terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A presença de Deus - Parte final


Como acabamos de dizer, o hábito da presença de Deus constitui o fundamento essencial da simplicidade. Mas, como chegar a adquirir este precioso hábito? Afastando os obstáculos e empregando determinados meios. 

Os obstáculos são a dissipação do espírito, o apego às bagatelas, às futilidades, às ninharias: o hábito de nunca refletir, de deixar sem direção e sem freio vagar o pensamento e a imaginação: as leituras fáceis, as companhias frívolas, as conversações sem termo e sem medida. 

Os obstáculos são ainda os desvarios do coração, os divertimentos que exigem demasiada expansão, certas relações prejudiciais, perigosas mesmo, afeições por demais exclusivistas, paixões muito veementes, desejos exclusivamente desordenados, vontade demasiado impetuosa. 

Enfim, são obstáculos as seduções do mundo, os divertimentos inúteis, a dispersão da vida em que não mais nos pertencemos, a vida desordenada, feita de caprichos, fantasias e pilhérias. 

Afastai tudo isto. Dirigi e fixai o espírito, o coração e a vida; esta é a condição indispensável para pensar seriamente em Deus. 

Depois, empregai meios positivos. Exercitai a inteligência, o coração, a vontade: a inteligência, considerando a presença de Deus, o coração e a vontade, unido-vos a Ele por meio de atos. 

O exercício da inteligência é o mais fácil. A fé nos ensina que Deus está presente em toda parte: “O céu e a terra estão cheios de sua glória.” [Eclesiástico, XLII, 16] Deus está atento, diz Santo Agostinho, a cada um de vossos pensamentos, palavras e ações, tão atento como se fosseis a única criatura do mundo, e como se ocupásseis sozinha todo o pensamento divino. E o mesmo santo imagina a criatura, em relação a Deus, como uma esponja mergulhada no oceano. Deus é imenso e a criatura está como que submersa nEle. 

Deus tudo vê e, ao mesmo tempo, tudo considera e guarda. E, no dia do juízo, tudo nos lembrará: “Um livro escrito vos será mostrado, diz a Santa Igreja, onde tudo estará patente.” [5ª. Estrofe do Dies Irae] 

Além de estar presente em todas as criaturas, Deus atua nelas; e só por Ele têm força e vida, movimento e ação. Como diz São Ligório, Ele está no sol para nos iluminar, no fogo para nos aquecer, na água para nos refrescar, no pão para nos alimentar, nas vestimentas para nos cobrir, em todas as coisas para nos servir. 

Que pensamento este! Fez estremecer os santos; abalou-os com as mais fortes emoções. São Francisco de Assis, quando contemplava a natureza, caía em êxtase; detinha-se para falar aos pássaros; chamava-os e mandava que cantassem os louvores de Deus. 

Ó meu Deus, exclamava Santo Agostinho, em transportes de amor, o céu e a terra, e todas as criaturas exortam-me a que Vos ame.” Passeando os olhos pelo mar, pelos campos, pela montanha, e elevando-os às estrelas e aos céus, parecia-lhe que todas as coisas adquiriam voz para lhe dizer: “Agostinho, ama a Deus, pois que Ele só te criou para ser amado por ti.” 

Outros, arrebatados de admiração e amor, exclamavam como Santa Maria Madalena de Pazzi, tendo em mãos uma linda flor ou delicioso fruto: “Deus, desde toda a eternidade, pensou em criar para mim esta flor e este fruto.” 

Outros, como Santa Teresa, considerando as admiráveis obras de Deus, ouviam como que um concerto universal de vozes que lhes censuravam a ingratidão para com o Criador. 

São Simão Salus, com a ponta do cajado, batia nas flores dos campos e na erva dos prados, dizendo: 

Calai-vos, eu vos escuto: Deus vos fez tão belas por amor para mim e para que eu O ame; mas, ai de mim não O amo; oh! calai-vos, e cessai de incriminar minha ingratidão; já não posso suportar vossas censuras.” 

A exemplo dos santos, vede Deus na natureza, Deus presente em toda parte, Deus agindo em todo lugar; mas principalmente vede Deus em sua obra-prima, na criatura racional, vede-O em vós mesmas. 

Não sabeis, dizia São Paulo, que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” [1ª Ep. Cor. III, 16] 

E, muitas vezes, repetia estes pensamentos, tal a importância que lhes atribuía. 

É que havia compreendido o ensinamento do divino Mestre: “Se alguém me amar, guardará as minhas palavras e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos morada.” [S. João, XIV, 23] 

Deus habita a alma do justo; nela tem morada permanente e residência real. Para encontrar a Deus, basta nos recolhermos em nós mesmos. 

Conta-nos Santa Catarina de Siena que, quando os pais a impediam de ir à Igreja, se retirava na pequena cela que havia construído dentro de si; e aí, no meio dos trabalhos com que a sobrecarregavam, podia sempre ficar recolhida e entregar-se a freqüentes e amorosos colóquios com Deus. 

Podemos ainda considerar como último exercício da inteligência o aplicá-la não somente a Deus, mas também a Jesus Cristo, pensando no Salvador e imaginando-O nas diversas fases de Sua existência: em Belém, no deserto, em Nazaré, no decorrer da vida pública, durante a Paixão, no Calvário, no túmulo; ou então, ressuscitado, no céu, à direita do Pai. 

Mas não é bastante o exercício da inteligência, é necessário exercitar a vontade e, por meio de atos, aplicar o coração

Para com Deus presente e atuando em vós, para com Deus que vos vê, ouve e julga, fazei atos de fé, de adoração, de amor e de oblação total de vós mesmas. Mormente para com Jesus Cristo, fazei frequentes atos de amor, atos de coração, atos que de algum modo levem vossa alma a perder-se inteiramente na dEle. 

Que Jesus Cristo se torne para vós o amigo, em toda a força da expressão! O amigo seguro e fiel, o amigo de quem a Escritura nos diz que é “uma forte proteção, um abrigo inexpugnável..., um bálsamo de vida e imortalidade.” [Eclesiástico, VII, 14-16.] Deste amigo, também diz a Imitação, que “ninguém pode viver sem ele”, pois “aquele que se prende à criatura perecerá porque ela é frágil, mas aquele que se prende a Jesus firmar-se-á para a eternidade.” [ Imit. II, 8.] 

Que Jesus Cristo seja vosso amigo nas penas do espírito, do coração ou da alma, nas tristezas, nos abandonos, nas provações! 

Há horas em que vosso coração transborda: sente intensa dor e opressão, precisa expandir-se. E quando, na criatura, procurais esse alívio que vos é necessário, não o encontrais: por vezes encontrais a ilusão, quase nunca a realidade. Quem jamais abriu o coração a Jesus sem se achar maravilhosamente socorrido? Depois que, em torrentes de lágrimas, Madalena o expandiu aos pé de Jesus qual a alma sofredora e torturada, qual o coração partido, que tenha chorado aos pés do Salvador sem encontrar admiráveis consolações e inesperadas forças? Davi já exclamava: “Pensando em Deus, sentia a alegria e o consolo inundar-me o coração.” 

Que acontecerá a uma cristã que disser: Jesus sofreu e morreu por mim! A tristeza que sinto, Ele sentiu; a dor que suporto, Ele a suportou por mim, antes de mim, para merecer-me a graça e a força em meus sofrimentos e provações. Na Cruz, pensava em mim e me via; e agora ainda, do alto do céu, pensa em mim, me vê e ora por mim! 

Jesus é o divino amigo que consola e fortalece. E também o amigo que reergue nos desfalecimentos e sustenta nas tentações. Se sois tentadas, lembrai-vos que Ele o foi primeiro. Se nos domina o orgulho, o amor próprio, a vaidade, vede Jesus durante a Paixão, coroado de espinhos, coberto de escarros, humilhado e esbofeteado. 

Se a preguiça e a sensualidade se apoderam de vós, vede Jesus coberto de suor, de sangue, flagelado, carregando a cruz, os pés e as mãos trespassados, o corpo suspenso, dilacerado, devorado pela sede, alquebrado pela dor. 

Se sois escravas do amor aos bens deste mundo, vede Jesus, pobre e despojado de tudo, em Belém, em Nazaré, durante a vida pública; vede-O na cruz, exalando o último suspiro, numa suprema aceitação da pobreza. 

Se caís em tentação, em pecado, lembrai-vos de que, no caminho do Calvário, Jesus chegou a cair três vezes, para merecer a graça de vos levantardes depois de vossas quedas, como Ele se levantou depois das Suas; e que nunca o desânimo vos invada o coração! 

Se, em certas horas, tornar-se excessivo o peso das provações e da vida, se em nós a natureza se revoltar e vos fizer exclamar: “não posso mais”, lembrai-vos de que, em sua natureza humana, Jesus conheceu esse estado violento, próximo do desespero e exclamou: “Meu Pai, se for possível, afaste de mim esse cálice! Meu Deus, por que me desamparaste?” [S. Mateus, XXVI, 39 e XXVII, 46] 

Jesus é ainda o amigo que aconselha, inspira e dirige. Se tiverdes de tomar iniciativas e decisões, fazer projetos, assumir responsabilidades, dar opiniões, exercer influência sobre aqueles que vos são confiados, Ele vos assistirá, vos esclarecerá, vos conduzirá: Ele vos ditará o conselho a dar, a palavra a dizer, o partido a seguir. Afastará de vós a ansiedade, a angústia; dar-vos-á paz e tranqüilidade nas decisões tomadas. 

Jesus é o amigo que vos auxiliará nas orações, prendendo-vos a atenção, fixando-vos a imaginação, unindo-vos o espírito e o coração ao Pai; porque ninguém vai ao Pai senão por Ele; é o caminho e a porta pela qual entramos na casa do Pai. Sem Ele, vossas orações serão apenas sons vazios que não se elevarão acima da terra; com Ele, serão vozes vivas e santas que subirão até Deus e serão ouvidas por Ele: “Fiant aures tuae intendentes in vocem deprecationis meae.” [Salmo CXXIX, 2] 

Que Jesus, portanto, seja para vós o amigo da manhã, do dia, da tarde e da noite! Fazei tudo em união com Ele! Pensai, falai, trabalhai, dormi, e, como São Paulo, ouso dizer, comei e bebei com Ele e como Ele, para a glória do Pai! Invocai Jesus ao despertar; invocai-O no princípio e no fim de cada uma de vossas ações; interrompei-as, de vez em quando, para lançar-Lhe um olhar, do mesmo modo que a mãe, por um instante, suspende o trabalho e a respiração para contemplar o filho que brinca ou estuda junto dela. 

Invocai Jesus ao sair de casa, ou ao voltar; invocai-O ainda uma vez à noite, antes de adormecer. E que, em todas as coisas, Ele esteja no princípio, no meio e no fim; que, para vós, seu nome seja sempre o primeiro e o último, o alfa e o ômega! 

Que Jesus tenha o primeiro lugar, lugar à parte, lugar de Rei, em vosso coração! 

Há no mundo mulheres frívolas e levianas, sensuais e vaidosas, que só se preocupam com o julgamento dos outros. Este pensamento as absorve, as domina, as possui, as hipnotiza. Ao levantar-se, ao vestir-se, às refeições, ao sair, nos pensamentos, palavras e ações, sempre e em toda a parte, perguntam a si mesmas: “Que dirá o mundo?” Para elas, existe como que a presença real e contínua do mundo: é um olho sempre aberto que as vigia, domina, subjuga e escraviza. 

Que Jesus seja para vós o que o mundo é para elas! Que, em vossa vida, tudo seja inspirado pelo desejo de agradar a Jesus! 

Hoje O expulsam da sociedade e, como outrora os judeus, exclamam: Não mais queremos que Ele reine; levai-O e crucificai-O! “As nações estremeceram, diz o Salmista, todas as potências da terra se reuniram contra o Senhor e contra o seu Cristo.” É uma conjuração que vi até ao ódio e à insânia; querem suprimir o próprio nome de Deus! 

Compete-vos reparar, protestar pacificamente, reagir de modo cristão, preparar em vossos corações um lugar para Jesus, tanto maior quanto menor o que lhe derem neste mundo; recebê-lO com amor tão grande quanto o ódio com que O desejam expulsar. 

Vivei sob o olhar de Deus, unidas a Jesus pela vontade, pela alma e pelo coração; mostrai-O, manifestai-O em redor de vós; sede para Ele como um espelho vivo; pela vossa influência cristã, fazei com que Ele se irradie sobre todos os que se aproximam de vós. Em uma palavra, esforçai-vos de crescer cada dia no verdadeiro e muito puro amor de Jesus, pela simplicidade e pureza de intenção. 

Quanto mais simples fordes, mais vos unireis a Jesus, e quanto mais vos unirdes a Jesus, mais vos tornareis simples. Da simplicidade à união com Jesus e da união com Jesus à simplicidade, formar-se-á dupla corrente que vos transportará aos cimos da perfeição. Como os apóstolos no Tabor, pela simplicidade “não vereis ninguém a não ser Jesus.” [São Mateus, XVII, 8.] E quanto mais O vereis, mais O amareis; quanto mais O amareis, mais vos transformareis nEle, mais vos unireis a Ele, mais realizareis seu voto supremo: “Que todos sejam um como vós, meu Pai, em mim, e eu em vós; que também eles sejam um em nós...” [São João, XVII, 21.] 

Deus vos auxiliará nesse grande trabalho, que é o magnífico trabalho da santidade, e que é ainda mais dEle do que vosso. 

Deus quer muito mais às vossas almas do que a mais extremosa das mães alguma vez quis aos filhos; mais do que a esposa mais terna e dedicada jamais quis ao esposo! Deus ama as vossas almas com amor incompreensível, porque é infinito. E porque as ama, conduzi-las-á incessantemente à conquista desta virtude, entre todas as mais preciosa: a simplicidade. 

E porque Deus ama as vossas almas, Ele mesmo as aperfeiçoará. 

E, se as deseja cada vez maiores e mais belas, se as deseja cada vez mais abençoar e cumular de graças, Deus vos enviará decepções, insucessos, dissabores, desgostos e contrariedades a fim de que vos não apegueis às criaturas e sim unicamente a Ele. 

Deus deitará por terra os meios com que havíes contado e utilizará, fazendo-os chegare a bom termo, aqueles em que nem havíes pensado. 

Aplicar-se-á a vos mostrar o vosso nada; a vos provar que, em vós, somente Ele tudo quer realizar, que nada haverá de sólido a não ser o que Ele mesmo tenha feito. 

Construirá o edifício da vossa perfeição sobre as ruínas do “eu”. 

Quem sabe se não chegará a vos despojar de tudo e talvez a vos deixar, por instantes, acreditar que Ele mesmo vos abandonou, a fim de vos tornar mais semelhantes ao divino Jesus, em seu grito de angústia e de aflição! 

Mas é então que estará mais perto de vós, que vos sustentará mais fortemente, e que viverá em vós. 

Servir-se-á dessas provações como de maravilhosos remédios para curar-vos as imperfeições, como de colírio encantado para abrir-vos cada vez mais os olhos às belezas incriadas e aos esplendores do mundo sobrenatural. 

Doravante vos tornareis cada vez mais semelhantes aos eleitos que estão no céu; realmente, pela simplicidade, Deus tornar-se-á tudo para vós, como tudo é para os eleitos, até o dia em que, caídos os véus da carne, vossa alma se lançará para Ele a fim de contemplá-lO face a face e eternamente conhecê-lO, como por Ele é conhecida. 

Então a vossa simplicidade será perfeita, porque, entre Deus e vós, nunca mais haverá nada que separe, e para sempre ficareis arrebatadas pela visão das belezas divinas e na posse perfeita, no inefável gozo, do único necessário! [S. Lucas, X, 42.] 

Na terra, nem todas sois chamadas ao mesmo grau de simplicidade; mas todas deveis querer, procurar e praticar esta admirável virtude, na medida em que Deus a quer para vós e em que vos concede a graça; pois a simplicidade é vosso maior bem neste mundo, como será vossa maior recompensa no outro. Quanto mais simples houverdes sido na terra, mais sereis glorificadas no céu! 

(A Simplicidade segundo o Evangelho por Monsenhor de Gibergues, 1945 - negritos meus.)

PS.: Agradeço a um amigo o envio do texto. Deus lhe pague!
PS.2: Ver a Primeira parte AQUI.
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