quarta-feira, 14 de março de 2012

ESPECIAL: Securas e desconsolações na vida de oração

Nota do blogue: Inicio hoje um pequeno especial com textos extraídos do livro Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs pelo V. Padre Afonso Rodrigues que abordam o tema: Securas e desconsolações na vida de oração. Um tema muito interessante e que pode trazer "luz e calor" para muitos.

Que Nossa Senhora das Dores nos guie!

Saudações,
Letícia de Paula

Títulos das postagens:

1.ª- Da conformidade que devemos ter com a vontade de Deus nas securas e desconsolações da oração, e que se entende aqui por desconsolação e secura. (Texto logo abaixo)







1.ª- Da conformidade que devemos ter com a vontade de Deus
nas securas e desconsolações da oração, 
e que se entende aqui por desconsolação e secura.

Devemos conformar-nos com a vontade de Deus não somente nas coisas exteriores, naturais e humanas, mas também naquilo que a muitos parece que é bom desejar sem medida nos bens espirituais e sobrenaturais, como são as consolações divinas, as mesmas virtudes, o dom de oração, a paz, o sossego e quietação interior de nossa alma, e as mais vantagens espirituais. Porém perguntará alguém: Então pode haver nestas coisas vontade própria e amor desordenado de si mesmo, para que seja necessário moderá-lo ainda nestas coisas? Digo que sim; e aí se verá quão grande é a malícia, do amor próprio, pois em coisas tão boas não teme introduzir o seu veneno. Boas são as consolações e gostos espirituais, porque com eles facilmente a alma aborrece e despreza todos os prazeres e gostos da terra que são o alimento dos vícios, e se alenta e anima para caminhar com fervor no serviço de Deus, conforme aquilo do profeta: Corria eu com ligeireza pelo caminho de vossos mandamentos, quando vós, Senhor, dilatáveis meu coração (1). Com a alegria e consolação espiritual dilata-se e reforça-se o coração, e ao revés, comprime-se e aparta-se com a tristeza. Diz pois o profeta David que quando Deus lhe mandava consolações, lhe eram como asas que o faziam correr e voar pelo caminho da virtude e dos mandamentos do Senhor.

Ajudam também muito as consolações espirituais para cada um quebrantar à própria vontade, vencer os apetites, mortificar a carne e levar com maior ânimo a cruz e os trabalhos que se oferecerem. E assim costuma Deus conceder consolações espirituais àquele a quem há de mandar trabalhos e tribulações, para que por meio delas se prepare e disponha para os levar com paciência e com proveito, como vemos que Jesus Cristo Nosso Redentor quis primeiro consolar a Seus discípulos no monte Tabor com a Sua gloriosa transfiguração, para que depois se não perturbassem vendo-O padecer e morrer em uma cruz. E vemos também que aos principiantes costuma Deus de ordinário dar estas consolações espirituais, para os fazer deixar eficazmente os gostos da terra pelos do céu; e depois que os têm presos com Seu amor, e os vê bem fundados na virtude, os costuma exercitar com securas, para que adquiram mais humildade e paciência, e mereçam maior aumento de graça e glória, servindo a Deus mais pura e desinteressadamente sem consolações.

Esta é a causa por que alguns no princípio, quando entram na Religião, e ainda talvez lá fora nas vésperas de entrar, sentiam mais gostos e consolações espirituais que depois; e a razão é porque os tratava Deus então conforme à sua idade, dando-lhes leite como a meninos para os arrancar e desapegar do mundo, e fazer que o aborrecessem, e fugissem das suas vaidades. Porém depois, que já podem comer pão duro e sólido, dá-lhes Deus manjar próprio de pessoas grandes. Para estes e outros fins semelhantes costuma o Senhor dar as consolações e gostos espirituais; e assim nos aconselham comumente os Santos que no tempo da consolação nos preparemos para o da tentação, como no tempo da paz se preparam os homens para a guerra, pois costumam as consolações ser véspera de tentações e tribulações espirituais.

De maneira que os gostos espirituais são muito bons e úteis, se sabemos usar bem deles; e assim quando o Senhor os der, devemos recebê-los com ações de graças. Porém se algum parasse nestas consolações, e as desejasse só por seu contentamento, pelo gosto e prazer que nelas sente a alma, seria vício e amor próprio desordenado. Assim como nas coisas necessárias para a vida, como é o comer, beber, dormir e outras coisas, se o homem tivesse por fim destas ações só o deleite, seria culpa; assim também na oração, se tivéssemos por fim único estes gostos e consolações espirituais, seria vício de gula espiritual. Não se hão de desejar nem tomar estas coisas só por gosto e contentamento nosso, senão como meio que nos ajuda para os fins da virtude e perfeição que temos dito. Assim como o enfermo que aborrece o mantimento de que tem necessidade, se alegra quando acha algum gosto nele, não pelo sabor, mas porque lhe abre o apetite para poder comer e conservar a vida; assim o servo de Deus não há de querer a consolação espiritual para nela parar e descansar, mas sim para que com este refresco do céu se anime e alente a alma a trabalhar no caminho da virtude, e a perseverar nele constantemente. Deste modo não se desejam os gostos só por serem gostos, senão pela maior glória de Deus, enquanto redundam em maior honra e glória Sua.

Mas digo mais. Ainda que o homem deseje as consolações espirituais deste modo e para os sobreditos fins, tão bons e santos, pode com tudo isso haver excesso nos tais desejos, e mistura de amor próprio desordenado, como por exemplo, se as deseja desordenadamente e com ânsia demasiada, de tal modo que, se lhe faltam não fica tão satisfeito e conforme com a vontade de Deus, mas inquieto, queixoso e com pena. Essa é afeição e cobiça espiritual desordenada; porque o servo Deus não há de estar tão apegado aos gostos e consolações espirituais, que esse amor lhe perturbe a paz e o sossego de sua alma, e a conformidade que deve ter com a vontade de Deus, se ele não for servido conceder-lhos. E a razão é porque a vontade de Deus é melhor que tudo, e mais que tudo importa que nos conformemos e contentemos com o que Deus quer. O que digo dos gostos e consolações espirituais, entendo também do dom de oração e da entrada que nela desejamos ter, e da paz, sossego e quietação interior de nossa alma, e de todas as mais coisas espirituais, porque no desejo de todas elas pode também haver afeição e cobiça desordenada, quando se desejam com tanta ânsia e com tal apetite que, se um não alcança o que deseja, anda queixoso, descontente e menos conforme com a vontade de Deus.

Portanto agora entenderemos por gostos e consolações espirituais não só a devoção, o gosto e a satisfação sensível, mas também a mesma substância e dom da oração, o entrar e estar nela com aquela quietação e sossego que queremos. E disto precisamente trataremos principalmente agora, mostrando como nos devemos conformar também neste ponto com a vontade de Deus, sem andar com demasiada cobiça, ânsia e sofreguidão em busca destas coisas espirituais; porque tudo o que se refere a gostos, consolações e devoções sensíveis, facilmente o renunciaríamos, se nos dessem o substancial da oração, e se sentíssemos em nós o fruto dela; e todos entendem que não consiste a oração nesse gosto, devoção e ternura; e assim para prescindirmos disso pouca virtude é necessária.

Porém isto de ir um à oração, e estar ali como se fosse uma pedra, com tão grande secura que parece não há para ele entrada, mas antes, que Deus Se fechou e escondeu para ele, e que lhe sobreveio já aquela maldição com que Deus ameaça o seu povo: E de cima vos darei um céu de ferro e uma terra de bronze (2),  não há dúvida que é coisa dura, e que para isso se requer mais virtude, e maior fortaleza. A esses parece-lhes que o céu revestiu para eles a dureza do ferro, e que a terra se lhes converteu em bronze, porque não chove uma gota de água celeste que lhes abrande o coração para que produza algum fruto com que se alimentem, mas só encontram uma esterilidade e secura continuada.

E não é só a secura; mas algumas vezes sofrem uma tão grande distração e variedade de importunos pensamentos, e por vezes tão maus e tão feios, que parece não vão à oração senão para serem tentados e atormentados com todo o gênero de tentações. Dizei então a um destes que medite nessas ocasiões na morte, ou em Cristo crucificado, que, de ordinário, é muito bom remédio; e vereis como vos responde: “Isso já sei muito bem; se eu pudesse fazer isso, não me queixava, pois nada me faltava”. Mas às vezes na oração está um de tal sorte, que nem sequer nisso pode ocupar o pensamento; e ainda que traga coisas à memória, não o movem ao recolhimento, nem sente devoção alguma nem lhe fazem a mínima impressão. Isto é o que chamamos desconsolação, secura e desamparo espiritual, e nisto é necessário que nos conformemos também com a vontade de Deus.

Este ponto é de muita importância, por ser uma das queixas mais comuns, e uma das maiores tribulações que sentem os que tratam da oração, porque todos gemem e choram quando se acham deste modo. Como ouvem por uma parte dizer tantos bens e louvores da oração, e que quanto mais um se dá a ela, tanto mais aproveita naquele dia e em toda a vida; que este é um dos principais meios que há, tanto para o próprio adiantamento como para o dos próximos; e por outra parte se vêem, ao seu parecer, tão longe de terem oração: dá-lhes isto muita pena, e lhes parece que Deus os tem desamparado, e se tem esquecido deles, e lhes vem um grande temor, cuidando que terão perdido a amizade e a graça de Deus, por lhes parecer que não acham nEle acolhimento.

A estes vem nova tentação; pois vendo que outras pessoas em poucos dias crescem e avançam tanto na oração, quase sem trabalho, e que eles trabalhando tanto, não alcançam nada: disto mesmo lhes nascem coisas piores, como são queixarem-se às vezes de Nosso Senhor porque os trata deste modo, quererem deixar o exercício da oração parecendo-lhes que não é para eles, pois tão mal lhes vai nela; e tudo isto se lhes agrava e lhes dá maior pena, quando o demônio lhes traz à lembrança que eles são a causa de tudo isto, e que por sua culpa os trata Deus assim. Com isto vivem alguns muito descontentes, e saem da oração como de um tormento, desolados, tristes, melancólicos e insofríveis para si e para os outros que tratam com eles. Por esta causa iremos respondendo e satisfazendo a esta tentação e a esta queixa com a graça do Senhor.

Notas:

1-     Viam mandatorum tuorum cucurri, cum dilatasti cor meum. Ps. CXVIII,32.
2-     Daboque vobis coelum desuper sicut ferrum, et terram aeneam. Levit. XXVI,19; Deut. XXVIII,23.


(Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs pelo V. Padre Afonso Rodrigues da Companhia de Jesus, versão do Castelhano por Fr. Pedro de Santa Clara, 4.ª Edição, primeira Parte, Tomo II.)