segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Prática da Simplicidade no Mundo

PRÁTICA DA SIMPLICIDADE NO MUNDO


A Simplicidade segundo o Evangelho
por
Monsenhor de Gibergues
Título original
LA SIMPLICITÉ D’APRÈS L’ÉVANGILE

 No mundo, a simplicidade é como a marca que distingue a verdadeira cristã

Certo, o espírito do mundo é um espírito de duplicidade e de mentira

Quanta mentira e duplicidade sob as aparências! Quanta vilania, quanta baixeza, quanta abjeção se ocultam nas atitudes polidas, corretas e elegantes! Cada qual se dissimula e ilude; usa a máscara, querendo parecer diferente do que é. 

Que eterna contradição entre as palavras e os sorrisos que afloram aos lábios e os sentimentos que vivem no coração! 

Lisonjeia-se por vaidade, incensa-se por interesse aqueles de quem se espera obter qualquer proveito, mas a quem, na verdade, se inveja, despreza e detesta.

Profanam-se as palavras sagradas: coração e amor. 

Com elas encobrem-se as mais perigosas liberdades, as mais desprezíveis vaidades, os mais abjetos prazeres! 

O mundo que Cristo condenou, quando disse "que está todo possuído pelo mal" e pelo qual "não podia rogar", é o antípoda da simplicidade. Aí se encontram todas as extravagâncias, defeitos e hipocrisias. 

Se quiséssemos fazer comparações opostas ao Evangelho, diríamos que algumas reuniões são estranhas assembléias de pavões, que andam à roda para serem admirados: - de papagaios, que ao acaso repetem, sem compreender, aquilo que ouviram; - de pegas, que, num irritante tagarelar, espalham palavras ásperas e más; - de abutres, que devoram a honra e a reputação do próximo; - de corvos, que se repastam de ignomínia; - de cotovias; versáteis e inconstantes; - de galinhas e patos, que, com algazarra, se extenuam e se arrastam na vulgaridade e na mediocridade; - enfim, de toda a espécie de aves, que simbolizam os vícios, as baixezas e os pecados. 

Dessas assembléias, só está ausente a pomba, a simplicidade do Evangelho. Se, porventura, aparece é porque está representada pela pessoa de uma verdadeira cristã. 

Também, quando a encontramos, como destoa do ambiente, como é repousante, como nos faz bem! 

Quem é simples é fundamentalmente sério e sensato, e, por isso, não fala sem refletir, nem fala demais. Não tagarela, não lisonjeia, não ofende, não engana, não se exibe. 

Mostra-se tal qual é e diz o que pensa. No fundo do coração, encontra sempre a benevolência e a caridade, porque vê o próximo em Deus e Deus no próximo. Nunca fala nem pensa mal de alguém. Não é indiferente nem insensível àquilo que interessa aos outros; muito pelo contrário, ama-os de todo o coração porque assim o manda Deus. 

Quem não é simples, quando ama ao próximo, é somente a si que procura. Quem é simples, no amor ao próximo, vê mais a este do que a si e mais a Deus do que ao próximo. Ama-o como Deus o ama, isto é, com o amor mais puro e mais perfeito.

Tem horror ao pecado: mas, como o divino Salvador, não desdenha nem despreza os pecadores. Embora indulgente e bondosa para com todos, evita sempre parecer encorajar e aprovar o mal e os que o praticam.

Como todos, está sujeita à tentação, mas não se deixa vencer por ela: dentro de si mesma, combate e reprime o que não deve transparecer. É simples, porque suas palavras revelam o seu coração.

Atenta em agradar a Deus, é inteiramente pura, quer em suas conversas ou atitudes, quer em sua maneira de trajar: sempre natural e verdadeira, tem os sentimentos sempre justos e caridosos, pois são os próprios sentimentos de Deus, o qual em todas as coisas lhe servem de modelo.

Enfim, sabe guardar segredos; é perfeitamente discreta, sem deixar de ser simples, pois a discrição não se opõe à verdade.

Assim, reserva e sinceramente, humildade e pureza, caridade e delicadeza, doçura e bondade, todas as virtudes que uma cristã deve praticar no mundo, florescem naturalmente na alma simples.

Por isso, inspira a todos absoluta confiança. Sentimo-nos atraídos e impelidos para ela. A simplicidade confere-lhe ascendência moral e autoridade de que se serve para fazer o bem.

Tanto tem a mulher mundana de provocante nas atitudes e no trajar, quanto a mulher simples tem de modéstia na pessoa e nas vestes.1 Deus parece refletir-se em sua fronte, seus olhos e suas maneiras.

Como contempla Deus, assim Deus a contempla e “faz brilhar sobre ela a luz da sua face”. É bela de uma beleza que não é deste mundo: a simplicidade é o seu único adorno.

Oh! a beleza deste mundo, deusa impiedosa e impura a quem as mulheres sacrificam tanto tempo, tanto dinheiro, tantas nobres qualidades, e, muitas vezes, até a alma e a eternidade ... , a simplicidade a destituirá de seu pedestal e fará com que a desprezeis como se fosse a escória do mundo e que dela fujais, receando-a tal como veneno perigoso e mortal. 

Se fordes simples,2 temereis a beleza do mundo como um perigo para vós, uma armadilha para os outros, um artifício e um embuste de Satanás, um instrumento de pecado e de perdição. Se fordes simples, apaixonar-vos-ei por outra beleza, perto da qual todas as belezas do mundo reunidas valem menos do que um fogo-fátuo comparado ao sol: a beleza superior que provém da virtude e que é a habitação de Deus na alma e seu reflexo no rosto; a beleza que é composta de humildade e doçura, de delicadeza e bondade, da modéstia e graça, de caridade e abnegação: a beleza que vos torna semelhantes ao Cristo, inspira respeito e confiança, afasta os maus pensamentos, atrai e encanta para elevar a Deus.

Notas:

1- “Quero que a minha devota seja a mais gentil e a mais preparada dentre as companheiras, contanto que o seja com simplicidade e bom gosto.” (São Francisco de Sales)

2- "É ridicularizada a simplicidade dos justos. Eis a sabedoria do mundo: dissimular o fundo do coração, esconder o pensamento nas palavras, mostrar como verdadeiro o que é falso e como falso o que é verdadeiro. Essa iníqua duplicidade é apreciada e com outro nome mascarada, pois chamam de urbanidade o que não passa de perversidade de espírito. Os escravos desse vício vêem-se obrigados a procurar as maiores honras, a buscar a alegria e a vaidade na glória temporal, a retribuir o mal com usura; e, quando são bastante fortes, a nada ceder aos outros; e, quando lhes falta força, a simular bondade pacifica para suprir a tudo que pela malícia não podem realizar. 

Ao contrário, eis a sabedoria dos justos (traduzi a simplicidade): nada aparentar que não seja verdade; falar de acordo com as próprias idéias, amar o que é verdadeiro, evitar o que é falso; fazer o bem gratuitamente, preferir suportar o mal a fazê-lo; não procurar vingança por injúrias recebidas; considerar um privilégio ser ultrajado por amor à verdade

Mas é ridicularizada essa simplicidade dos justos, pois os sábios do mundo consideram loucura a pureza de intenção. Tudo o que é feito com inocência parece-lhes manifesta insensatez; e toda obra aprovada pela verdade apresenta-se como fatuidade à sua sabedoria carnal. Que haverá de mais insensato aos olhos do mundo do que falar como se pensa, nada dissimular com hábeis maquinações, não retribuir a injúria, com injúria, orar por aqueles que nos amaldiçoam, procurar a pobreza, renunciar aos bens e não resistir àqueles que vos exploram, oferecer a outra face àqueles que nos batem?"
 (Livre des Morales, são Gregorio, Papa.) 

PS.: Grifos meus.