sábado, 5 de novembro de 2011

Maria e a Simplicidade

Maria e a Simplicidade


 A Simplicidade segundo o Evangelho
 por 
Monsenhor de Gibergues 
1945 

Se Jesus é o sol da simplicidade, Maria é o Seu espelho sem mácula. 

Sendo a Mãe e o Filho semelhantes em todas as coisas - exceção feita da divindade de Jesus - como não o seriam principalmente neste ponto essencial? 

Como contemplar Maria sem ver refletir-se em Sua alma virginal a simplicidade de Jesus? 

Maria é simples desde o primeiro quê da razão e das faculdades. Vai diretamente ao templo e diretamente a Deus. Dá-se espontaneamente, sem nunca mais retomar-Se, voltar para trás. Ela prende a Deus, Ela não mais O deixará. 

Maria não conhece a introspecção, a consideração pessoal, não se preocupa com a criatura, a opinião pública, o julgamento dos homens. Em todas as coisas só vê a Deus. 

No templo, Sua vida é um anelo para o Criador, uma aspiração para Deus. Deus não é conhecido, não é honrado, não é amado. Milhares de criaturas esquecem-se de seu Criador e Pai. Ultrajam-nO a, todo momento do dia e da noite. Horrível, audacioso, de todas as partes do mundo, o pecado surge, multiplica-se de maneira assustadora, obscurece a glória de Deus! 

Eis a dor de Maria, Sua perpétua angústia! Ela implora o Messias, chama-O com todo o poder dos Seus desejos, com todas as energias do coração, com todo o ardor da alma abrasada de amor: "Ó Deus, diz Ela, enviai, pois, Aquele que deveis enviar; ó Deus, glorificai-Vos no Messias! ó Deus, não tardeis mais, apressai a hora de Vosso triunfo!" Esta é a prece de Maria, toda impregnada de simplicidade. 

Sua oração atravessa as nuvens, domina o grito dos pecados do mundo, sobe até à eternidade e é ouvida. Graças a Ela, chega a hora da libertação. 

Portador da sublime mensagem, o anjo Gabriel é enviado por Deus à humilde Virgem de Nazaré. 

Em Sua simplicidade Maria não Se assusta ao ver um anjo; mas Se admira e Se perturba com as palavras que ouve. A mesma simplicidade que A levava a desejar a vinda do Messias afastava-A do pensamento de que um dia pudesse tornar-Se mãe dEle. Ao contrário de todas as mulheres de Israel que ambicionavam a maternidade, na esperança de que delas ou de sua nação nascesse o Messias, Maria havia formalmente renunciado, por um voto, a essa magnífica esperança. 

A simplicidade escondia-Lhe todas as virtudes e todas as perfeições. Eis por que se perturba e não compreende. 

Mas, quando o anjo Lhe anuncia o desígnio e a vontade de Deus, essa mesma simplicidade impede-a de solicitar maiores explicações ou de Se recusar como indigna; e, sem hesitar um instante, fechando os olhos a toda consideração que não seja a de agradar a Deus, responde: "Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa palavra." 

Onde se poderia jamais encontrar simplicidade mais pura, mais pronta, mais generosa, mais semelhante à de Jesus? 

A simplicidade caracteriza-se por não ambicionar honra alguma, nem mesmo pensar nisso; mas simplicidade maior ainda é aceitar sem consideração pessoal as honras e os encargos, desde que nos sejam dados por Deus. Só então a alma está isenta de todo amor próprio, inteiramente desapegada de si mesma e toda perdida em Deus, a quem procura apenas por Ele. 

No entanto, José ignora o plano divino: nada sabe ainda do que se passou entre o anjo e Maria. Fica admirado e escandaliza-se com o que observa; até "cogita devolver secretamente a esposa." 

Que prova para a simplicidade de Maria! Irá Ela deixar que José continue a ter essa suspeita injusta e ultrajante, quando poderia dissipá-la com uma palavra? Irá Ela abandonar a confiança que deposita unicamente em Deus e recorrer a um meio humano, embora permitido, para justificar-Se e pleitear a própria causa? 

Vence a simplicidade! Maria poderia falar sem cometer falta alguma, mas não fala. Deus tudo fez nEla e, por isso somente conta com Ele. Sua esperança não é enganada, sua simplicidade é recompensada. Deus toma a defesa de Maria e envia a José um anjo, que tudo lhe explica. 

Nunca é vã a confiança das almas simples. Quanto mais se abandonam totalmente a Deus, mais Deus zela por seus interesses. 

Maria é simples quando, impelida pela graça, vai ao encontro de Isabel, fazendo-a partilhar de Sua felicidade. Não nega coisa alguma do que se passou: relata os fatos como são. Mas nada se atribui, tudo atribui a Deus: "É o Todo-Poderoso que fez em mim grandes coisas." 

Maria é simples quando, a uma palavra do Anjo, parte com José para o Egito, desprezando os perigos da viagem e as incertezas do futuro. Simples em Nazaré, onde durante trinta anos deixa que os homens ignorem a honra que Lhe foi dada. Simples, quando Jesus deixa de morar com Ela para começar a vida pública. Não O impede de partir, não obstante a Sua profunda dor, pois sabe que Deus assim o quer. 

Lembra-Se da profecia de Simeão; começa a sentir que a ponta da espada já Lhe toca o coração: prevê terríveis provações. Mas vê tudo em Deus: a simplicidade dá-Lhe a coragem de tudo aceitar generosamente. Simples, oh! como Maria o é durante a Paixão de Seu Filho! 

Acima dos próprios sofrimentos, acima da torrente de amargura que Lhe enche a alma, acima até das dores atrozes que padece Seu Jesus bem-amado, vê a divina vontade, a eterna justiça que brilha e resplandece, a infinita misericórdia que se expande; vê nossas almas resgatadas, salvas; e, acima de tudo, vê Deus conhecido, amado, exaltado, Deus para sempre soberanamente glorificado! 

Esse olhar de Seu coração, que não se desvia de Deus, ampara-A, impede-A de desfalecer e A faz consentir com toda a alma e toda a liberdade nos sofrimentos e na morte de Seu Filho. Esses sofrimentos e essa morte, Ela os quer, porque Jesus os quer, porque Deus os quer. E, sacerdote desse grande sacrifício pela redenção do mundo, Maria oferece Jesus ao Pai, para essa imolação suprema que deve garantir, pela eternidade, o triunfo e a glória de Deus. 

Simples, Maria se conserva até o fim da vida. 

O que vê na ressurreição, o que A cumula de felicidade, é menos a alegria pessoal do que a entrada das almas no céu em companhia de Jesus, e todos os louvores que Deus vai receber até o fim dos séculos dessa multidão de eleitos. 

E quando, ao subir ao céu, Jesus A deixa neste mundo, entristecida, ainda por longos anos, não se queixa, não indaga a razão, não alega direitos. É bastante que Deus o queira, para que também o queira de todo o coração

Sofre, fica com o coração dilacerado; mas é feliz e contente, porque, sendo simples, esquece a própria dor para ver apenas a glória de Seu Filho e a glória de Deus! 

Simplicidade tão perfeita faz com que mereça a maior das recompensas. Quando chega a hora marcada por Deus, do alto Jesus a chama, dizendo: "Vem, vem, ó minha pomba, minha perfeita, minha única; vem, que eu te coroe!"1 E Maria lança-Se para Seu divino Filho. Até Seu corpo, unido à alma, é levado aos céus pelos anjos. Pela simplicidade, ultrapassou todas as criaturas; e, agora, pela recompensa, também as ultrapassa. É Ela quem está mais próxima de Jesus na glória, acima de todos os anjos, de todos os serafins, de todos os eleitos. 

Neste mundo, a simplicidade havia tornado a união entre Maria e Jesus, entre Maria e Deus, tão perfeita quando possível. No céu, a união entre Maria e Jesus, entre Maria e Deus, consumou-se para sempre. Por toda a eternidade, Maria permanece, "a pomba de Deus, Sua perfeita, Sua única!"2

Ó Maria, sede para nós o espelho da simplicidade! Se, em Jesus, o brilho da simplicidade por demais nos deslumbra, que, suavizado por Vós, nos encante e arrebate sem nos atemorizar! Prendei-nos cada vez mais à simplicidade, e, por meio dela, a Vós, a Vosso divino Filho e a Deus, para que mereçamos nos encontrar com Eles no céu, na santa unificação da felicidade que não mais será perturbada!

1- Cântico.
2- São Jerônimo aplica a Maria às palavras do Cântico: "Vem, minha pomba, que trazes, para nós, o fruto da oliveira e Aquele que nos salvou do dilúvio universal." 

PS.: Grifos meus.