boas partes dele e aquilo de que se compõe e aperfeiçoa, para que, colocando as mulheres os pés nestas pegadas, e seguindo estes passos, cheguem ao que é a perfeita mulher casada. E porque a perfeição do homem, em qualquer estado, consiste principalmente em obrar bem; por isso o Espírito Santo não coloca aqui por partes esta perfeição da qual fala mas somente as obras louváveis às quais está obrigada a mulher casada que pretende ser boa. E a primeira é que deve gerar no coração de seu marido uma grande confiança; mas deve-se saber qual é esta confiança da qual se fala; porque pensarão alguns que é a confiança que deve ter o marido de sua mulher que é honesta e mesmo que seja verdade que com sua bondade a mulher há de alcançar de seu marido esta boa opinião, porém, no meu parecer o Espírito Santo não trata aqui disto, e a razão de não tratar é justíssima.
            Primeiro, porque sua intenção é compor aqui uma mulher casada perfeita e ser uma mulher honesta não conta nem deve contar entre as partes das quais esta perfeição se compõe, e sim, antes, é como o sujeito sobre o qual todo este edifício se apóia; para dizê-la em uma palavra, é como o ser e a substância da mulher casada; porque se não possui isso, não é mulher e sim traiçoeira rameira e o pior lodo, o lixo mais hediondo de todos e a mais desprezada. E como no homem, ser dotado de entendimento e razão não é louvor nenhum, porque tê-la é parte de sua própria natureza, mas se lhe faltasse colocaria nele uma enorme lacuna, assim a mulher não é tão louvável por ser honesta, como é torpe e abominável se não o for. De modo que o Espírito Santo neste lugar não diz à mulher que seja honesta, mas pressupõe que já o seja, e, à que é assim, ensina o que falta e o que deve acrescentar para ser completa e perfeita. Porque, como dissemos acima tudo isso a que nos referimos é como fazer um retrato ou pintura, onde o pintor não faz a tela, e sim na tela que lhe oferecem e dão, coloca ele os perfis e induz depois as cores, elevando nos devidos lugares as luzes, e baixando as sombras onde convém, dando a devida perfeição à sua figura. E do mesmo modo, Deus, na honestidade da mulher, que é como uma tela, a qual pressupõe como feita e direita, acrescenta ricas cores de virtude, todas aquelas que são necessárias para acabar tão belíssima pintura. Isto é o primeiro.
            O segundo, se não fala aqui Deus do que toca esta fé, é porque deseja que esta coisa de honestidade e limpeza a tenham as mulheres tão cravada em seu peito, que nem sequer pensem que possa ser o contrário. E como dizem de Sólon, que foi quem deu leis aos atenienses, que, assinalando para cada malefício suas penas, não impôs castigo para quem matasse o próprio pai, nem fez menção deste delito, porque disse que não convinha que achassem nem possível  os homens, nem como antecedente, um mal semelhante; assim pela mesma razão não trata Deus que a mulher casada seja honesta e fiel porque não deseja que passe pela sua imaginação que é possível ser má. Na verdade é desonestidade para a mulher casta pensar que pode não sê-la, ou que ao sê-la faz algo que deva ser elogiada. Que, como é da natureza das aves voar, assim as mulheres casadas devem ter por dote natural, que não se pode romper, bondade e honestidade, e devem estar persuadidas que o contrário é aborrecível, desventurado e fato monstruoso, ou melhor, não devem imaginar que pode acontecer o contrário como não pode ser o fogo frio e a neve quente. Entendendo que quebrar a mulher a fé de seu marido é perderem as estrelas sua luz, caírem os céus, quebrar suas leis a natureza e retomar tudo àquela confusão antiga e primeira.
            Também não há de ser isso, como algumas pensam que, ao guardar o corpo íntegro para o marido, no que se refere a conversas, outros gestos e coisinhas miúdas, pensem que estão livres; porque não é honesta aquela que não o é, mas parece. E quando está longe do mal, tanto da imagem ou semelhança, deve permanecer afastada; porque, como bem disse um poeta latino, ela somente é casta quando nem a fama mentindo ousa colocar uma má nota. E, assim como, ao que faz o caminho de Santiago, mesmo que lá não chegue, o chamamos de romeiro; assim sem dúvida é iniciada rameira a que se permite tratar destas coisas que são o caminho.
            Se não for isso, de qual confiança Deus fala neste lugar? No que diz a seguir se entende, porque acrescenta: "Não lhe farão falta os despojos". Chama de despojos o que nós chamamos de jóias e adereços da casa, como alguns entendem, ou, como acho mais certo, chama de despojos aos lucros adquiridos por meio de mercadorias. Há de se entender que os homens obtêm ganhos e se sustentam e vivem, ou de lavrar o campo, ou do trato e contratação com outros homens.
            A primeira forma de ganho é lucro inocente e santo lucro, porque é puramente natural, porque com ele o homem come de seu trabalho, sem que prejudique nem injurie, nem despreze ninguém, como também porque, do mesmo modo que para as mães é natural sustentar com leite as crianças que gera, e mesmo a elas, guiadas por sua inclinação, também lhes é natural acudir logo aos peitos; assim nossa natureza nos leva e inclina a retirar da terra, que é mãe e geradora nossa, o que convém para nosso sustento.
            O outro lucro e modo de adquirir, que tira frutos e se enriquece das fazendas alheias, ou com a vontade de seus donos, como fazem os mercadores e os mestres e artífices de outros ofícios, que vendem suas obras, ou por força e sem vontade como acontece na guerra, é lucro pouco natural e que na maioria das vezes intervém alguma parte de injustiça e de força, e ordinariamente dão com desgosto e sem vontade aquilo que dão as pessoas com quem se ganha. Por esse motivo, tudo o que deste modo se ganha é aqui chamado de despojos, por conveniente razão. Porque, aquilo que enche a casa do mercador, deixa vazio e despojado ao outro que o contrata. E mesmo que não seja mediante a guerra, porém como na guerra, nem sempre é muito justo. Pois diz agora o Espírito Santo que a primeira parte e a primeira obra onde a mulher casada se aperfeiçoa é fazendo com que seu marido esteja confiante e seguro que, tendo-a, não tem a necessidade de se fazer ao mar, nem de ir à guerra, nem de dar seu dinheiro, para ter sua casa abastada e rica; nem de se enredar em tratos vis e injustos, mas lavrando ele suas propriedades, colhendo seus frutos e tendo a ela como guardiã e beneficiária do que é colhido, tem bastante riqueza.
            E que pertença ao ofício da mulher casada, e que sejam parte de sua perfeição estas tarefas, além do que o Espírito Santo ensina, também o demonstra a razão. Porque é certo que a natureza ordenou que os homens casassem, não só a fim de perpetuar nos filhos a linhagem e nome deles, mas também para que eles mesmos em si e em suas pessoas se conservassem, o qual não lhes era possível, nem ao homem só, nem à mulher sem o homem; porque para viver não é suficiente ganhar fazendo, se o que se ganha não se guarda; se o que se adquire se perde, é como se não se adquirisse.
            O homem que tem forças para trabalhar a terra e o campo, para sair pelo mundo e contratar com os homens, negociando seus bens, não pode cuidar de sua casa nem tem condições; em compensação, a mulher que, por ser de natureza fraca e fria, é inclinada ao sossego e à escassez, sendo boa para guardar pelo mesmo motivo que não é boa para o esforço e o trabalho de adquirir. E assim, a natureza, em tudo precavida, os juntou, para que prestando cada um deles ao outro sua condição, se conservassem juntos os que não pudessem ficar afastados. E, de inclinações tão diferentes, com arte maravilhosa, e como se faz na música com diversas cordas, fez uma proveitosa e doce harmonia, para que quando o marido estivesse no campo a mulher cuidasse da casa e conservasse um o que o outro colhesse.
            Por esse motivo diz bem um poeta que os fundamentos da casa são a mulher e o boi; o boi para arar, e a mulher para guardar. A sua própria natureza faz com que seja da mulher este ofício, e a obriga a esta virtude e parte de sua perfeição, como a parte principal e de importância. Isso se conhece pelos bons e muitos efeitos que produz; dos quais, um é o que coloca aqui Salomão, quando diz que confia nela o coração de seu marido, e não lhe farão falta os despojos. Quer dizer, que com ela se contenta com a terra que herdou de seus pais, com a plantação e os frutos dela, e que nem se endivida, nem se envolve com o perigo e desassossego de outras paragens e, para onde quer que olhe, é muito grande seu bem. Se falamos de consciência, viver alguém de seu patrimônio é vida inocente e sem pecado e os demais tratos maravilhosamente carecem dele. Se no sossego, um descansa em sua casa, o outro passa a maior parte da vida em tabernas e nos caminhos. A riqueza do primeiro não ofende ninguém, a do outro é murmurada e desprezada por todos.
            Um come da terra, que jamais se cansa nem deixa de comunicar-nos seus bens; o outro é detestado pelos mesmos que o enriquecem. Se olharmos para a honra, certamente não há coisa mais vil nem mais indigna no homem que enganar e mentir, e dificilmente o trato destes carece de enganos. O que dizer da instituição dos filhos, da ordem da família e da boa disposição do corpo e do ânimo, senão que vai tudo pelo mesmo caminho? E sabido que quem anda ausente de sua casa encontra nela muitos desconcertos, que nascem e crescem e criam forças com a ausência do dono; forçoso é que quem trata desenganar, seja enganado, e quem contrata e se comunica com pessoas imaginosas e de costumes diversos, adquire muitos maus costumes. Mas, pelo contrário, a vida no campo, cuidar de suas terras é como uma escola de inocência e verdade; porque cada um aprende daqueles com quem negocia e conversa. Como a terra, naquilo que se lhe pede é fiel, como não muda sendo estável e clara, e aberta para brotar e tirar luz de suas riquezas, parece que gera e imprime no peito de quem a lavra uma bondade particular e uma condição simples e um trato verdadeiro e fiel, pleno de integridade, de bons e antigos costumes dificilmente encontrados em outro tipo de homens. Além de criá-los saudáveis, valentes, alegres e dispostos para qualquer linhagem do bem. E a raiz de todos estes proveitos, onde nascem e se sustentam, é o cuidado e empenho da mulher da qual falamos.
            Mas este cuidado consiste em duas coisas: em que não seja custoso e que seja ativo.
            Especificamos cada uma. Não deve desperdiçar nem ser gastadora a perfeita mulher casada, porque não tem motivo para sê-la; já que todas as despesas que fazemos são para prover ou as necessidades ou o deleite; para remediar as faltas naturais com as quais nascemos: de fome, nudez ou para abastecer os particulares desejos e sabores que fazemos por vício. Nas mulheres, por um lado a natureza colocou uma grande taxa e por outro as obrigou a que elas mesmas se a pusessem. Em verdade; se olharmos naturalmente para as faltas e necessidades das mulheres, veremos que são muito menores que as dos homens; porque é pouco o que precisam por ter menos calor natural, sendo muito feio que comam muito e sejam gulosas. E nem mais nem menos quanto toca ao vestir, a natureza as fez por uma parte ociosas para que estragassem pouco [as vestimentas], e por outra parte asseadas, para que o pouco realçasse muito.E as que pensam que a postura e os vestidos as tornarão belas, vivem muito enganadas porque quem é, é e quem não é, de nenhuma maneira será nem parecerá e quanto mais se enfeita mais feia fica. De modo que a boa mulher casada, de quem estamos tratando, seja ela feia ou belíssima, não há de querer parecer outra coisa do que é. Assim, quanto ao necessário, a natureza livrou a mulher de muitos custos e, com relação aos deleites e desejos, estão amarradas a estreitas obrigações, para que não sejam dispendiosas. E uma delas é o recolhimento, modéstia e índole que devem à sua natureza; apesar da desordem e o deixar correr solto o desejo vão e não necessário, ser vituperável em todo tipo de pessoa, nas mulheres, que nasceram para sujeição e humildade, é muito mais vicioso e vituperável. Sendo assim, não sei como acontece que, quanto são mais obrigadas a ter esse freio, tanto quando o quebram, se desenfreiam mais que os homens e passam muito mais da medida e não tem fim seu apetite.
            E assim, seja esta a segunda causa que as obriga a ser muito contidas nas despesas de seus desejos, porque, se começam a se desatinar, se desatinam sem limite e são como um poço sem fundo; nada é suficiente e são como uma chama encoberta que se alastra sem sentir pela casa e pela propriedade, até consumir tudo. Porque não é despesa de um dia, mas de cada dia; nem gasto que se faz uma vez na vida, mas que dura por toda ela; nem são, como se costuma dizer uns poucos, e sim muitos e muitos. Porque se for gulosa, a vida é o almoço e a merenda, a horta e a comadre, o dia bom; e se pensam em galas, a coisa passa de paixão e chega a incrível desatino e loucura, porque hoje é um vestido, amanhã outro e cada festa um diferente; e o que hoje fazem, amanhã desfazem, e tudo o que vêem, desejam.
            E vai mais além o furor, porque se tomam mestras e inventoras de novas invenções e trajes, fazem questão de mostrar o que nunca foi visto. Como todos os mestres gostam de ter discípulos que os imitem, elas são tão perdidas que, vendo em outras suas invenções, as detestam e estudam e perdem o sono para fazer outras. E cresce mais seu frenesi, já não lhe agradando o belo, mas o caro; os panos devem ser não sei de onde, e os melhores brocados, o âmbar que banhe as luvas, até os sapatos devem reluzir em ouro também, assim como o toucado e as mantilhas que devem estar muito bordadas; e tudo novo e recente, feito ontem para ser usado hoje e desprezado amanhã. E como cavalos desbocados, quando tomam o freio, quanto mais correm, mais querem correr; como a pedra que cai do alto que quanto mais desce mais se apressa, assim a sede delas cresce; um grande desatino e excesso que fazem é princípio de outro maior, e, quanto mais gastam, mais querem gastar.
            Há ainda nisso outro dano muito grande, que os homens, se forem gastadores, a maioria das vezes o são em coisas, que mesmo não necessárias, são porém duradouras ou honrosas, ou têm alguma parte de utilidade e proveito, como os que edificam suntuosamente e os que sustentam grande família ou como os que gostam de ter muitos cavalos; mas a despesa da mulher e toda fútil; a despesa é muito grande e aquilo no qual gasta, nem se nem aparece. Em babados e luvas, calçolas, pedras, vidros e outras coisinhas da loja, que nem podem ser olhadas sem nojo ou movidas sem fedor. E muitas vezes não gasta tanto um letrado com seus livros, como uma ama para clarear seus cabelos. Deus nos livre de tão grande perdição. E não quero colocar nelas toda a culpa, já que não sou tão injusto; parte grande disto nasce da pouca paciência de seus maridos. Não vamos falar deles por compaixão; porque, se são culpados, pagam muito caro por isso. Que não seja a perfeita mulher casada custosa, nem se empenhe gastar mais que a vizinha, mas que tenha a sua casa mais abastada que ela e mais reparada, e faça com seu asseio e cuidado que o vestido antigo fique como se fosse novo; com a limpeza, qualquer coisa que vestir fique bem. Porque gastar é contrário ao ofício da mulher, e demais para sua necessidade; para os desejos, vicioso e muito torpe e problema infinito que assola as casas e empobrece os moradores; prendendo-os em mil arapucas os abate e os degrada de diferentes maneiras. Com esse mesmo propósito é e pertence o seguinte:

Pague-lhe com bem e não com mal,
todos os dias de sua vida.
(Prov., XXI, 31-12)
 P.S: Continuará...
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