sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

FRUTOS DA SIMPLICIDADE


Virtude tão relevante, de tanto valor, que é como se fosse a substância da Escritura e do Evangelho, o próprio espírito da nova religião ensinada pelo Cristo, não podia deixar de tornar-se fecunda. E, na ver­dade, são admiráveis os frutos da simplicidade.

Demonstra-os o Evangelho e assim os resume: "Se vosso olho é simples, todo vosso corpo será luminoso; mas, se vosso olho for mau, todo vosso corpo ficará escuro."

Estas palavras nos trazem dois ensinamentos pre­ciosos e muito práticos.

Em primeiro lugar, é impossível agradar a Deus sem a simplicidade, ao menos em certo grau; pois, se os homens vêem as aparências, "o Senhor olha o cora­ção” (I Reis, XVI,7) isto é, a intenção que nos faz agir.

Se sois escravas da opinião alheia, dos preconcei­tos, do respeito humano, se vos deixais influenciar por uma palavra, um olhar, um sorriso, se agis para o mundo não podereis agradar a Deus, já não sois cristãs. “Se eu quisesse agradar aos homens, dizia São Paulo, não seria servo de Cristo." (Ep. Gal., I, 10)

Mesmo aquilo que intrinsecamente é lícito, sem a simplicidade não poderia agradar a Deus.

De acordo com a recomendação do divino Mestre: "Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos ho­mens, com o fim de atrair os olhares e merecer lou­vores", pois assim "já tereis recebido a vossa recom­pensa." (São Mateus, VI, 1)

Da mesma sorte, se agis por egoísmo, por amor próprio, por vã complacência ou satisfação pessoal, se, em resumo, vos atribuis o bem que fazeis ou as virtudes que praticais, já tereis perdido o merecimento aos olhos de Deus, "tudo colocastes num saco roto." (Aggeu, I,6)

Mesmo que vos entregásseis a múltiplas preces, a longas meditações, que fizésseis freqüentes comunhões, "mesmo que, como diz o Apóstolo (Ep. aos Cor., XIII, 2-3), tivésseis o dom da profecia e da ciência, e ainda que distribuísseis todos os bens aos pobres, entregásseis o corpo para ser queima­do", e mesmo que conseguísseis a admiração de todos pelas obras de caridade que praticais, se fazeis tudo isso para vós, se vossa intenção visa unicamente a vós, "se não tiverdes a Caridade" que só purifica a intenção, "tudo isto em nada vos aproveita", tudo está perdido para Deus e para vossa salvação. Vosso olho não é simples, vosso corpo não pode ser luminoso.

E mais, se nenhuma ação pode agradar a Deus sem que seja inspirada pela simplicidade, a ação mes­mo intrinsecamente boa torna-se má quando a inten­ção é má: "Se vosso olho é mau, todo vosso corpo fi­cará escuro."

Na realidade, o Evangelho nos recomenda que "deixemos brilhar a nossa luz diante dos homens para que vejam nossas boas obras"; acrescentando, porém: "para que glorifiquem o Pai que está nos céus." (São Mateus, V,16)
Devemos edificar o próximo por palavras, obras e ações; mas que isto não nos sirva de pretexto para a vaidade: "nossa intenção, diz são Gregório, deve estar oculta." (Homilia II o Evangelho de S. Mateus, leit. VII, cap.13) Tudo devemos atribuir a Deus e à Sua glória e não a nós.

Se é a nossa glória que procuramos e não a de Deus, aos olhos dEle o próprio bem se transforma em mal. É o que exprime São Vicente de Paulo com estas palavras: "Seria melhor que fossemos lançados de pés e mãos atados sobre brasa, do que fazer uma boa ação movidos pela vaidade."

Pela simplicidade, ao contrário, tudo se ilumina, tudo se transforma, tudo se torna belo e bom, tudo agrada a Deus.

Se vos inspira o sentimento do dever, se tendes em vista o bem das almas e, a glória de Deus, se pro­curais sinceramente a vontade do Pai que está nos céus, então tudo o que fazeis adquire valor sobrena­tural.

No dizer do Apóstolo: "se é santa a raiz, também os ramos o são." (Ep. Rom., XI, 16.) Os deveres de estado, os exercícios de piedade, as boas ações, as relações de família, as tristezas, as alegrias, as provações, os sofrimentos, a solidão, a inação forçada, em última análise, tudo, sem exceção, se torna santo e agradável a Deus pela pureza de intenção: "Se vosso olho é simples, todo vosso corpo será luminoso."

Quando o olho é simples, isto é, sem defeito e sem mácula, quando é sadio, a luz o penetra e ilumina bem todo o corpo e todos os movimentos.

Da mesma maneira, quando a alma é simples, isto é, sã, a luz divina a penetra. Podeis ver a Deus, compreendê-lO, tudo fazer nEle e para Ele: todas as vos­sas palavras, ações e pensamentos tornam-se bons e santos.

Ó admiráveis frutos da simplicidade! Ó sublime efeito da pureza de intenção!

As coisas deixam de ter valor próprio; valem ape­nas pela intenção que as inspira. Aos olhos de Deus, as duas pequenas moedas lançadas no cofre do templo pela pobre viúva do Evangelho pesam mais do que as grandes somas lançadas pelos ricos (São Marcos, XII, 41); e um copo d'água dado em nome de Jesus Cristo é o preço da eternidade. "Que importa, pois, diz santo Agostinho, que seja pe­quena a vossa bolsa? Muito podeis dar com o coração e a vontade, tudo fazendo só para contentar a Deus."

Até as ações mais vulgares e materiais podem tornar-se espirituais e santas. Como diz São Paulo: "Se comeis ou bebeis, fazei tudo para a glória de Deus." (I Ep. Cor., X, 32)

Afinal, aos olhos de Deus a intenção é dotada de tal valor intrínseca, que somente o desejo, quando sincero e verdadeiro, é julgado como o próprio ato.

Tenho a firme intenção de fazer um ato de carida­de; entretanto sou impedido por circunstâncias alheias à minha vontade. Minha intenção, aos olhos de Deus, tem o mesmo valor que a obra, pois a teria realizado caso de mim dependesse.
Dai se conclui a extrema importância das santas aspirações na vida espiritual e as incalculáveis rique­zas que podemos adquirir ao formulá-las.

Conta Santa Maria Madalena de Pazzi que viu São Luís de Gonzaga no céu, extraordinariamente, glorificado. E, como se admirasse de que um santo, que vi­vera tão pouco tempo, houvesse adquirido tantos mé­ritos, Deus lhe fez compreender que Luís conquistara essa glória excepcional pela intensidade e o ardor de suas aspirações, isto é, pela admirável simplicidade e pureza de suas intenções.

É pela simplicidade que "o justo, em pouco tem­po, enche a carreira de uma longa vida" (Sabedoria, IV, 13), pois vive unicamente para Deus e só se preocupa em agradar-Lhe.

A simplicidade transforma nossa vida em constante homenagem a Deus, sobrenaturalizando e santificando nossos atos, palavras e pensamentos, nossos desejos mais secretos e os menores movimentos do coração.

A simplicidade produz ainda outros frutos admiráveis.

Concede à alma dois bens excelentes, que, no dizer de Santa Teresa, são indispensáveis àqueles que se iniciam na vida espiritual: a alegria e a liberdade de espírito.

A mais generosa das almas, quando não é simples, atormenta-se, agita-se e facilmente se desalenta.

A própria generosidade muita vez é causa de escrúpulo e, sob pretexto de delicadeza, ilude-lhe a consciência. “Estarei enganada? Ter-me-á Deus perdoado? Será este o meu dever? Estarei no bom caminho?” Continuamente, formula mil perguntas que a perturbam e a desorientam.

A auto-análise prejudica-lhe a visão clara das coisas. Não tarda a cair em profunda tristeza e fatal desânimo.

Esses perigos não existem para a alma simples, porque olha a Deus mais do que a criatura e se coloca acima de tudo o que confunde, fatiga e exaspera aquela que não é simples.

Como exemplo da primeira, o Evangelho nos apre­senta Marta, agitada, apressada e sobrecarregada de ocupações. A alma simples é representada por Maria, serenamente sentada aos pés do Mestre, bebendo-Lhe as palavras e só pensando em agradar-Lhe. A alma simples encontrou "a melhor parte, a única coisa ne­cessária:" pertence exclusivamente a Deus.

Está sempre calma e tranqüila, não se preocupa consigo, não dissimula nem é hipócrita, não conhece subterfúgios, duplicidade ou respeito humano. Fala como pensa, tem o coração sempre aberto; segue dire­tamente seu caminho sem agitação ou inquietude; tem o espírito livre, o coração cheio de paz e alegria. A derrota, o desprezo, a maledicência, as provações, até as próprias quedas, pecados e imperfeições, nada no mundo pode perturbá-la. Encontrou: "a paz que Jesus dá... a alegria que ninguém pode tirar."

Num drama moderno, narra-se a história de uma princesa que não era feliz, embora morasse num cas­telo maravilhoso e vivesse coberta de diademas, jóias, pedras preciosas e adornos suntuosos: sua alma tinha aspirações mais elevadas; material e moralmente sen­tia-se esmagada pelo luxo que a cercava. Um dia, ao sair com tão brilhante aparato, encon­trou um bando de pobres andrajosos: homens, mulhe­res e crianças, pálidos e famintos. Comovida e apiedada, teve súbita inspiração e, num generoso impulso, dis­tribuiu entre os infelizes os tesouros e objetos precio­sos que a adornavam, exclamando: "Ah, como agora me sinto leve e feliz!"

A simplicidade desembaraça a alma do peso, às vezes esmagador, das coisas mundanas: liberta-a das vãs preocupações, tão difíceis de suportar. Torna a alma leve, independente e alegre. Outro efeito da simplicidade é fazer-nos sinceros, e mais ainda cortar pela raiz o mais temível dos males para o progresso da alma: a ilusão.

Referindo-se às ilusões (Conférences Spirituelles, Illusions) Padre Faber, esse pro­fundo psicólogo, depois de nos haver mostrado a extensão da ruína que causam no domínio da vida espi­ritual, declara que a simplicidade é o único remédio para esse mal terrível e universal.

As almas que mais se analisam não são as que melhor se conhecem nem, principalmente, as que mais depressa se corrigem. O repetido exame de uma ferida, para observar-lhe a cura, caba por piorá-la pela irritação.

Ao contrário, a alma que olha Deus, prontamente, atinge ao conhecimento de si mesma e, melhor ainda, consegue renunciar-se inteiramente.

Deus é verdade: contemplando-O sem cessar, a alma torna-se semelhante a Ele. A alma simples se conhece ao primeiro olhar; e quando, em horas de fadiga e esquecimento, acontece-lhe roçar a terra, assim que o percebe, ergue-se num bater de asas e sobe depressa às mais altas regiões, donde descera num momento de negligência.

A alma simples se conhece porque conhece a Deus, que é pura luz e que lhe esclarece a consciência. À medida que procura e ama a Deus, aprende a des­prezar-se e a fugir de si mesma.

Quando sincera, a alma simples é também gene­rosa para vencer-se. A maioria de vossos defeitos provém da falta de simplicidade. Se vos deixais levar pela inveja e pelo ciúme, se estais inquietas, atormentadas por desejos violentos, por afeições humanas demasiado absorven­tes, colocai-vos do lado oposto à simplicidade, pois somente olhais a criatura, enquanto a simplicidade contempla a Deus.

A simplicidade torna a alma generosa; unifica-lhe as ações, fortifica-lhe a coragem, aquece-lhe e aviva-lhe o ardor. Impele-a aos mais nobres empreendimentos e jamais permite que se canse. Da mesma forma que a pomba ao cortar o espaço nos dá a impressão de não mais se esforçar, parece que nada custa à alma simples, e que Deus a conduz e Ele próprio realiza tudo o que ela faz de grande: fecit mihi magna qui potens est... Porque me fez grandes coisas, o que é Todo-Poderoso (São Lucas, I, 49).

A simplicidade edifica o próximo, porque é a ori­gem do bom caráter, da serenidade, da benevolência, da afabilidade, de todas as virtudes atraentes e agradáveis que encantam e repousam, inspiram confiança e fazem verdadeiro bem.

A alma que não é simples tem sempre algo de egoísta e de pessoal, que transparece involuntariamente e transpira na aparência, nas atitudes, nos gestos, nas palavras e nas ações.

A alma simples nos desorienta, tão grande é a sua humildade e abnegação. Faz-nos sentir e encontrar a Deus. Junto dela, estamos em segurança. Não a podemos ver e dela nos aproximar, sem que nos tornemos melhores. A alma simples não tem conhecimento do bem que faz ou se admira de o haver praticado. E este bem é tanto maior quanto menos o percebe, crescendo, ainda, à medida que ela se identifica com Deus. Todas as suas obras são abençoadas, porque feitas no espírito de Deus e pelo Seu amor.

Enfim, é inexprimível a alegria que a alma simples dá a Deus e a glória que Lhe procura. Porque faz constantemente a vontade de Deus em todos os momentos do dia e da noite, santifica Seu nome e aumenta Seu Reino.

Até seu repouso e seu sono tornam-se um hino em louvor ao Altíssimo, pois se “dorme, seu coração vigia” (Cântico V,2), sempre, com perseverante pureza de suas intenções.

Casta pomba, ela arrebata sem cessar o coração do divino Esposo; e, depois de haver esvoaçado o dia inteiro, repousa e estabelece a sua morada na santa chaga que Ele recebeu por nosso amor.

(A Simplicidade segundo o Evangelho, Instruções às senhoras e jovens por Monsenhor de Gibergues, 1945)

PS.: Grifos meus.
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