segunda-feira, 23 de maio de 2011

Obstáculos e mais obstáculos

Obstáculos e mais obstáculos


Obstáculos erguidos por Deus

É preciso respeitá-los, parar diante deles e, pacientemente, sem revolta, esperar.

Entende-se por obstáculos, assim erguidos no caminho de uma vocação, a tal ou qual circunstância brutal, a certos acontecimentos exteriores que, independentes de nós e representando a vontade divina, exigem que nos inclinemos diante deles como diante de uma força sagrada ou de um direito líquido.

Por exemplo: um cansaço, uma doença, um acidente.

Outros exemplos: a necessidade imperiosa de nossa presença em casa, devido ao pão conquistar, aos doentes a cuidar, aos velhos pais a auxiliar.

Que fazer? Nada. Que tentar? Nada. Permitindo que tudo isso aconteça, Ele diz, ao menos provisoriamente, o que quer. A sabedoria está em ceder. E o verdadeiro amor também.

Obstáculos erguidos por vocês

Esses têm de ser destruídos.

São obras do seu egoísmo, de sua covardia, de seu receio. Quando se construiu um muro em lugar proibido a única coisa a fazer é derrubá-lo e passar adiante.

Parar aqui, para esperar, é, nem mais nem menos, esconder-se na trincheira no momento do ataque para não ter de saltar. Que desonra para semelhante soldado!

Algumas jovens hesitam e essa hesitação não as honra. Falta-lhe a coragem de cortar os fios que as prendem e de pular um muro que não passa de uma nuvem. Podem esperar indefinidamente e será o mesmo que dizer que renunciaram à sua vocação.

Também fez assim o moço rico do Evangelho. Colocou diante de si, amontoados, seu dinheiro e sua felicidade humana. Olhou-os e depois não tentou nem transpô-los, nem pisá-los. Ficou onde estava. Recuou o seu passado. Vida perdida. E Cristo se entristeceu...

Quantas há que, no caminho do convento, ficam sentadas? Levantam-se e tornam a sentar-se. Reiniciam a caminhada e tornam a parar. Desejariam que o Anjo as carregasse pelos cabelos, mas Deus quer que caminhem com seus próprios pés, passo a passo, até atingirem a meta desejada. E elas se desculpam chorando sobre a própria fraqueza. Que seria preciso? Um gesto libertador, um pulo decisivo. Somente a este preço terão direito a ficar em paz.

Obstáculos erguidos pelos outros

Esses devem ser, ora respeitados, ora desprezados.

Quem são os outros? Um pai, a mãe, uma amiga, as pessoas que nos cercam. Cada um deles tem seu ponto de vista, faz suas observações, formula suas críticas, encontra motivos para protestar contra “essa estúpida vocação” e para impedir “essa partida desarrazoada”...

Sua posição provém:

De uma afeição que treme diante da próxima ausência; de uma esperança que teme ser desfeita; de um projeto que desejaria realizar-se; de um interesse mais ou menos puro; de uma viva preocupação de trabalhar para a felicidade desta criança que “faz uma asneira”; de um ciúme despertado contra Deus; de uma amargura que se volta contra a Igreja, pois se considera o caso como um rapto; de um completo desconhecimento do que é a vida religiosa; de uma abusiva autoridade que pretende ser a única a decidir sobre a orientação de uma vida; de um ódio positivo; da vontade de ser um dia avó; do respeito humano que olha com receio para “o que dirá a opinião pública”; do orgulho em querer ser o sogro de tal rapaz estupendo; etc., etc.,... Uma página repleta de “etc.”...

O terrível é que o obstáculo toma forma humana: um pai encolerizado que se levanta pálido; uma mãe que chora ou fica de mau humor; uma tia que se excede em sabedoria e diz “Minha pequena, senta-se aqui, pois tenho que te falar”...; um velho tio, por demais experimentado e que meneia ceticamente a cabeça; um belo adolescente de olhar ardente e triste; uma distinta senhora que toma ares protetores e tem a fisionomia desdenhosa; uma linda boca que sorri; outra que zomba; dois braços febrilmente suplicantes em volta do pescoço; dois olhos espantados que ameaçam...

Em semelhante caso não é fácil saber o que fazer; ceder? retardar? forçar? esperar? É preciso querer o que for melhor. Algumas vezes só desejar o que for possível e ter como diretriz em primeiro lugar, esta palavra de Deus: “Amarás teu pai e tua mãe”; em segundo lugar, esta palavra de Cristo: “Aquele que ama a seu pai e a sua mãe... mais do que a Mim, não é digno de mim”...

Trata-se de conciliar ambos os amores. Muitas horas pungentes passam as jovens querendo resolver essa dificuldade e fazer essa conciliação.

Isso mostra que é útil, senão indispensável, procurar auxílio.

Decidir por si ou consultar?

Se sempre fosse simples reconhecer, decidir e realizar uma vocação religiosa, a interessada poderia sem grande imprudência, empreender e resolver tudo sozinha... Mas...

Mas a experiência diz que não.

Em primeiro lugar, nunca se é um juiz muito exato para o próprio caso.

Depois, devendo a questão ser estudada em toda sua complexidade, a jovem, sem se aconselhar, arrisca-se muito a perder-se nela, a embaraçar-se. A não poder concluir nem pró nem contra.

Além disso, durante o exame, póde ser tentada à deslealdade, ter medo de saber, temer a evidência, complicar ainda mais o assunto para mais facilmente o transferir para as calendas gregas.

Ela bem pode exagerar as dificuldades, supor insuperáveis obstáculos sem importância, tomar uma nuvem por um muro, uma pedra por uma montanha. Pode achar respeitáveis oposições que não se justificam. Pode não ter a coragem de sofrer nem de fazer sofrer quando o dever impõe, quando é bem intuitivo, quer que se seja rigoroso sob pena, não o sendo, de pecar contra Deus.

Pode cercar-se de ilusões, desconhecer as próprias aptidões, tomar suas emoções como pensamentos, seus sonhos como chamados.

Também pode misturar seus puros desejos com outros desejos que não sejam tão belos e, sem perceber, optar pela vida religiosa por um instinto de preguiça e como meio de fugir a uma humilde dever, humilde, mas penoso, que lhe é imposto aí mesmo onde está.

Também pode conhecer o desânimo, a noite íntima, as horas negras, as oposições exasperantes. Em tais momentos, ficar só é muitas vezes ser fraca e vencida.

Como pretender tomar responsabilidades? Como tomá-las sem se arriscar a, mais tarde, censurar-se por havê-las tomado quando, uma vez no convento, como muitas vezes acontece, surgem as dúvidas, o arrependimento cresce, trazendo consigo o receio de se ter enganado?

Por todas essas razões vê-se claramente que a vocação religiosa é um problema a ser estudado por dois: a jovem e o diretor de consciência!

E também é preciso tratar dele desde o início, para que, lenta e minuciosamente, seja estudado e se chegue à conclusão mais segura.

Aliás, tudo deve ser encarado com perfeita lealdade, num desejo sincero de encontrar solução e a preocupação de, não multiplicando as diversas consultas a vários conselheiros diferentes, complicar ainda mais o caso em vez de simplificá-lo.

O ideal está em procurar, e o dever em encontrar um padre que seja verdadeiramente um homem de Deus, sobrenatural, desinteressado, respeitando as almas sem forçá-las, e capaz de, chegado o dia, tomar a peito suas responsabilidades.

Será preciso preparar-se, e como?

Dizem: “E para quê? O noviciado, que foi feito para isso, remediará a situação. Preparar-se será fazer o noviciado do noviciado... E nunca se acabará!...”

Pretexto vão. Sim, também se deve preparar para a vida religiosa.

Somente praticando, de antemão e livremente, as virtudes de desprendimento, de obediência e de pureza absoluta que um dia deverão ser praticadas por voto. A vida religiosa, para a eleita, começa antes da tomada de hábito, com receio de, se ela só tiver de ser iniciada depois, não ser iniciada nunca...

Naturalmente, de um certo modo. É uma questão de bom senso e de espírito cristão.

Tanto aqui como em outra qualquer parte, a alma é o principal. E é nela que a preparação se faz.

No “toilette”, por exemplo, pelas audácias e excentricidades que evita. O uso dos prazeres, mesmo os permitidos, é moderado... Não mais flirta. Em matéria de leitura, a prudência é rigorosa. A vida cotidiana obedece a um horário fixo. A piedade faz sentir-se mais. Embora não cubra os olhos com o véu, eles são mais reservados, os olhares não são mais provocantes. Um certo espírito de sacrifício se insinua discretamente no íntimo do ser e se exercita em mil ocasiões, que os outros nem sequer suspeitam.

A ternura filial faz se mais suave, mais delicadamente cuidadosa. É preciso que os pais sintam que, quando há uma separação, sintam pelo menos que são amados com um grande e terno amor! Faz tudo para que a preferência dada a Cristo não seja para eles um peso insuportável.

E salva seu ideal, vigia-o, não o expõe a ficar obscurecido. A vocação é uma pérola que não deve ser atirada aos porcos. É cultivada como uma rara flor. É conservada como um tesouro. Deve ser defendida como se fosse a honra ameaçada. Deve tornar-se cada dia mais digna dela, certificando-se cada vez mais de que não é uma ilusão e que será realizada magnificamente.

Por não se terem preparado para a vida religiosa, muitas nunca chegaram a realizá-la, embora tenham ciumentamente guardado esse sonho. O sonho se desvaneceu.

E, um dia, não mais quiseram...

Houve pecado mortal? Houve risco de condenação? Quem sabe? Em princípio, o chamado de Deus não obriga. A única coisa indispensável é salvar a alma, e pode-se renunciar-se ao convento sem, no entanto, renunciar ao Paraíso.

Mas fica um temível desconhecido. Quem perde a vocação ou a recusa também pode perder a eternidade. Porque casos há em que o único meio de atingir o “essencial” era praticar o “supérfluo”. Para algumas, entrar no caminho dos conselhos era a única segurança de não abandonar o caminho dos preceitos. Então...

Sim, então... A conclusão é bem clara.

Há perigos que os prudentes não correm. Ofertas de salvação que um ser inteligente não despreza.

Ao privilégio de ser a mais amada deve corresponder o desejo de amar ainda mais.

Segue-se a própria vocação. Enquanto se espera, deve-se conservá-la. Para conservá-la, deve-se dar-lhes o justo valor, não a deixar entregue aos perigos, preparar-se para ela e, de antemão, para que o “depois” seja belo, praticar-lhe as nobres virtudes.

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: Solteirona.)
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