sábado, 28 de maio de 2011

Solteirona

Solteirona


É assim que se diz: “solteirona”. Em francês são denominadas “vielles filles”. E, no entanto, não são sempre velhas, as “Vielles filles”! Elas não nasceram com oitenta nos! Então, porque são chamadas “Villes filles”? Porque não sabemos dizer de outro modo. É uma questão de hábito.

Com que idade se começa a ser “solteirona”? A esse respeito a Escritura nada diz. A razão insinua que seja lá pelos sessenta anos, mas a tradição decidiu que é lá “pelos vinte e cinco anos”! Inclinemo-nos ante essa resolução, apesar de não estarmos convencidos.

Ou melhor, digamos que se é “solteirona” desde o momento em que, com plena liberdade, se decidiu a ficar assim e que se assenta em que assim se ficará.

Lembremo-nos desta definição.

As duas espécies de “solteironas”

Existe a solteirona forçada

Assim o é aquela que quis casar-se, mas não pode; que poderia ter sido Religiosa, mas não quis. Que é que a vida então lhe ofereceu? A medalha das celibatárias...

Digna de respeito; é certo, mas muito pouco apreciada e comumente levada sem grande orgulho.

O casamento falhou. Por quê? Vejamos cada um dos casos.

Ou ninguém a pediu, enquanto ainda jovem; ou, quando foi pedida, ainda não estava preparada e o ônibus partiu sem ela; ou, quando já estava pronta, ninguém mais pensou nela; ou enquanto esperava a ocasião sonhada, deixou passar a ocasião real, e a ocasião sonhada nunca mais se apresentou.

Ainda durante muito tempo espera, com sobressaltos de confiança, ilusões de êxito. Mas, com a idade, a evidência se impõe e o malogro é completo. E, para sempre, fica sendo a solteirona como outras às quais, involuntariamente, falta alguma coisa.

Uma mão impiedosa amarrou os cordões da touca de Santa Catarina ao seu quarto.

Muitas vezes, trágicos acontecimentos multiplicam esses casos em proporções lamentáveis. Terríveis hecatombes, como foi a da última guerra em cada um dos países nela metidos, transformaram esse problema num drama pungente. A esses milhares de jovens mortos, alinhados todos eles debaixo de cruzes, deitados em fossas, perdidos em baixo da terra, correspondem milhares de moças que, dentro de suas casas enlutadas, choram desoladamente um sonho desfeito. O número das vítimas foi duplicado. E nem sempre os mortos são os mais lastimáveis.

Existem as solteironas por escolha livre

Ela mesma, com suas próprias mãos, sorriso nos lábios ou lágrimas nos olhos, amarrou os cordões da touca...

Teria podido casar-se, mas não quis. Também não achou que fosse seu dever entrar para o convento.

Por quê? Lá tem suas razões.

Talvez um dia, depois de haver estudado longamente a vida e encarado o amor no coração dos homens, julga ter reconhecido que a fidelidade não existe, que a ternura que eles dão jamais equivale ao chamado que lhe fizeram, que o interesse faz parte dos seus melhores sentimentos, que o egoísmo é a base de tudo, que a deslealdade é coisa comum e o respeito bastante raro. Daí surge à decepção. Esta decepção transforma-se num princípio e elas resolvem: “Não me casarei”.

Um dia, talvez, num esplêndido, mas imprudente impulso, levaram o ideal de amor a alturas inacessíveis. Procuraram entre os viajantes humanos algum que tivesse o coração bastante ritmado, o andar bem enérgico, para, com ela, atingirem tais alturas. E não encontraram. Então sopraram o sonho; ele se apagou como a vela do altar depois da Bênção. E elas abaixaram a cabeça e fecharam os olhos, enquanto diziam ao coração: “Não existe amor para ti, não existe ternura digna da tua...” Não se casarão.

Talvez um dia tenham amado ardentemente e ardentemente tenham sido amadas... Já estavam às portas do casamento. As duas mãos, já unidas, iam colher o fruto da árvore sagrada. E, então, as influências fizeram-se sentir; oposições se ergueram; daqui e dali surgiram recusas, cheias de ameaças, de cólera, de súplicas... Foi horrível. Perturbação, revolta, indignação... E, depois, as duas mãos se afastaram uma da outra, e a jovem deixou cair o braço. E ela partiu, para sempre magoada, para sempre solitária, como o ficam certos seres que renunciam seu sonho, sacrificam sua felicidade, mas impõem-se permanecer sempre fiéis, viver de uma lembrança e, desta forma emocionante, realizar seu amor.

Um dia, talvez, porque os pais estavam doentes ou velhos, porque os irmãozinhos eram numerosos, compreenderam que se lhes impunha um sacrifício. Era preciso uma ajuda à mamãe, uma enfermeira ao papai.

Talvez fosse precisa uma mamãe para aqueles que não mais a tiverem. Assim proposto, o problema não permitia ilusão alguma. Era bem claro o que significava.

Nobres almas tiveram a coragem de encarar a realidade das coisas. Refletiram, rezaram, choraram. Agitaram-se. Mas, escondendo a fraqueza num sorriso, confiando só a Deus seu segredo, vencidas pelo dever e vencedoras de sua fraqueza, disseram, sem pronunciar uma só palavra, que não haveria mais casamento. Com efeito, não se casarão. Deus, que é o único, a saber, do que se passou, somente Ele poderia responder e responderia – na Eternidade Ele responderá – depondo sobre essa jovem fronte pensativa uma coroa do lírio das virgens e da rosa dos mártires.

Um dia, talvez, souberam que ao apostolado cristão faltavam operárias e que ele lançava seu apelo veemente aos quatro ventos... São necessárias professoras para o ensino livre... Onde encontrá-las?... Para tal obra social são necessárias pessoas livres e dedicadas... De onde virão elas?... São necessárias diretoras e auxiliares para os patronatos... Quem serão elas?... É preciso... é preciso... Hoje em dia são tão necessárias certas pessoas que se dedicam a essas piedosas obrigações, a cumprirem certas obrigações cada vez mais complicadas e sempre urgentes, e fazerem para Deus o que nem as Religiosas nem as senhoras casas podem fazer no mundo... Elas leram “Maggy” ou o “Cristo no subúrbio”; aí viram a história verdadeira de jovens heróicas com esse heroísmo. Elas disseram: “Também eu”. Foram criticadas, suspeitadas, ridicularizadas. Delas murmuraram que “era uma louca imprudência”, “um capricho passageiro”, “que isso não era situação que servisse”, “que não se tem direito a proceder assim quando se pode proceder de modo diferente”, que “ser solteirona era a última das ocupações e, para a família, a maior das humilhações...”. Murmuraram-lhes no ouvido que “eram belas... que tal rapaz pensava nelas... que faltam à Igreja mais mães cristãs do que solteironas dedicadas”... que, enfim, “decentemente, não se têm dessas idéias”... etc., etc.. Tudo escutaram, viram os prós e os contras. Cercaram suas meditações de muita oração... E depois, lentas, mas enérgicas, seguras de seu ideal, dizem: “Não me casarei”.

É por todas essas razões, e ainda outras existem, - cada uma tem as suas – que se fica solteirona por livre escolha.

Que pensar delas?

Que pensar das que quiseram casar-se e não puderam?

É dever de bom senso não zombar delas, pelo menos maldosamente, com essa crítica que já deixou de ser brincadeira e que se transforma em crueldade!... Porque, enfim, senhorinha, minha jovem senhorinha, você está tão certa assim de encontrar aquele que você procura?...

E ele procurá-la-á?... Na sua idade, também elas esperavam como você, talvez até com maiores razões do que você! Quem lhe afirma que, como elas, não ficará de lado? Você é assim tão irresistivelmente bela, tão fabulosamente rica, tão genialmente inteligente que não possa deixar de “chamar a atenção” de algum jovem entusiasta? Você está mais segura de morrer do que de casar... Talvez a Igreja reserve para você somente o dobrar dos requiem em vez dos acordes da marcha nupcial... Espere um pouco... E, depois, se você ainda ousar, zombe à vontade!

E mesmo, você terá esse direito?

Porque, enfim, minhas senhoras, a sorte será sempre uma superioridade? Se são felizes no lar, satisfeitas com o amor, será razão suficiente para desprezar aquelas que, tanto quanto vocês, mereciam a felicidade?

Aliás, essa felicidade e esse sucesso com que dinheiro foram, às vezes, comprados? Tais conquistas serão sempre nobres vitórias? As companheiras que hoje estão sós por terem sido anteriormente por demais pudicas, por demais discretas, por demais reservadas, creio que mereceriam um pouco de respeito!

Deus que julga e compara talvez as julgue de modo diferente...

A justiça quer que se seja indulgente para com elas.

Conhece-se o gênero de vida que possuem, suas manias, seu “tudo o que vocês quiserem”. Os livros dizem-no bastante. As conversas também. Fala-se muito mal delas. São cobertas de todos os ridículos. Nelas se conhecem todos os defeitos. Têm mau gênio!... Têm uma língua muito comprida!... Que é que elas não têm?

E você, senhora casada, você não fala nada? Seu gênio é suave como uma doce melodia? Se perguntássemos a seu marido, que responderia ele? O bigode caído de tal ou tal marido é a prova mais do que eloqüente (?). Já se sabe: algumas solteironas resistiram a todos os encantos da serpente, mas algumas senhoras também.

De maneira que, resumindo, pode-se agradecer a Deus determinada solteirona não haver encontrado marido e, do mesmo modo, lamentar determinado marido porque sua mulher não ficou solteirona...

Se, portanto, vemos claramente que as solteironas possuem defeitos que lhes são próprios ou têm os defeitos comuns, mas levados ao mais alto grau, ainda assim deveriam ser julgadas com menos severidade. O doente tem direito a queixar-se. O miserável, quando acusa a vida, blasfema menos do que um outro. O soldado, chafurdando na lama da trincheira, merece muito mais condescendência por suspirar depois da paz assinada.

As solteironas têm suas amarguras: é a solidão da casa em que vivem que lhes faz mal. Preocupam-se demais com os outros: é porque lhes faltam crianças com que se ocuparem. Criticam, espiam, invejam. Certamente, fazem mal. Mas pensem como é natural, lancinante até, para um coração sem amor, a tentação de invejar a felicidade que se não tem! Ver passar na rua jovens mamães sorridentes ou então a avó inclinada para um lindo bebê é coisa bem dura para quem não dá carícias nem beijos. As jovens têm seus pais; as senhoras idosas seus filhos. E elas, que não são nem jovens, nem mamães, não têm ninguém. A justiça, aliada à compaixão, quer que se perdoe muito àquelas às quais muito falta.

E a caridade exige que sejam ajudadas. Não a ficarem solteironas, pois já o são, mas a sê-lo nobremente, dignamente, sem que nosso ar de habitual desprezo, nosso sorriso quase ultrajante, nosso desagradável vocabulário não as obriguem a considerar-se a escória da vida, as parasitas da sociedade, quase como leprosas. Ora, elas não são isso. São o que são, eis tudo. Se, maldosamente, as consideram inúteis, não lhes podem, contudo, tirar o direito de viver em paz. Se são inúteis, outras há que o são ainda mais do que elas! Porque só o fato de trazer o nome de um homem bastará para tornar uma mulher respeitável? E porque merecerá a solteirona ser enterrada viva só porque conservou durante a vida inteira seu nome de moça?

Que pensar das que escolheram o celibato por livre vontade?

Primeiramente, têm o direito de fazê-lo

É preciso afirmar esse direito bem alto, para que todos o ouçam.

E porque não o teriam? Como provar que uma jovem seja obrigada, ou a casar-se, ou a entrar para o convento? Só se é obrigada a seguir um desses estados se, por um lado, a vocação for clara e, por outro, a evidência se impõe de que será essa a honestidade moral. Fora desses casos, não.

O que é absolutamente obrigatório é salvar a alma, embora se seja obrigada a sacrificar o universo. Ora, também o caminho das solteironas conduz ao Céu, algumas vezes mesmo muito diretamente.

O desejo de ter um marido e filhos, o dever de professar os votos, não pesam obrigatoriamente sobre ninguém em particular. É mais um dever geral que se impõe para o conjunto, com possíveis exceções, sem que se possa obrigar cada uma em particular, a submeter-se a ele sob pena de pecado ou condenação.

Desde que a celibatária possa amar a Deus, conhecê-lO e servi-lO é o suficiente para que ela tenha o direito de ser quem é. Desde que no Paraíso haja uma poltrona para ela, porque não a haverá nas casas de família? Desde que em casa de Deus ela poderá usar o manto real das virgens, porque aqui na terra querem cobri-la com a roupa destinada às loucas ou com os farrapos das doidas?

Se tem esse direito, poderá exercê-lo. Os pais abusam quando o proíbem e a opinião pública calunia quando ela não lhe dá importância.

Merecem respeito tanto quanto as outras

Não fica ao fogareiro zombar do carvão porque, visto por baixo, um é tão negro quanto o outro. Ser casada não é suficiente para merecer respeito; ser solteirona não é suficiente para merecer desprezo ou piedade. Por que se merecerá o respeito? Pela utilidade que se dá à vida. Ora, existem vidas matrimoniais completamente inúteis e também existem vidas celibatárias perfeitamente úteis. Quando as senhoras casadas cumpriram com sua obrigação e as religiosas também, nada mais resta a fazer para a beleza do mundo e sua felicidade? Sim, ainda resta muita coisa. E esse muito, quem o fará? Quem o faz, realmente? Suprimam todas as que não são casadas nem Religiosas e olhem. Fica um imenso campo abandonado e infrutífero. E a humanidade sofre com sua falta.

Os doentes, os pobres, os pequenos, os abandonados, os “abandonados a si mesmos”, poderiam dar testemunho.

Seria uma curiosa estatística a que, abrangendo a vida material, moral e religiosa do mundo, fixasse primeiramente tudo o que as “solteironas” fizessem de bom e, depois, tudo o que, sem elas, não estaria feito!

A igreja o sabe e não receia afirmá-lo. Ela não se acanha de defendê-las. Não tem para elas um sacramento especial nem uma cerimônia de profissão, mas tem para elas sua bênção e seu reconhecimento. A estima que tem para elas vinga-se. Cobre-as com sua aprovação, e isso lhes é suficiente. A confiança da Igreja vale cem vezes mais do que o desprezo do mundo. E, se elas existem unicamente para assegurarem a Cristo algumas aforadoras, à Mesa Eucarística, algumas comungantes, a preencher no Templo quase deserto o vazio de muitas outras ausências, tudo isso não bastaria para que elas existissem? Uma artista se justifica (é justificada pelo mundo) pelo fato de dançar, declarar e cantar! Comungar, rezar, adorar são coisas bem melhores. Quem se ocupa dessas coisas adquire mais um direito do que uma respeitosa tolerância.

Algumas vezes praticam o que de mais nobre existe no mundo

Se todas as escolas, todos os orfanatos, todos os patronatos contassem sua história e se, levantadas de sua cama ou de seu túmulo, as velhas mães dissessem o que sabem, a humanidade ficaria conhecendo o que deve às “solteironas”. O baile com seus “flirts”, as praias com seus escândalos, a moda com suas audácias, não lhes devem grande coisa. Mas, na humanidade, não existem somente os que “flirtam”, os que dançam e gozam férias. Existem os que sofrem, os repelidos, os incuráveis e os contaminados. Existem as feridas supuradas e os cabelos cheios de piolhos. Existe tanta miséria e tanta sujeira! Mulheres há que provêm a essas grandes necessidades, e Religiosas também. Mas sempre vemos “solteironas” que as acompanham. Porque existem muitas solteironas que o são desde “a idade de vinte anos”, desde que, generosas e heróicas, juraram assim permanecer para melhor se dedicarem.

Esse esplendor moral oculta-se. Em seu lugar exibem-se as ridículas “toilettes” e as ridículas “toilettes” absorvem o olhar do público.

Tanto pior! Já o sabiam de antemão as solteironas e mesmo assim aceitam.  Aquele para quem elas trabalham também o sabe. O resto pouco importa. Só dão importância à opinião de Jesus Cristo. Mas algumas vezes, se somos sinceros, surpreendemo-nos a pensar na inapreciável abundância de secreto devotamento... Tremendo, levantamos o véu... olhamos... escutamos... O que então vemos é mais belo do que tudo que se apresenta nos teatros das cidades; o que se ouve faz rir de alegria, porque é o batimento de inúmeros corações devotados ao amor dos infelizes.

Então, não se ousa mais rir das solteironas. Ao contrário, diante delas, sentimo-nos envergonhados de nós mesmos. E esta vergonha é, para elas, a maior homenagem...

Nesta época, em que cada vez mais aumenta a crise de empregadas, tanto para Cristo como para os ricos, é emocionante vermos como Ele encontra nelas servas obedientes e submissas, de tal modo que nem Religiosas nem senhoras do mundo as superam, e, em sua soberana humildade, elas atingem os altos cumes da pura santidade.

Conclusão

Resumindo, trata-se de cada um permanecer em seu lugar, comportar-se bem, cumprir com suas obrigações.

Isso supõe lealdade, generosidade, algumas vezes resignação, e sempre uma presteza em fazer tudo o que Deus ordenar.

Nenhuma das três vocações deve olhar para a outra de maneira desprezível. Nenhuma das três vocações deve envergonhar-se de si mesma.

Todas três têm sua grandeza, suas dificuldades, seus méritos. Todas três têm sua coroa no Céu e, na terra, seus altares construídos pelos que as irão honrar.

Para uma jovem, haveria desonra onde houvesse pecado. E o pecado seria: casada, Religiosa ou solteirona; tomar, diante do apelo positivo, a atitude do jovem covarde que baixa a cabeça e foge; cumprir levianamente com as obrigações inerentes a cada um desses estados; realizar frívola e desinteressadamente o ideal que cada um representa.

E, maltratando uma vocação que é bela e deveria embelezar a vida, seria prejudicar a própria vida.

E este crime (pois é crime) ninguém, com vinte ou quarenta anos, tem o direito de cometê-lo.

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950)
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