terça-feira, 19 de junho de 2012

A PERFEITA CASADA II

Tradução: Liliane Raquel Chwat com complementação de Letícia de Paula conforme a edição de 1945 La perfecta casada - Fray Luis de Leon



Algumas advertências do autor para começar a tratar da matéria

            Mulher de valor, quem a encontrará?
            Raro e extremado é seu preço
(Prov., XXXI, 10)

            Antes de começar, nos convém pressupor que, neste capítulo, o Espírito Santo em verdade pinta uma boa mulher casada, declarando as obrigações que tem; também diz e significa, como encobre, debaixo desta pintura, coisas maiores e do mais alto sentido, que pertencem a toda a Igreja. Porque se há de entender que a Sagrada Escritura, que é a voz de Deus, é como uma imagem da condição e natureza de Deus; e assim como a divindade é juntamente uma única perfeição e muitas perfeições diversas, uma em simplicidade e muitas em valor e eminência, assim a Santa Escritura com as mesmas palavras diz muitas e diferentes coisas, e, como ensinam os santos, na simplicidade de uma mesma sentença se encerra uma grande gestação de sentidos.
            E como em Deus tudo o que há é bom, assim em Sua Escritura todos os sentidos que colocou nela o Espírito Santo são verdadeiros. De modo que seguir um sentido não é desprezar o outro, e menos ainda aquele que nestas Sagradas Letras, entre muitos e verdadeiros entendimentos que contém, descobre um entre eles e o declara e nem por isso deve se pensar que despreza os outros entendimentos. Pois digo que neste capítulo, Deus, pela boca de Salomão, com as mesmas palavras faz duas coisas: a primeira, instrui e ordena os costumes; a outra, profetiza mistérios secretos. Os costumes que ordena são da mulher casada; os mistérios que profetiza são inteligência, e as condições que haveria de colocar em Sua Igreja, de quem fala como se fosse a figura de uma mulher de Sua casa. Neste último, dá luz no que se há de crer; no primeiro, ensina como se há de obrar. E porque somente este é o nosso propósito, falaremos somente dele aqui e procuraremos, dentro do possível, extrair e colocar diante dos olhos tudo o que há nesta imagem de virtude que pinta Deus aqui. Diz, pois:

            Mulher de valor, quem a encontrará?
            Raro e extremado é seu preço.

O que é necessário para que uma mulher seja perfeita, e o quanto deve procurá-lo ser a que é casada.

            Propõe logo no início aquilo que há de dizer, que é a doutrina de uma mulher de valor, ou seja, de uma perfeita mulher casada e louva o que propõe, ou para dizer melhor, propõe louvando para despertar e acender nelas este desejo honesto e virtuoso. E para ter maior força o encarecimento, coloca-o por meio da pergunta, dizendo: “Mulher de valor, quem a encontrará?” Perguntando e afirmando isso, diz que é difícil encontrá-la e são poucas essas mulheres. Assim, o primeiro louvor para a boa mulher é dizer que ela é coisa rara, ou seja, dizer que é preciosa e excelente, digna de ser muito estimada, porque tudo aquilo que é raro é precioso. Que seja esta sua intenção, parece não haver dúvida, porquanto logo acrescenta: “Inatingível e extremado é seu preço”. Ou como diz o original no mesmo sentido: “Muito além, muito distante do preço das pedras preciosas é seu preço”.
            Desse modo, portanto, um homem que encontra uma mulher de valor pode desde já se sentir rico e venturoso, entendendo que encontrou uma pérola oriental ou um diamante finíssimo ou uma esmeralda ou alguma outra pedra preciosa de inestimável valor.
            É este o primeiro elogio à boa mulher, dizer que é difícil de encontrar. O que é um elogio para as boas, mas é aviso para conhecer geralmente a fraqueza de todas. Não seria grande coisa ser boa se houvesse muitas, ou se em geral não fossem muitos seus males sinistros, os quais são tantos, em verdade, tão extraordinários e diferentes entre si, que, mesmo sendo uma linhagem ou espécie, parecem de diversas espécies. Como zombando neste assunto, foi Focílides ou foi Simônides quem costumava dizer (Apud Stobaeum, serm. 73.) que somente nelas vemos a criatividade e as manhas de todo tipo, como se fossem de sua linhagem: há algumas toscas e livres como cavalos, e outras espertas como raposas, outras agressivas, outras volúveis, outras pesadas, como se fossem feitas de terra e por isso aquela que entre tantos diferentes males acaba sendo boa, merece ser muito elogiada.
            Mas vejamos porque o Espírito Santo chama a boa mulher de mulher de valor, e depois veremos com quanta propriedade a compara e antepõe às pedras preciosas. O que aqui chamamos de mulher de valor, que poderíamos chamar de mulher varonil, como Sócrates, referindo-se a Jenofón (De administratione domestica, lib. V.), chama as mulheres casadas de perfeitas; por esse motivo ao dizer varonil ou valor, na origem é uma palavra de grande significado e força, de modo tal que somente com muitas palavras se alcança tudo o que significa. Quer dizer virtude de ânimo e fortaleza de coração, indústria e riquezas, poder e vantagem, e finalmente, um ser perfeito, pleno daquelas coisas a quem esta palavra se aplica; tudo isto guarda em si quem é uma boa mulher, e não o é se não o guarda.
            Para que entendamos que isso é verdade, chamou-a o Espírito Santo com este nome, que encerra em si tão variado tesouro. Porque, mesmo sendo a mulher naturalmente delgada e frágil mais que qualquer outro animal, como se fosse uma coisa quebradiça e melindrosa, e como na vida de casada está sujeita a muitos perigos e se oferecem a cada dia trabalhos e dificuldades muito grandes, exposta a contínuos dissabores e zangas, e, como diz São Paulo (I. Cor., VII, 34), vida onde o ânimo e o coração estão divididos como alheios entre si, acudindo ora os filhos, ora o marido, ora a família; para que tanta fraqueza saia vitoriosa da contenda tão difícil e longa, é necessário que para ser uma boa mulher casada esteja cercada de um nobre esquadrão de virtudes, como são as virtudes que já dissemos e aquelas que em si abraça a propriedade deste nome. Porque o que é bastante para que um homem se saia bem com o negócio que empreende, não é suficiente para que uma mulher responda como deve a seu ofício; quanto mais o sujeito é fraco, maior é a necessidade de ajuda e favor para chegar com uma carga pesada. E como, quando em um material duro que não se rende ao ferro nem à arte, vemos uma figura perfeitamente esculpida, dizemos e reconhecemos que era perfeito e extremado em seu ofício o artífice que a esculpiu, que com a vantagem de seu artifício venceu a dureza indomável do sujeito duro; assim do mesmo modo, mostrar-se uma mulher como deve entre tantas ocasiões e dificuldades de vida, sendo tão fraca, é claro sinal de um caudal de raríssima e quase heróica virtude.
            É argumento evidente que quanto mais à natureza é fraca, mais se adianta e avantaja no valor do ânimo. E esta mesma é a causa também por onde, como vemos pela experiência e como nos ensina a história em não poucos exemplos, quando uma mulher se decide a realizar alguma coisa de louvor, vence nisso muitos homens que tentam a mesma coisa. Porque coisa de tão pouco ser como é isso que chamamos de mulher, nunca empreende nem alcança coisa de valor nem de ser, se não for porque a inclina a isso, e a desperta e alenta, alguma força de incrível virtude que, ou o céu colocou em sua alma ou algum dom singular de Deus. Já que vence seu natural e se avoluma como rio, de mãe, devemos entender necessariamente que possui em si grandes bens. De modo que, com grande verdade e significado de louvor, o Espírito Santo não chamou a mulher boa de boa, nem disse ou perguntou: Quem achará uma boa mulher?, mas chamou-a de mulher de valor; usou para isso uma palavra tão rica e significativa como é a original que dissemos, para nos dizer que a mulher boa é mais que boa e isso que chamamos bom é um modo de dizer que não chega àquilo de excelente que deve ter e tem em si a boa mulher. E, para que um homem seja bom, é suficiente um bem médio, mas na mulher deve ser coisa de muitos e altos quilates, porque não é obra de qualquer oficial, nem lance ordinário, nem bem que se encontra em qualquer lugar, e sim artifício primo e bem incomparável, ou, para dizer melhor, um acúmulo de riquíssimos bens.
            Este é o primeiro louvor que lhe dá o Espírito Santo, e deste deriva o segundo, que é compará-la com as pedras preciosas. Neste, em uma palavra, acaba de dizer cabalmente que se encerra tudo o que estamos falando. Porque, assim como a pedra preciosa é de alto e extraordinário valor, assim o bem de uma boa mulher tem altos quilates de virtude; e como a pedra preciosa em si mesma é pouca coisa, e, pela grandeza da virtude secreta, cobra um preço, assim o que na fraqueza da mulher estima como bem, é grande e raro bem; e como nas pedras preciosas a que não é muito fina não é boa, assim nas mulheres não há meio termo, nem é boa a que não é muito boa. Do mesmo modo que é rico um homem que possui uma preciosa esmeralda ou um diamante, mesmo que não tenha outra coisa; possuir estas pedras não é possuir uma pedra, e sim possuir nela um tesouro abreviado; assim uma boa mulher não é uma mulher e sim um acumulo de riquezas, e quem a possui é rico só com ela e somente ela pode fazê-lo venturoso e afortunado; do mesmo modo que a pedra é levada nos dedos e colocada diante dos olhos, e assenta-se sobre a cabeça para beleza e honra dela, o dono tem ali juntamente apoio na alegria e socorro na necessidade, nem mais nem menos o marido deve gostar mais da mulher que de seus próprios olhos, e há de levá-la sobre sua cabeça, e o melhor lugar no coração do homem deve ser para ela, ou, para dizer melhor, todo seu coração e sua alma; e há de entender que ao tê-la, tem um tesouro geral para todas as diferenças de tempos que é a varinha de virtudes, como dizem, que em qualquer tempo e conjuntura responderá com seu gosto e preencherá seu desejo; que na alegria tem nela doce companhia com quem acrescentará seu prazer, comunicando-o; e na tristeza, amoroso consolo; nas dúvidas, conselho fiel; nos trabalhos, repouso; nas faltas, socorro; e medicina nas doenças, aumento de seus bens, vigia de sua casa, mestra de seus filhos, provedora de seus excessos; e finalmente, nas boas e más situações na prosperidade e adversidade, na idade florida e na velhice cansada, e, durante toda a vida, doce amor, paz e descanso.
            Até aqui chegam os elogios de Deus a esta mulher; vejamos agora o que segue depois disso:

            Confia nela o coração de seu marido;
            não lhe farão falta os despojos.
            Prov., XXXI,11
 P.S: Continuará...