quinta-feira, 26 de abril de 2012

6.ª- Confirma-se o sobredito com alguns exemplos

Nota do blogue: Com este post encerro este Especial sobre Securas e desconsolações na vida de oração. Ver este Especial completo AQUI.



Conta-se nas Crônicas da Ordem de S. Domingos[1], que um dos primeiros Padres da ordem, depois de ter estado nela alguns anos com grande exemplo de vida e grande limpeza e pobreza de alma, nenhuma consolação, por pequena que fosse, sentia nos exercícios espirituais da religião, nem meditando, nem contemplando, nem orando, nem lendo. E como sempre tinha ouvido falar dos singulares favores que Deus fazia a outros na oração, e dos sentimentos espirituais que nela tinham, estava meio desesperado.

Estando em oração diante de um crucifixo, chorando amargamente, pôs-se a dizer estes desatinos: “Senhor, eu sempre entendi que excedeis a todas as Vossas criaturas na bondade e mansidão; porém aqui estou eu, que há tantos anos Vos servi, sofrendo por Vosso respeito muitas tribulações, e sacrificando-me só por Vós, de muita boa vontade; e se a quarta parte do tempo Vos tenho servido, servisse-a um tirano, já me teria mostrado algum sinal de benevolência, ao menos com um ar de sorriso e graça. E Vós, Senhor, nem um pequeno mimo, nem o mínimo favor me tendes feito daqueles que a outros costumais fazer; e sendo Vós a mesma doçura, sois para mim, mais duro que cem tiranos. Que é isto, Senhor? Por que razão quereis que isto seja assim?”

Estando dizendo estas coisas tão desatinadas, ouviu de repente um grande estrondo e tão espantoso, que parecia que vinha a igreja ao chão, e no forro da mesma igreja havia um ruído tão temeroso, que parecia que milhares de cães com os dentes queriam despedaçar o madeiramento. Ficou em extremo assombrado e tremendo de medo. Voltou o rosto para ver o que fosse aquilo, e viu atrás de si a mais feia e horrível visão do mundo. Era um demônio que, com uma barra de ferro que tinha nas mãos, lhe deu um tão cruel golpe, que caindo em terra não mais pode levantar-se. Teve contudo ânimo para se ir arrastando até chegar a um altar que estava perto, mas sem poder andar nem menear seus membros com a força das dores, que não parecia senão que lhe tinham desconjuntado todos os ossos a poder de pancadas.

Quando depois os religiosos se levantaram para cantar prima, e o acharam como morto, sem saberem a causa de tão inesperado e mortal acidente levando-o à enfermaria, o trataram durante três semanas inteiras. Mas no meio das dores gravíssimas que o atormentavam era tão intenso e abominável o mau odor que despedia, que os religiosos de nenhum modo podiam entrar no aposento a curá-lo e servi-lo senão tapando cautelosamente os narizes e usando de outras prevenções.

Passadas aquelas três semanas, recobrou forças: e tanto que se pode ter em pé, quis logo curar-se de sua louca presunção e soberba; e tornando ao lugar onde tinha cometido a culpa, buscou nele o remédio dela, e com muitas lágrimas e muita humildade fazia a sua oração bem diferente primeira. Confessou a sua culpa e reconheceu-se por indigno de algum bem, e por muito merecedor de pena e castigo. Então o Senhor consolou-o com uma voz do céu que lhe disse: “Se queres consolações e gostos, convém que sejas humilde, e que reconheças a tua vileza, entendendo que és mais vil que o lodo, e de menos valor que os bichinhos que pisas com os pés”. Com isto ficou tão escarmentado, que dali em diante foi perfeitíssimo religioso.

De nosso bem-aventurado Padre lnácio lemos outro exemplo bem diferente. Conta-se na sua vida que, examinando as suas faltas, e derramando por elas muitas lágrimas, dizia que desejava, em castigo delas que Nosso Senhor lhe tirasse alguma vez o regalo da consolação, para que com esta secura andasse mais cuidadoso e mais acautelado no Seu serviço; porém que era tanta a misericórdia do Senhor, e tão abundante a doçura e suavidade de Sua graça para com ele, que, quanto mais ele faltava e mais desejava ser castigado daquela maneira, tanto o Senhor era mais benigno, e com mais abundância derramava sobre ele os tesouros de Sua infinita liberalidade. E assim dizia que pensava não haver homem no mundo, em quem se juntassem tanto como nele estas duas coisas: primeira faltar tanto a Deus, segunda receber tantas e tão contínuas mercês de Sua divina mão.

De um servo de Deus conta Blósio[2], que lhe fazia o Senhor grandes favores e regalos, dando-lhe grandes ilustrações e comunicando-lhe coisas maravilhosas na oração. E ele com sua muita humildade e desejo de agradar mais a Deus, lhe pediu que, se fosse servido e lhe agradava mais nisso, lhe tirasse aquela graça. Ouviu Deus a sua oração, e suspendeu-lha por cinco anos, deixando-lhe padecer durante este tempo muitas tentações, desconsolações e angústias. Estando ele uma vez chorando amargamente, apareceram-lhe dois anjos para o consolarem, aos quais respondeu: Eu não peço consolação, porque para minha consolação basta-me que se cumpra em mim a vontade de Deus.

Refere o mesmo Blósio[3] que Cristo Senhor Nosso dissera a S. Brígida: Filha, que é que te perturba e te dá cuidado? Respondeu a Santa: Ando perturbada, porque me vejo aflita com maus pensamentos, e como não os posso expulsar e desterrar de mim, angustia-me e atemoriza-me o Vosso tremendo juízo. Então lhe disse o Senhor: Esta é a verdadeira justiça que, assim como tu, lá no mundo, te deleitavas com as vaidades contra a minha vontade, assim agora te sejam penosos vários e perversos pensamentos contra, tua vontade e querer. Mas o meu juízo deves temê-lo moderada e discretamente, confiando firmemente sempre em mim, que sou teu Deus; porque deves ter por muito certo que os maus pensamentos a que o homem resiste com empenho, são purgatório e coroa da alma. Se os não podes rechaçar inteiramente, sofre-os com paciência faz-lhes oposição com a vontade. E ainda que não lhes dês consentimento, deves ter cuidado não te venha daí vaidade ou soberba, e venhas a cair, porque todo o que está em pé, a graça de Deus somente é que o sustenta.

Diz Taulero, e o traz Blósio na Consolação dos pusilânimes: Muitos que se vêem aflitos com alguma tribulação, costumam dizer-me: “Padre, tratam-me mal; não me vai bem, porque me vejo fatigado com diversas tribulações e com melancolia”. Eu a quem me diz isto respondo, que antes lhe vai muito bem e que se lhe faz muita mercê. Então replicam eles: “Senhor, não é assim; antes creio que por minhas culpas me cede isto”. E eu torno de novo: “Ou seja por teus pecados ou não, crê que essa cruz te vem de Deus: dá-Lhe por ela muitas graças, sofre e resigna-te inteiramente em Suas mãos”. Dizem também: “Ando consumido interiormente com a grande secura que padeço e com as trevas em que encontro”. A estes digo eu: “Amado filho, sofre com paciência, e far-te-ão maior mercê que se andasses com muita e muito grande devoção, sensível”.

De um grande servo de Deus se conta que dizia: Quarenta anos há que sirvo a Nosso Senhor e trato de oração, e nunca tive nela consolação, nem gosto. Porém no dia que tenho oração sinto em mim um grande alento para os exercícios de virtude; e quando falto à oração, ando tão descaído, que não se me levantam as asas para coisa boa. 

Notas:

[1] Hist. Ord. Praed., I P., lib. I, c. 60.
[2] Blos. Monil. Spirit., cap.10.
[3] Monil. Spirit., cap. 4.

(Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs pelo V. Padre Afonso Rodrigues da Companhia de Jesus, versão do Castelhano por Fr. Pedro de Santa Clara, 4.ª Edição, primeira Parte, Tomo II.)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...