domingo, 22 de maio de 2011

Religiosa

Religiosa


Vejo, diz o Apocalipse, uma imensa multidão, difícil de precisar. Toucas de todas as espécies, véus, mantos e cordões de todos os feitios e cores. Uns azuis como pervinca, outros brancos como lírio, outros castanhos, outros cinzentos, e outros ainda negros como o pecado mortal...

Os nomes variam:

As Filhas... de Caridade, da Sabedoria, do Espírito Santo...

As Irmãs de... X, Y, Z...

As senhoras de...

Mas, no fundo, todas elas cantam o mesmo hino em diferentes tons...

Têm o mesmo coração oferecido ao mesmo Jesus Cristo...

É a revoada de Religiosas dispersadas aos quatro ventos da terra...

Benditas sejam elas por causa do sinal de escolhidas que trazem na testa! Quando mortas, todas elas apresentam uma pequenina cruz, sempre igual, tendo em baixo um nome que é o seu nome, mas que também não é seu nome. Não é seu nome perante o mundo, mas é seu nome perante Deus.

Benditas sejam elas! Felizes que são...

O que é uma religiosa

Pondo de parte qualquer diferença secundária, essencialmente falando, a religiosa é, desde o momento em que formula seus votos, uma jovem que:

Abstendo-se do direito de casar-se; pretende-se, por um determinado tempo ou para sempre, aos votos de pobreza, castidade e obediência; dedica-se ao serviço de Deus, entrega-se a Ele, pertence-Lhe e faz dEle seu único Senhor e o único amor de sua vida.

Ela contrai esses votos oficialmente, perante a Igreja, num determinado grupo de que vem a fazer parte e cujos costumes e obrigações aceita voluntariamente.

Distinguem-se comumente: as Religiosas contemplativas, muitas vezes enclausuradas, e que se dedicam especialmente à oração e à penitência; as que ensinam, que têm por missão principal instruir nas escolas e colégios; as enfermeiras, que se dedicam às obras de caridade nos hospícios, hospitais, clínicas, creches e dispensários; as missionárias, consagradas ao apostolado católico nas suas diferentes formas e até em países estrangeiros...

Que pensar da vida religiosa?

A Igreja a considera como a maneira mais digna de viver. Uma cristã, diante de semelhante problema, deve seguir o julgamento da Igreja.

Mas o mundo, naturalmente, pensa de modo diferente.

Ora declara que a vida religiosa é um refúgio oferecido às jovens feias, pobres e imbecis, e que, não se podendo casar por essas três razões, ficam muito felizes por encontrarem no convento o ninho onde esconder sua incapacidade; ora promulga que ela recorre à vida religiosa como um meio de consolar suas desilusões amorosas, delas tirar proveito e torná-las úteis em alguma coisa, sem o que só encontraria desespero; ora considera-a como o cemitério de jovens prematuramente mortas e que, entrando para “essas casas” suscitam respeito, um vago pesar e uma amarga piedade; ora acusa, dizendo: “A vida religiosa é a covardia dos seres que não têm coragem de enfrentar o mundo, de arcar com suas responsabilidades e que, fugindo dele em vez de desafiá-los, são desertoras que se devem desprezar”; Ora ele se zanga, de modo insolente e mau: “A vida religiosa é uma ladra! Tira do mundo as mulheres a que tem direito! Arrebata ao amor belezas com as quais se teria alegrado. Diminui o número dos lares. Faz com que as mães chorem. Revolta os parentes. Faz com que certos valores fiquem escondidos. Enterra as que vivem. Necessário é que a suprimamos”.

Ora ele dá de ombros... Lamenta essas mulheres que também foram feitas para a felicidade e que inocentemente sacrificam as alegrias certas e imediatas da vida por alegrias tardias de um Paraíso duvidoso; ora admite, vencido pela evidência, o bem praticado pelas Irmãs de Caridade nos hospitais, mas condena ainda mais impiedosamente as religiosas enclausuradas; ora consente em agradecer ao convento a solução do problema dos pais, que ficam embaraçados com uma filha em casa. Tomando-a, livra-os de uma preocupação. Ora, e é a maior concessão que lhe faz, declara que cada um é livre e que, além de tudo, a vida religiosa é uma vida como outra qualquer e que aquelas às quais ela agrada podem vivê-la e, embora sejam originais, é prudente deixá-la em paz.

Tudo isso nada prova que o mundo compreenda a vida religiosa, que ele a aprecie, que a venere, que lhe tenha penetrado o sentido por demais elevado e o raro valor.

A igreja pensa mais ou menos o contrário.

Ela bem sabe de todas as críticas e admoestações mais ou menos fundadas que se podem lançar contra tais e tais Religiosas, de vista estreita, mesquinhas, severas, de alma tacanha... Mas ela não se baseia em casos particulares e, encarando a vida religiosa em seu conjunto, aprova-a e exalta-a.

Ela acha que a vida religiosa representa o caminho mais seguro, mais direto, mais bem protegido para a meta suprema da vida humana, que é o Céu.

Afirma que, quanto mais se ama a Deus, maior será o valor que se tem, e a vida religiosa, libertando o coração, unindo-o cada vez mais a Deus, impedindo as necessárias partilhas da vida comum, permite ao ser humano realizar seu maior valor.

Não hesita em afirmar que as contemplativas têm uma utilidade muito maior para o mundo por meio de suas orações e suas penitências, e sob o ponto de vista cristão, o único verdadeiro, representam, na humanidade, um alto cume, porque são a porção de humanidade mais aproximada de Deus!

Julgam, pois, que, se formos classificar teoricamente as diferentes formas de vida, a vida religiosa estaria em primeiro lugar. Afirmar isso não é desacreditar o casamento nem levar a humanidade a encerrar-se nos conventos. É simplesmente dizer o que é.

Também defende obstinadamente a vida religiosa contra todos os seus detratores. Ela cobre com seu manto maternal e envolve com sua especial estima e seus privilégios a imensa multidão de Irmãs espelhadas por toda a Terra. Condena a todos os que a elas se referem desrespeitosamente.

Aprova, encoraja e felicita a todas que a escolheram. Segundo São Paulo, ensina oficialmente que o chamado a esta vida representa uma graça inestimável que é sinal de um amor especial, e que todas as que a ela foram chamadas devem, sem orgulho e sem pesar, sentir-se felizes, muito felizes, por Deus se haver mostrado tão bom ao tomá-las para Si!

Tal é o pensamento da Igreja.

Esse deve ser o pensamento de uma moça cristã sobre a vida religiosa.

Quais são os sinais indicadores do chamado à vida religiosa?

Como a vida religiosa é uma vida excepcional, são precisas, para se entrar nela, garantias que fazem da entrada para o convento um empreendimento legítimo e prudente.

Como se sabe que se pode?
Como se sabe que se deve?

Problema por demais complexo! Existem tantos atalhos que conduzem ao mosteiro! Tantos e diversos segredos aí se escondem! Cada alma tem sua personalidade. A graça é tão pronta! As naturezas variam tanto! A história de cada um é tão pessoal!

No entanto, existem algumas regras gerais.

O caminho de veludo

Desde que se sentiu o primeiro chamado de Deus não se pensa noutra coisa. Não se sonhou com outra coisa. Tudo leva ao convento. Tudo para ele atrai. Uma espécie de instinto vital, cada ano mais forte e seguro, para ele arrasta... Já se nasceu Religiosa...

Então é coisa simples. A hesitação não é permitida, visto não se levantar nenhum obstáculo impressionante. Chegada a idade conveniente, vai-se!

É a vocação por inclinação e que, em circunstâncias especialmente favoráveis, quando a família encoraja em vez de se opor, passa-se suavemente do lar ao noviciado, sem aparente dificuldade.

O caminho de rochedo

Desta vez não sentiu a atração. O pensamento do convento ainda não penetrou no íntimo da criatura, como um fermento sempre em ação, nem cruzou o horizonte da vida como um sonho cuja beleza atrai!

Ao contrário, friamente, por um exercício de vontade, a alma em que Deus age é obrigada a refletir.

Apresenta diante de si a vida religiosa como um problema que ela mesma deve resolver, seja num ou noutro sentido. Ela o encara como o melhor caminho para a salvação, como o mais belo emprego de suas forças íntimas.

A natureza não impele, nem mesmo o temperamento. Mas a vontade reina e decide. É um caminho rude, que sobe cheio de pedras, sem árvores que façam sombra. A jovem obriga-se a caminhar, um pouco semelhante às horas secas de piedade, quando se impunha meditar e rezar. E ela o faz sem outra alegria sentida senão a de uma resolução tomada e a de um dever praticado.

O caminho de areia movediça

É o caso das vocações que se iniciam nitidamente, segundo um rumo bem traçado, e que, pouco a pouco, como os caminhos do deserto que se perdem na areia, ficam incertas de si mesmas.

Não se sabe se é sim ou não, para aqui ou para lá. Porque é ora para um lado, ora para outro, e ora para ambos. Um eterno “talvez”. E não se chega a tomar uma decisão única porque, logo que se pensa decidir, a decisão contrária se tornará possível também.

Algumas vezes, nem sempre, falta coragem ao coração, que fica tão incerto. Outras vezes é questão de temperamento e outras ainda depende do modo com que Deus está agindo. Os santos nem sempre estão seguros do caminho a seguir, quando se trata de sua santidade. E porque, então, quando se trata do seu destino, as jovens hão de estar certas do caminho a percorrer?

Mas é um caso bastante doloroso para em geral ser tratado com bondade. As jovens que estão envoltas por essas sombras devem sondar ainda seu íntimo e procurar socorro.

O caminho de Damasco

Brusca parada em pleno caminho. Um divino imprevisto. Saulo ia em perseguição de Cristo e eis que Cristo o chama para fazer dele um apóstolo.

Jovens há que estão felizes e tranqüilas. O mundo não é para elas uma tremenda decepção. O casamento lhes sorri. Nenhuma touca branca lhes aparece em sonhos. Bastam-lhes os dez mandamentos. Pretendem segui-los e é só. E porque não? Desde que Deus não lhes pede mais nada, terão elas de oferecer mais? Deliciosamente, como o monograma no canto do lenço, bordam em sua juventude o monograma do amor. Se lhes disserem que um dia... serão... (oh!) Religiosas! O queixo lhes cairia! Ser-lhes-ia necessária uma hora para fecharem a boca...

E, no entanto... Ele espera. Quem é esse Ele? Deus.

Sem prevenir, igual aos ladrões, invade essa calma, perturba o suave sonho. Elas nada compreendem. Os que as cercam também nada entendem. Mas existe algo. A alma esta aterrada. A terrível pergunta foi feita: “Queres?” E, mal sabendo o que dizer, respondem: “sim”.

A derrota foi rápida e total. Total a vitória de Cristo. Houve como que uma invasão de luz resplandecente.

E aquela que, no inverno passado, dançava nos bailes até tarde, neste inverno não dança mais. Já traz sua pequena touca de postulante. O único que dança é o diabo que, furioso, a convida a vir dançar novamente o tango...

O caminho da batalha

Neste caminho Jacó lutou contra o Anjo e este foi o vencedor.

Mais do que geralmente se acredita, vocações de certas moças iniciam-se como um encontro de patrulhas, como um choque de armas. Deus e elas. Deus que quer e elas que resistem. Deus é um temível jogador, mas certas almas são rudes adversárias! Durante muito tempo, vendo-O vir de longe, têm evitado o encontro. Agora não há mais jeito. Ambos estão em combate. Não seria mais emocionante assistir ao espetáculo de dois lutadores em plena arena antiga. A sorte sorri, ora para um, ora para outro.

E, quando termina a luta, na submissão total da alma, num longo consentimento da vítima, que atira seu “sim” como se estivesse numa lenta agonia, resta uma Religiosa a mais ao serviço de Jesus Cristo.

Mas algumas vezes, como se não pudesse defender-Se, Deus é vencido!

Respeitando a liberdade, querendo para Si uma alma e não uma escrava, pois que ela recusa, Ele desiste, faz-Se de vencido e retira-Se como um ferido...

Uma Religiosa a menos na Terra.

E inaugura-se um futuro cheio de mistério. Infelizmente, tais vitórias são para a alma a pior das vergonhas. A coroa das condenadas muitas vezes é feita desses triunfos.

O caminho de Getsêmani

É o caminho das dores que conduz ao grande Amor. Quem póde proibir a Deus de escolher Suas eleitas entre as vítimas da vida? E quem é capaz de encontrar defeito no que Deus faz? Quem póde condená-lO porque recolhe náufragos, adota órfãs, oferece o coração a fugitivas e povoa Sua casa com jovens feridas que Ele uma noite recolheu quando percorria o campo de batalha? Deus penetra pela ferida aberta num jovem coração de vinte anos. Está em Seu direito. Ofereceu-Se para vir substituir alguém que partiu. Será a mamãe que morreu. Será o noivo que partiu bruscamente.

Então, uma vocação religiosa originada de uma desilusão amorosa? E porque não? Tantos artistas há que executam sua obra-prima sob uma amarga decepção! E porque não poderá uma jovem transformar a dor numa vida religiosa? Que mal existe se a tristeza desta jovem, transformada em divino amor, faz a felicidade dos pequeninos de que ela cuidará na creche, dos velhos que ela acariciará no hospital...?

Essas vocações têm direito a um respeito comovente.

Seria preferível que a jovem transformasse sua tristeza em desespero e vergonha? Como é que não se compreende poder o sofrimento, que é luz, revelar também bruscamente um caminho até então desconhecido e projetar da porta fechada do convento uma suave claridade que convinha a vir bater a ela com as lágrimas nos olhos?

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: Religiosa, parte II - Obstáculos e mais obstáculos.)

PS: Grifos meus
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