terça-feira, 10 de abril de 2012

4ª. De outras razões que há para nos consolarmos e conformarmos com a Vontade de Deus nas securas e desolações na oração

Nota do blogue: Acompanhe este Especial AQUI.



Ainda que é bom pensarmos que este trabalho das desconsolações na oração nos vem por nossas culpas, para que assim andemos sempre humildes e confundidos; contudo também é necessário que entendamos que nem sempre é castigo de nossos pecados ou defeitos, mas sim disposição e altíssima providência de Deus que reparte Seus dons como é servido; pois não convém que todo o corpo sejam olhos, cabeça, pés ou mãos, senão que haja membros diferentes na Sua Igreja. E assim não convém que se dê a todos aquela oração especialíssima e avantajada de que falamos quando tratamos da oração. E isto não é preciso que seja porque o não mereçam todos, pois, ainda que o mereçam, contudo poderão merecer mais, e lhes fará o Senhor maior mercê em lhes dar outra coisa, que não em lhes conceder esse dom de oração. Houve muito grandes Santos dos quais não sabemos que tivessem estas coisas; e se as tiveram, disseram com S. Paulo que não se prezavam delas, nem se gloriavam senão em levar a cruz de Cristo: Longe de mim gloriar-me em outra coisa que não seja a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo (1).

Sobre isto diz o P. Mestre Ávila uma coisa de muita consolação: “Deixa Deus a alguns desconsolados por muitos anos, e algumas vezes por toda a vida; e a parte ou a sorte destes creio que é a melhor, se há fé para não julgar mal, e paciência e esforço para sofrer tão grande desterro”.

Se cada um se acabasse de persuadir que essa é para ele a melhor parte, facilmente se conformaria com a vontade de Deus. Muitas razões dão os Santos e os mestres da vida espiritual para mostrar que aos tais lhes está melhor esta sorte, ou esta sua tribulação e secura; agora porém diremos somente uma das razões principais, que apontam S. Agostinho, S. Jerônimo, S. Gregório, e comumente todos os que tratam desta matéria, e é que nem todos são capazes de conservar a humildade na altura e sublimidade da contemplação, porque apenas derramamos uma lágrima, e já nos parece que somos espirituais e homens de oração, e talvez nos comparamos e ainda preferimos aos demais.

Até o apóstolo S. Paulo parece que houve mister algum contrapeso, para que estas coisas o não levantassem e ensoberbecessem. Para que o ter sido arrebatado ao terceiro céu, e o ter tido tão grandes revelações não fosse causa de perder a sua humildade, permite Deus que o acometa uma tentação que o humilhe, e lhe faça conhecer a sua fraqueza. Pois por esta mesma causa, ainda que aquele caminho da contemplação pareça mais alto, contudo este da secura e desconsolação é mais seguro; e assim Deus Nosso Senhor que é infinitamente sábio, e nos guia a todos para um mesmo fim, que é Ele mesmo, leva a cada um pelo caminho que Ele sabe é mais conveniente. Pode muito bem ser que, se tu tivesses grande entrada na oração, em vez de saíres humilde e aproveitado, saísses soberbo e desvanecido; e pelo outro caminho da desolação andas sempre humilde e confuso, tendo-te por inferior a todos; e assim melhor caminho é este e mais seguro para ti, ainda que tu o não entendas.

A este propósito ensina S. Gregório uma doutrina muito boa sobre aquelas palavras de Job: Se o Senhor vier a mim, não O verei; e se Ele se for e apartar de mim, não O entenderei (2). Ficou o homem, diz, tão cego pelo pecado, que não conhece quando se vai aproximando de Deus, nem quando se vai afastando dEle; antes muitas vezes aquilo que imagina é graça de Deus, e que o há de unir mais com Deus, se lhe converte em objetos de ira, e lhe serve de ocasião de se apartar mais de Deus. E pelo contrário outras vezes o que ele pensa que é ira de Deus ou motivo para que Deus se aparte ou esqueça dele, isso mesmo é graça divina, concedida precisamente para que o homem se não aparte de Deus.

Quem é que vendo-se em uma oração muito alta e muito elevada, e muito regalado e favorecido de Deus, não pensará que se vai chegando mais ao mesmo Deus? Ora muitas vezes com estes favores chegam alguns a ensoberbecer-se e a fiar-se de si, e pelo mesmo caminho por onde pensavam subir e aproximar-se mais de Deus, por ali os faz cair o demônio. E ao revés muitas vezes vendo-se um muito triste e aflito, cercado de graves e fortes tentações, muito combatido de pensamentos desonestos, de blasfêmias e tentações contra a fé imagina que Deus está irado contra ele, e que o vai abandonando e apartando de si, e então precisamente é quando está mais perto dEle; porque com isto mais se humilha, conhece a sua fraqueza, desconfia de si, acode e recorre a Deus com maior ânsia e fortaleza, e pondo nEle toda a sua confiança, procura e forceja por nunca se apartar dEle de maneira que o melhor caminho não é aquele que vós julgais por melhor, senão aquele por onde o Senhor vos levar, e esse haveis de entender que é o mais seguro e o que mais vos convém.

Mais. Essa mesma amargura, essa pena e dor que vós sentis, por vos parece que não tendes oração com aquela perfeição e recolhimento que deveis, pode ser outra razão de consolação, porque é particular graça e especial mercê do Senhor, e sinal de que o amais, pois não há dor onde falta o amor, não há pesar e pena de servir mal, sem o propósito e vontade de servir bem. E assim esta pena e esta dor não há dúvida que nasce do amor de Deus e do desejo de O servir melhor. Se não fizésseis caso de O servirdes mal, nem de terdes oração mal feita, nem de fazer as coisas imperfeitamente, isto seria mau sinal; porém sentirdes pena e terdes dor por vos parecer que fazeis as vossas obras mal feitas, isto é bom sinal. Contudo esta dor e este sentimento pode-se aplacar e moderar, se entenderdes que, enquanto isso é pena e castigo, é da vontade de Deus, e, portanto conformai-vos com ela e dai muitas graças ao Senhor, pois vos deixa andar desejoso de Lhe agradar, ainda que as obras vos pareçam pobres e imperfeitas.

Mas há mais. Ainda que na oração não façais outra coisa senão assistir ali é fazer ato de presença diante da Majestade Divina, nisto mesmo servis e agradais muito a Deus, como vemos cá no mundo que é grande majestade dos reis e príncipes, que os grandes de sua corte vão todos os dias ao palácio e assistam em sua presença. À glória da Majestade de Deus, à importância do negócio que tratamos e à baixeza da nossa condição pertence que estejamos muitas vezes esperando longamente às portas do palácio celestial; e quando o Senhor vos abrir as portas, dai-Lhe graças por esta mercê; e se as não abrir, humilhai-vos, reconhecendo que o não mereceis: e desta sorte sempre será muito boa e proveitosa a vossa oração.

De todas estas considerações e de outras semelhantes nos havermos de ajudar para nos conformarmos com a vontade de Deus nesta desolação e desamparo espiritual, aceitando tudo com boa vontade e dando ao Senhor muitas graças, dizendo com o santo arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires: Bendita seja esta amargura, amarga e amarguíssima, mas cheia de graças e bens singulares. (3)

Notas:

(1)   Mihi autem absit gloriari nisi in cruce Domini nostri Jesu Christi. Ad. Gal. VI, 14.
(2)   Si venerit ad me, non videbo eum; si abierit, non intelligam. Job IX, 11.
(3)   Salve, amaritudo, amarissima, omnia gratia plena! Compend., cap. 26.

(Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs pelo V. Padre Afonso Rodrigues da Companhia de Jesus, versão do Castelhano por Fr. Pedro de Santa Clara, 4.ª Edição, primeira Parte, Tomo II.)