terça-feira, 10 de maio de 2011

Vocês e vosso futuro

Vocês e vosso futuro


Quando ainda pequenas, vocês procuravam, entre suas companheiras, adivinhar o futuro, enquanto desfolhava com os dedos os mal-me-queres.

E assim contavam:

“Eu te amo... um pouco... muito... nada...

“Irei... para o céu... para o purgatório... para o inferno...

“Ele (o marido)... será grande... médio... pequeno...

“Ficarei casada... religiosa... solteirona...”

E sempre contavam de três em três, como as folhas do trevo.

Casada... religiosa... solteirona!

E não há outra escapatória! A menos que você morra cedo (o que não espero que aconteça), será voluntariamente ou a força: ou casada como santa Isabel – com o avental cheio de rosas; ou religiosa como santa Teresa – com o véu, ou solteirona como santa Catarina – com seu chapéu.

Qual é o mais glorioso dos três; o avental? O véu? Ou o chapéu? Esta é a situação a ser resolvida. Antes de tudo, porém, é preciso que você saiba que uma das três você deve escolher e, caso ainda não esteja em condições para fazer essa escolha, por uma delas se deve decidir e resignar-se.

Não existe uma quarta porta por onde entrar para enfrentar a vida. Nem tão pouco um quarto caminho a percorrer na vida. Com a graça de Deus, os três caminhos podem conduzir ao Paraíso e, do mesmo modo, os três caminhos podem levar ao cemitério...

Casada

Existem sinais desta vocação?

Não é necessário que existam, porque é a vocação mais comum, aquela para qual a natureza chama, quando não há outra indicação. Normalmente, é para ela que a vida leva. Deus quer que a humanidade perdure, que as gerações se sucedam até que esteja completo o número dos eleitos. E, porque o deseja, quer que exista o amor que a ela conduz e o casamento que a realiza.

Se, pois, uma jovem não traz consigo os sinais de uma vocação religiosa; se não possui defeitos físicos ou morais que obriguem a abster-se; se obrigações de família não a convidam, num sacrifício generoso, a renunciar ao seu grande amor humano; se não sente para o matrimônio seus encargos e suas surpresas, uma repugnância difícil de vencer; se, de um modo ou de outro, não tem a certeza de que Deus a chama para praticar a virgindade no mundo por meio das obras sociais; pode-se dizer que esta jovem foi feita para o casamento.

Mas isso não quer dizer que ela deverá casar-se sem mais nem menos, porque, para que haja casamento, é preciso que haja dois. É preciso, pois, que exista um segundo que a queira e a escolha.

De antemão, que pensar do casamento?

1º- É preciso acreditar na sua grandeza

Uma jovem nunca deve rir do próprio casamento nem do casamento de uma de suas companheiras. Nunca deve referir-se a eles de um modo leviano. Nunca deve ridicularizá-lo.

Porque nunca se deve ridicularizar o que é nobre, e o casamento o é.

Jesus Cristo refere-se a ele com respeito. São Paulo refere-se a ele religiosamente e, para a Igreja, é sacramento.

Sem dúvida os que zombam de tudo que existe, também zombam dele. Mas quem são eles? Que valem? Será a essas pessoas que se deve pedir explicações? É de acordo com elas que se deve formar o juízo?

É pelo amor que se realiza o casamento. Ora, o amor, para quem o conhece, é uma sublime realidade. Tanto pior para quem o insulta!

É por meio do casamento que nascem as crianças. Ora o nascimento de uma criança é o nascimento de uma alma imortal, a mais emocionante criação que existe.

É no casamento que as crianças se criam, se educam, que seu futuro se orienta, que se prepara seu destino terrestre e eterno. E, por acaso, isso nada representa? Se não for nada de importante, que será então?

Uma jovem que se refere ao casamento de um modo pouco lisonjeiro dá uma péssima impressão de si mesma. Demonstra o quanto é incapaz e indigna! Se mais tarde, uma vez casada, só encontrar em seu estado civil humilhações e escravidão, e o casamento zombar dela como ela também o fez um dia com ele, quem se espantará? Ela tem o que merece. Foi castigada por seu próprio pecado.

Uma das infelicidades de nossos tempos, digamos melhor, uma das suas tristezas, é a incrível facilidade com que os jovens falam do casamento, como falariam da queda de uma fruta do seu pomar. Para elas, uma “toillete” é mais importante que um casamento! Um baile tem mais importância! A escolha de um marido é menos grave do que a escolha de um batom que se vai comprar numa perfumaria...

Essas jovens não são cristãs. Como hão de ser tão inconscientes para diminuírem a importância de uma coisa tão grandiosa!

- É preciso pesar os deveres

Os deveres do casamento são graves

No casamento não se faz o que se quer. Ele não é realizado como bem se entende. Deve ser feito de acordo com a vontade de Deus e realizado conforme Ele prescreveu.

Mas também a natureza tem seus direitos sagrados. Deus tem suas intenções, que é preciso conhecer, para com elas nos conformarmos.

O casamento deve ser mantido pela dignidade moral

Não é um rótulo novo cobrindo uma mercadoria suspeita. Não é o consentimento de tudo fazer, tudo ousar, como se tivesse o poder mágico de transformar o mal em bem. Não é o sacrifício, aceito pela jovem, de sua pureza, de seu pudor, de sua delicadeza íntima. À sombra do sacramento não é a vida de pecado sucedendo à vida intacta. No casamento, a alma deve prosseguir em sua vida nobre; a consciência conserva seus direitos e mantém seu prestígio. Para que, depois do casamento, a jovem esposa não venha a lastimar a moça que era, é preciso que, antes do casamento, a moça não se envergonhe da mulher que será.

O casamento é uma longa prática da fidelidade

A promessa feita diante do altar, no momento da troca das alianças, tem longa duração. Dura enquanto durar a vida do outro cônjuge. Num sentido, dura até a eternidade.

O amor que se inicia nesse dia deve querer ser definitivo. Não é como a folha da primavera que a gente se resigna a ver cair logo no iniciado o outono. É a folha eternamente verde das árvores sempre vivas.

A dizer verdade, é uma fidelidade bem rigorosa! Tão difícil! Tão ameaçada! Tão entregue à sedução dos maus! Tão exposta nos encontros imprudentes da vida mundana! Tão espreitada, nas esquinas, pelo prazer que atrai, pelos amores que se oferecem! Talvez tão esmagadora quando a alma, cansada do próprio esforço, esgotada pelas decepções, percebe que seu amor é incompreendido ou traído, que seu mérito não é reconhecido, que ela sempre dá sem nada receber, que, sozinha, carrega os grilhões de que o outro já se desvencilhou e que agora, tristemente, desoladamente, a fidelidade dos dois se transformou na fidelidade de um só...

O casamento é um dever de sinceridade

Se não se mente ao contratá-lo, não se deverá mentir ao praticá-lo.

Não se trata de salvar as aparências nem de, sob um manto cuidadosamente estendido, encobrir hipocritamente os adultérios do coração. Deus olha. Ele de tudo sabe. Ele sabe se se ama de fato ou se simula um amor que não possui. Ele sabe quando o coração não diz “sim” as confissões dos lábios. Ele sabe para onde se dirigem secretamente os sorrisos, os desejos íntimos, os olhares furtivos, os pensamentos habituais.

A mulher cristã deve a Deus, a seu marido, deve a si mesma a obrigação moral de não brincar com coisa tão séria e, por muito que lhe custe, deve manter-se leal ao seu amor, defendendo-se contra a tentação contrária.

O casamento é uma dedicação que perdura

É uma dedicação porque traduz amor.

Que é amor? Será sorrir? Entregar o lábio para um beijo? Procurar-se? Sentir-se feliz com o encontro? Bastar-se um ao outro? Não, se pára aí. Sim, se lhe adiciona outra coisa.

Outra coisa que é essencial.

Amar alguém é querer vê-lo feliz, legitimamente feliz. É tudo fazer para que assim seja. Tempo, dinheiro, sorrisos, cuidados, cansaço, sono, saúde, alegria, vida, quem ama dá tudo isso para que o outro se sinta feliz.

Praticamente, e, se tratando de amizade, de amor maternal, de amor conjugal, amar é dedicar-se, é ser capaz de se dedicar indefinidamente, variando a medida da dedicação com a medida do amor.

O casamento é uma enorme responsabilidade

No casamento, a mulher, que é esposa, é parcialmente responsável por seu marido.

A ela cabe o cuidado de sua alma. Deus pedir-lhe-á contas dos conselhos que eficazmente ela lhe poderá dar, do exemplo vivo que ela deverá ser para ele.

Para o homem, a vida é difícil. Ele paga caro sua integridade moral. Tem que lutar contra si mesmo, sofrer concorrência em matéria de negócio. Muitas vezes o mutismo em que se encerra é sinal de angústia. Seu mau humor indica preocupações. Existem suores no pão que se come em casa.

Religiosamente falando, pode lhe ser árdua a missão. Absorvido, cansado, arrastado, tem fraquezas de criança, que devem ser protegidas.

À esposa cabe defendê-lo, consolá-lo, ajudá-lo, guiá-lo. Ela deve ser uma alma amante ao lado de sua alma esgotada; uma consciência vigorosa ao lado de sua consciência tentada; um coração puro ao lado se seu coração perturbado. “Alegria repartida, alegria dobrada; dor repartida, dor dividida.

No casamento, a mulher, quando mãe, é parcialmente responsável por seus filhos.

Crescidos nela, dela nascidos, educados primeiramente e, sobretudo por ela, são sua mais nobre missão. Ela os conserva perto de si, não como um enfeite a acariciar, nem como um quadro a ser admirado, nem como uma suave presença que delicia, nem como uma semelhança de si própria, que encanta, nem como uma planta que cresce e cuja flor se guarda. Ela os tem como uma planta a ser cultivada, a ser regada, a ser guiada, a ser cuidada. Ela os tem como a um mármore a ser esculpido, como a uma frágil alma cuja saúde deve ser vigiada. Tem de ensiná-los a conhecerem a Deus, a receberem a Cristo, enfim, formar-lhes uma consciência e um coração. Tem de criá-los com um longo e doloroso esforço até que, cientes da própria força, não mais tendo tanta necessidade dela, sejam capazes, por sua vez, de viver “sua vida” e de tomar sobre si mesmos as responsabilidades que até então pesavam unicamente sobre ela.

No casamento, a mulher, quando esposa e mãe, é inteiramente responsável por seu lar.

O lar é um recanto de pedra que se deve tornar agradável, acolhedor, fechado aos indiscretos e malfeitores.

Quando chega a noite dos dias laboriosos, é o seguro refúgio dos corações de vinte anos, ardorosos e tristes, e dos corações de quarenta anos, sonhadores e graves.

O lar também é uma alma, um ambiente de ternura, de pureza, de alegria e de paz, a ser criado para que o marido e os filhos se sintam bem vivendo nele. Tudo isso não passa de palavras, dirão vocês!... Não, não são meras palavras, mas sim coisas verdadeiras...

Bem que existe a alma de um lar. A prova está no fato de jovens seres ficarem mortalmente feridos por crescerem em determinadas casas onde reina uma mulher, leviana ou má, e que nela espalha os germes suspeitos.

A alma do lar é obra da esposa. Digamos melhor, a alma do lar é a alma da mulher.

Com quanto orgulho deve pensar nessas coisas!
Quanta honra para ela! Mas, também, quanta angústia!

E é assim.
Que concluir?

As covardes concluirão: “Se o caso se apresenta assim, nunca me casarei”. Mas esquecem-se de que o casamento também tem suas alegrias; que, se se auxilia, também se recebe auxílio; se se ama, também se é amado; se se dá, também se recebe.

Esquecem-se principalmente de que as responsabilidades, que são um encargo, também são um estímulo e, para uma cristã, a grandeza de ser mãe e esposa vale bem o sacrifício de aceitá-las corajosamente e entregar-se a elas com confiança.

As generosas concluirão: “Se é essa a questão, não é um motivo para que não me case, mas um motivo para que, quando me casar, o faça seriamente e, enquanto espero, me preparo para ele.”

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: Como preparar-se para tal ato?)

PS: Grifos meus.
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