domingo, 12 de fevereiro de 2012

A presença de Deus - I Parte de II


O último meio para alcançar a simplicidade, e o melhor, é o exercício da presença de Deus. É tal a sua importância que é necessário insistir nisto. 

Do mesmo modo que a simplicidade é o fundamento da perfeição, a presença de Deus é o fundamento da simplicidade. 

Realmente, consistindo a simplicidade em agir para Deus, é claro que, antes de tudo, é preciso pensar em Deus, e nEle pensareis mais e melhor se considerardes sempre a Sua presença. 

Precisemos ainda mais a influência da presença de Deus na simplicidade. 

A presença de Deus vos fará simples por duas razões: 

. Porque tornará impossível qualquer intenção má
. Porque vos conduzirá eficazmente às melhores intenções

Em primeiro lugar, o sentimento da presença de Deus fará desaparecer qualquer intenção má, destruirá a “malícia do olhar” e vos preservará do pecado. 

“É porque o pecador se esquece de que Deus o vê, diz o Salmista, que O ofende sem cessar.” [Salmo XXXV, 1-2] E, depois de haver enumerado longamente os crimes de Jerusalém, o profeta Ezequiel censura enfim o esquecimento de Deus como a causa de todas as desordens e de todos os erros. 

Quantas vezes o verificamos no confessionário! Quantas vezes, após longas e penosas confissões, perguntamos aos pecadores arrependidos: “Em vossos desvarios não pensastes em Deus? E eles nos respondem: “Não, padre, eu o havia esquecido”, ou então: “Afastava este pensamento porque me era intolerável”; e ainda outras vezes: “Foi este o pensamento que me fez voltar”. 

O pecador foge da presença de Deus para escapar ao remorso da consciência. Ao cometer seu pecado, Adão escondeu-se, não mais podendo suportar a vista de Deus. Quando Deus o chamou, não respondeu; foi necessário que Deus o chamasse por duas vezes e o obrigasse a comparecer diante dEle. 

Assim procedem vossos filhos. Escondem-se para praticar o mal; e, depois de o haver praticado, fogem de vossos olhos. Somente a vossa presença os detém e os perturba: sentem medo. 

Se uma criança pode ser retida pelo pensamento dos pais, pela sua vista ou pelo temor dos seus castigos, quanto mais não o seremos nós pela influência toda poderosa que sobre nós exerce o pensamento e o temor de Deus? 

“Todos os pecados, afirma santa Teresa, provêm da idéia de que não julgamos Deus presente, mas de que o imaginamos muito longe.” 

Na verdade, se disséssemos: Deus está presente, Deus me vê, Deus me julga, Deus pode cortar o fio de meus dias e precipitar-me nos abismos eternos, o medo superaria toda atração, todo prazer, toda satisfação, e o pecado se nos tornaria impossível; ao menos, nele não permaneceríamos se a fraqueza ou a surpresa nos fizesse cair. 

Se disséssemos: “Deus está aqui e eu O insulto; Deus morreu por mim e eu de novo O crucifico; Deus me cumula de benefícios e O ofendo com meu desprezo”; nossos corações ficariam cheios de amor, do amor todo-poderoso, infinito, e teríamos a força de tudo vencer, de tudo superar. 

O pensamento de Deus tem realizado milagres de repentinas transformações nas almas: grandes pecadores devem-lhe a conversão. Pretendendo uma delas tentar santo Efrém, o santo respondeu-lhe: “Vamos à praça pública! – Quê? disse a miserável, pecarei em presença de toda a cidade? – Então! exclamou indignado santo Efrém, pecarás na presença de Deus?” Foi essa flexa de fogo que penetrou esse coração empedernido e arrancou torrentes de lágrimas e de arrependimento. 

“Se pensássemos sempre que Deus está presente e que tudo vê, diz são Tomás de Aquino, nunca ou quase nunca pecaríamos.” A mesma idéia é expressa por são Jerônimo, quando afirma: “O pensamento de Deus fecha a porta a todos os pecados.” 

Santo Ambrósio nos relata que, por ocasião de um solene sacrifício oferecido aos deuses por Alexandre Magno, ao lado do soberano, um jovem pajem levava uma tocha. Aconteceu que, durante a cerimônia, a chama alcançou a mão da criança que, não se podendo livrar sem deixar cair a tocha, suportou a horrível dor sem nada dizer, no receio de indispor o soberano. “O respeito à majestade real, exclama santo Ambrósio, pôde triunfar da natureza até numa frágil criança.” Como não poderia o respeito à divina majestade levar a alma cristã a vencer todas as tentações, a suportar todos os males de preferência a ofender a Deus que está presente! 

“Senhor, exclamava Jó, colocai-me perto de vós, e seja qual for o inimigo que se levante contra mim” [Jó, XVII, 3] sob vosso olhar, em vossa presença, nada temo.” 

“Se tivéssemos o cuidado de nos manter na presença de Deus, diz são João Crisóstomo, nunca pensaríamos, diríamos ou faríamos nada de mal, pois, constantemente, repetiríamos: “Deus tudo vê, considera todas as minhas ações.” 

O exercício da presença de Deus é, por conseguinte, um excelente preventivo contra o mal, porque torna impossível qualquer intenção culpável. 

Sob o olhar de Deus, o coração se purifica, todo o sentimento mau se torna insuportável. Tudo o que é contrário à simplicidade é destruído, e poder-se-ia dizer, “consumido pelo fogo divino.” 

Entretanto, o sentimento da presença de Deus faz mais do que nos purificar o coração e nos reanimar as intenções, o que é apenas o lado negativo da simplicidade; enche-nos, ainda, de ardor pelo bem e em pouco tempo leva a simplicidade à mais alta perfeição. 

Quantas vezes em um salão, no decorrer de longa e interminável reunião, acontece a uma mulher sentir-se mal ou ficar indisposta, sob o esplendor das luzes, no ar quente e viciado, no constrangimento das roupas! Ninguém o percebe. Ela continua a conversar, a sorrir, a ser graciosa; sobretudo, se for leviana e frívola, de modo algum quererá mostrar-se menos agradável. Envida todos os esforços para que nada transpareça. 

Em casa, em seus aposentos, não suportaria a menor contrariedade, o menor cansaço sem se queixar, enquanto aos olhos do mundo encontrará coragem. Habitualmente lânguida, sensual e fraca, torna-se forte, corajosa, admirável de energia perante o mundo. 

Não será a presença de Deus na alma cristã mil vezes mais poderosa, mais decisiva, mais eficaz, para conduzi-la ao bem, para sustentá-la em todos os sacrifícios, em todos os esforços, e para torná-la perfeitamente simples? 

Eletrizados sob o olhar de chefes como Alexandre, Carlos Magno, Napoleão, soldados e oficiais correram ao encontro do perigo e alegremente derramaram o sangue pela pátria. 

Terá menos força sobre os corações o olhar de Deus, o olhar do Supremo Senhor do céu e da terra? 

Quando, na primavera, o sol se levanta sobre a natureza, renova-a, ressuscitando-a. Estava morta a natureza; mas, sob a ardente influência dos raios benéficos, a seiva recomeça a subir, a vida circula; aparecem as folhas, as flores, os frutos. 

Não é Deus o sol do mundo, o sol das almas? Sob o olhar divino, na divina presença, as mais frias almas se aquecerão; as mais desanimadas se vivificarão; a seiva cristã circulará novamente; a boa vontade se expandirá; todas as virtudes florescerão. 

A presença de Deus é toda-poderosa para nos conduzir ao bem. 

É toda-poderosa para nos fazer crescer no amor e nos levar à perfeição. É o que ensinava Deus a Abraão, quando dizia: “Anda em minha presença e sê perfeito.” [Gen XVII, 1] 

A perfeição é o amor. Mas como se formaria o amor de Deus sem o pensamento de Deus? E, ao contrário, com este pensamento, como não cresceria sem cessar? 

Já, entre os homens, a amizade aumenta, quando habitualmente se vêem, se falam ou conversam. No entanto, salvo raras e nobres exceções, à medida que melhor se conhecem, são defeitos e não qualidades que se descobrem mutuamente. 

Deus, porém, quanto mais O conhecerdes, mais pensardes nEle, mais reavivardes em vosso coração a lembrança de Suas graças, de Seu amor, de Sua grandeza e de Seus benefícios, mais sereis atraídas para Ele por doce e irresistível força. 

Pelo hábito de vos colocardes sob Seu olhar, de viver em Sua presença, entre vós e Ele, entre vossa alma e Deus, formar-se-á uma união íntima e profunda que dia a dia irá crescendo. 

A oração da manhã e da noite, a meditação, a leitura, os exercícios de piedade não são suficientes para aumentar o amor. “A água ferve no fogo, diz são João Crisóstomo; mas, se a retirardes, logo se esfria.” Para não deixar que o amor se esmoreça, é necessário pensar na presença de Deus, renovar com freqüência, no coração, os atos de fervor e conservar, constantemente, a alma orientada para o céu, como o girassol, esta flor que sempre dirige a corola para o lado do sol. 

“Quando amamos, diz santa Teresa, sem cessar pensamos no objeto amado e, assim, o amamos cada vez mais.” 

O pensamento de Deus vos fará crescer e progredir rapidamente no amor e na perfeição, porque, em pouco tempo, vos conduzirá à simplicidade. 

(A Simplicidade segundo o Evangelho por Monsenhor de Gibergues, 1945)

PS.: Agradeço a um amigo o envio do texto. Deus lhe pague!
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