sexta-feira, 20 de abril de 2012

5ª. É grande engano e grave tentação deixar a oração por nela sofrer desolações

Nota do blogue: Acompanhe este Especial AQUI.


Do que temos dito se segue que é grande engano e grave tentação, quando algum, por se ver deste modo atribulado, chega a deixar a oração ou a ser nela menos assíduo, parecendo-lhe que não faz ali nada, antes perde tempo. Com esta tentação tem o demônio feito abandonar o exercício da oração não só a muitos dos seculares, mas também a muitos religiosos; e quando de todo lhes não tira a oração, faz que não se dêem tanto a ela nem gastem nela tanto tempo como poderiam. Começam muitos a dar-se à oração: e enquanto bonança e devoção, continuam com muito fervor, porém, apenas chega o tempo da secura e das distrações, logo desanimam, parecendo-lhes que aquilo não é oração mas antes nova culpa, pois estão ali diante de Deus com tanta dissipação e com tão pouca reverência. E assim vão pouco a pouco deixando a oração, cuidando que hão-de fazer maior serviço a Deus noutros exercícios e ocupações, que não em estar ali deste modo. E como o demônio sente neles esta fraqueza, vale-se da ocasião e se apressa de tal modo a lhes sugerir pensamentos e tentações na oração, que persuadidos já que é tempo mal gasto, pouco a pouco chegam a deixá-la de todo, e com ela a prática da virtude.

E muitas vezes não param aqui. Por este caminho principiou a perdição de muitos. Há amigos, que só o são para a mesa, e que faltam no tempo da tribulação e necessidade, diz o Sábio (1). Gozar com Deus ninguém recusa, porém trabalhar e padecer por amor de Deus é o único sinal do verdadeiro amor. Quando na oração há devoção e consolação, não é muito que persevereis e que vos detenhais e gasteis nela muitas horas, porque isso podeis vós fazer só por vosso gosto e contentamento; e é prova de que assim o fazeis, se, quando isso vos falta, já não perseverais na oração. Quando Deus manda desconsolações, securas e distrações, então se provam os verdadeiros amigos, então se conhecem os servos fiéis, que não buscam o seu interesse, senão puramente a vontade e o beneplácito de Deus. E por isso então havemos de perseverar com humildade e paciência, ficando ali todo o tempo marcado e ainda um pouco mais, como no-lo aconselha nosso Padre lnácio, para assim vencermos a tentação e para nos mostrarmos esforçados e fortes contra o demônio.

Conta Paládio que, exercitando-se ele nas coisas divinas e na consideração dos bens espirituais encerrado em uma cela, padecia graves tentações de secura, e grande moléstia de pensamentos; e lhe vinha à imaginação que deixasse aquele exercício, porque era para ele sem proveito. Foi logo buscar àquele santíssimo varão Macário Alexandrino, e lhe contou esta tentação, pedindo-lhe conselho e remédio. Respondeu-lhe o Santo: Quando estes pensamentos te disserem que te vás, e que não fazes ali nada, responde-lhes logo: “Quero estar aqui por amor de Cristo, guardando as paredes desta cela”. E foi o mesmo que dizer-lhe que perseverasse na oração, contentando-se com fazer aquela santa obra por amor de Cristo Nosso Senhor, ainda que não tirasse mais fruto que este.

Esta é muito boa resposta para quando nos vier a tentação do desânimo na oração; porque o fim principal que havemos de pretender neste santo exercício, e a intenção com que devemos tomá-la e ocupar-nos nele, não há-de ser o nosso gosto e consolação, senão fazer uma obra boa e santa, com a qual agrademos a Deus e Lhe demos contentamento, e juntamente Lhe paguemos alguma coisa do muito que Lhe devemos, por ser Ele quem é, e pelos inumeráveis benefícios que da Sua liberal mão temos recebido; e pois Ele quer e Se agrada de que eu esteja agora aqui em oração, ainda que me pareça que não faço nada, permanecerei contente no meu posto.

Conta-se de S. Catarina de Sena que por muitos dias esteve desamparada destas consolações espirituais, sem sentir o costumado fervor de devoção; além disso era muito molestada de pensamentos maus, feios e desonestos, os quais não podia afastar de si; porém nem por isso deixava a sua oração, antes perseverava nela o melhor que podia com grande cuidado, e então falava consigo mesma deste modo: Tu, vilíssima pecadora, não mereces consolação alguma; não te contentarias tu com que não fosses condenada, ainda que toda a tua vida houvesses de padecer estas trevas e estes tormentos? Com certeza que não escolheste servir a Deus, para dEle receberes consolações nesta vida, senão para gozares dEle no céu por toda a eternidade. Ânimo pois, e prossegue nos teus exercícios espirituais, persevera na fidelidade de teu Senhor.

Imitemos nós estes bons exemplos, e fiquemos com as palavras de um Santo bem gravadas no nosso coração: Tenha eu, Senhor, por minha consolação o querer de boa vontade estar privado de toda a consolação humana; e se também a Vossa consolação me faltar, tenha eu por supremo alívio a Vossa vontade e justa prova (2) . Se chegarmos a esta perfeição; se conseguirmos que a vontade de Deus seja todo o nosso contentamento e consolação, de tal modo que até o carecer de toda a consolação do céu seja o nosso gosto e contentamento, por ser essa a vontade de Deus: então será verdadeira a nossa alegria, e tão sólida e duradoura, que nenhuma coisa deste mundo no-la poderá roubar.

(1) Est autem amicus socius mensae, et non permanebit in die necessitatis. Eccli. VI.10.
(2) Kempis, de Imit. Obr., 1. III, cap. 16. 
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