quarta-feira, 28 de março de 2012

3.ª - Como convertermos a desolação e a secura em boa e proveitosa oração

Nota do blogue: Acompanhe este Especial AQUI.


Não somente deve acabar em nós esta queixa, mas antes devemos procurar tirar proveito das securas e desconsolações, e fazer disto uma boa e frutuosa oração. Para isso nos ajudará em primeiro lugar o que dizíamos ao tratar da oração (1). Quando assim nos sentirmos, digamos: Senhor, enquanto isto é culpa minha, a mim me pesa muito verdadeiramente da culpa que nisto tenho; porém enquanto é vontade Vossa, e juntamente pena e castigo merecido por meus pecados, eu o aceito, Senhor, de muita boa vontade, e não só agora, ou por breve tempo, senão por todos dos dias de minha vida; e ainda que eles hajam de ser muitos, me ofereço a esta cruz, e estou preparado para a levar, e render-Vos por esta mercê muitas graças. 

Esta paciência e humildade, esta resignação e conformidade com a vontade divina neste trabalho, agrada mais a Deus que as queixas e aflições demasiadas por não achar entrada na oração ou por nela estar com tantos pensamentos e distrações. E, senão, dizei-me: Qual vos parece que agradará mais a seus pais, o filho que se contenta com qualquer coisa que lhe dão, ou o que, nunca se contenta com coisa nenhuma, e sempre anda queixoso e descontente, parecendo-lhe pouco tudo quanto lhe dão, e que lhe deviam dar mais ou melhor?

É certo que o primeiro. Pois aqui passa o mesmo entre Deus e nós. O filho sofrido e calado, que se contenta e conforma com a vontade de seu Pai celestial em qualquer coisa que lhe manda, ainda que seja áspera e desabrida, ainda que seja a mesma dureza, esse contenta e agrada a Deus, e muito mais que o outro descontentadiço, que sempre anda com mil queixas e de mau humor, porque não recebe esses favores e consolações que outros têm.

Mais. Dizei-me ainda: Qual procede melhor, ou qual moverá mais a que lhe dêem esmola e a que tenham compaixão e misericórdia dele, o pobre que se queixa porque lhe não respondem logo e porque lhe não dão esmola, ou o pobre que está com perseverança à porta do rico, com paciência e silêncio, sem se mostrar queixoso, antes, tendo chamado e batido à porta, e sabendo que o ouviram, está esperando ao frio e à chuva, sem tornar a bater e sem se saber queixar, sabendo o senhor da casa que está à espera da esmola com toda aquela paciência e humildade? É certo que este último pobre move muito à compaixão, e, o outro impaciente e soberbo está longe de ser atendido, que antes enfada e move a indignação. Pois, o mesmo se dá entre Deus e nós.

E para que se veja mais o valor e fruto desta oração, e quanto agrada a Deus, pergunto agora: Que melhor oração pode ter alguém, ou que melhor fruto pode, tirar dela, que tirar muita ciência nos trabalhos, muita conformidade com a vontade divina e muito amor ao seu Deus e Senhor? Para que vamos nós à oração, senão para alcançarmos isto? Portanto, quando o Senhor vos manda securas e tentações na oração, conformai-vos com a Sua vontade nestes trabalhos e desamparos espirituais, e fareis um dos maiores atos de paciência e amor de Deus que podeis fazer.

Dizem, e com muita razão, que o amor se manifesta mais claramente no sofrimento com que se padecem os trabalhos por amor do objeto amado, e que quanto maiores são os trabalhos, tanto mais se mostra o amor. Ora estes são os maiores trabalhos e as maiores cruzes e mortificações que sentem os homens mais espirituais, porque estes outros trabalhos que tocam à fazenda, à saúde e aos bens temporais, não têm que ver em comparação dos trabalhos espirituais. E assim estar o homem muito conforme com a vontade de Deus nestes tormentos da alma, imitando a Cristo Nosso Redentor naquele desamparo espiritual por toda a vida, se o Senhor for servido dar-lho, e isto só para agradar a Deus: não há dúvida que é um grande ato de paciência e de amor de Deus, e uma muito alta e proveitosa oração e de muita perfeição. Tão excelente é este exercício, que alguns chamam aos que nele perseveram excelentes mártires.

Mais. Pergunto ainda: A que ides à oração, senão a recolher humildade e conhecimento próprio? Quantas vezes lhe tendes suplicado vos dê a conhecer quem sois? Pois sabei que já ouviu a vossa oração, e que vo-lo quer dar a entender desse modo. Alguns há e houve, que pensam que têm alcançado o conhecimento próprio com um grande sentimento de seus pecados, e com derramar muitas lágrimas por eles; porém enganam-se, porque esse sentimento devia-se a Deus, e não a eles. O ser como uma pedra isso sois vós; e se Deus não ferir essa pedra, não sairá nem água nem mel. Neste conhecimento próprio está o fundamento e a fonte de mil bens espirituais, e disso tendes as mãos cheias, quando estais dessa maneira no meio de tantas securas e tribulações; e se tirais isso por fruto da vossa oração estai certo que recolheis fruto mais alto e precioso.

(1) Trat. V, capo XIX, n.º 6.º.

(Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs pelo V. Padre Afonso Rodrigues da Companhia de Jesus, versão do Castelhano por Fr. Pedro de Santa Clara, 4.ª Edição, primeira Parte, Tomo II.)
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