segunda-feira, 25 de abril de 2011

O "flirt" e suas falsas justificativas - 3ª Parte

Terceira parte
O "flirt" e suas falsas justificativas


Dizem: “Irei até certo ponto... não mais além... Fixei um limite que nada me fará transpor”.

Dizem, dizem... Mas, entre o dizer e o fazer, há a fraqueza humana que conclui o seguinte: o fazer é, muitas vezes, o oposto do dizer... Nós o verificamos e sofremos. O que se denomina problema moral não é justamente o problema de saber se e como se irá do dizer ao fazer sem desfalecer no meio do caminho? Do pensamento ao ato, do querer à realização, é grande o caminho a percorrer. E quantos caem nesse caminho que sobe! No entanto, não tinham intenção de cair nem de acabar sem glória nos buracos. Somente, não tinham previsto tudo: cansaço; falta de coragem, mau tempo, atração pelo espaço, chuva e sol. Acreditavam ser de ferro e só possuíam pernas de lã. Pensavam ter um bom coração e a subida os estafa. Não sabiam que, entre os companheiros de viagem, alguns só oferecem seus amáveis serviços para obterem, em troca, as não menos amáveis cumplicidades. De maneira que aqueles com os quais se contava para atingir a meta final são justamente os que impedem seja atingida. 

A ilusão humana transforma os sonhos em realidades. Encanta-se com o esplendor do seu programa e a ressonância de suas promessas. Antes da saída, garante a chegada. Faz prever uma recepção triunfal aos hipoteticamente vitoriosos, que terminam num fracasso tremendo.

Ao sinal de batalha, faz com que se envolvam com a bandeira que se transformará em mortalha. Eis porque “não irei além daqui” não é uma garantia de que, de fato, não se irá.

Por isso a sabedoria ordena que não enveredemos pelo caminho perigoso, com receio de caminharmos demais e, por termos ido muito longe, se torne necessário regressar de padiola...

É romance, isso? Não, é a vida. Será um “espantalho” para assustar os pardais? Não, é a realidade rigorosamente descrita. Melhor vale a gente fiar-se na fraqueza sentida do que na força suposta. Nada lucramos em nos seduzirmos e, desconhecendo-nos a nós mesmos, ao contrário, arriscamo-nos a tudo perder...

Dizem: “Desde que os interessados estão de acordo, não existe falta, ou, se a houver, é menos grave e não há de que se censurar mutuamente”.

Curiosa moral! Estranha fórmula de absolvição! Como se o tácito acordo entre o assassino e a vítima fosse bastante para permitir ao assassino matar e a vítima deixar-se matar!

Evidentemente, e infelizmente, eles se entendem, os dois levianos. Correm juntos os riscos da brincadeira. De mãos dadas, ajudam-se a descer, assim como outros; de mãos dadas, ajudam-se a subir. Mas este entendimento diminui o perigo e a responsabilidade? Equivale a uma autorização que tiverem o direito de se irrogar? A água turva transforma-se em água clara? O que é carnal espiritualiza-se? Morrer com outro não é a mesma coisa que morrer sozinho? Onde arranjaram essa estranha idéia de se darem um ao outro uma autorização que nem um nem outro tinham? Isso quereria dizer que só existe maldade quando a sofremos independente de nós mesmos, e não quando a permitimos livremente... e que bastaria que Judas e os Fariseus se compreendessem para que o negócio fosse honesto...

O contrário seria mais verdadeiro, pois, em boa moral, uma cumplicidade culpável ou perigosa tem como resultado fazer cada qual responsável pelo próprio erro e pelo erro do outro.

Vendo as coisas superficialmente, essa doutrina parece menos odiosa e menos grave, porque foi mutuamente oferecida e mutuamente aceita. Mas só o é aparentemente, como areia movediça sobre a qual não se pode construir sólido refúgio.

Diante da consciência, que pode significar uma autorização dada num ponto em que precisamente a consciência queria justamente que se negasse? O pecado nunca foi um direito. Quem nunca o deve cometer, nunca o deve permitir. Tentador algum, seja ele qual for, não poderia trazer no seu cesto, junto com os frutos proibidos, a permissão de saboreá-los. Se ele a trouxer, você a deve recusá-la, pois será uma permissão fraudulenta, à qual falta a assinatura de Deus.

A razão que faz com que não se deva cair no buraco, também faz com que não se consinta que outro nele caia. Teoricamente, deve-se esperar que aqueles que se auxiliaram na queda também se auxiliarão a levantar-se. Mas nada há de certo e, se acontecesse, como várias vezes acontece, que ambos quebrassem a perna, que socorro eficaz poderiam prestar um ao outro? Juntos estirados, não é de supor que o esforço de cada um deles para se levantar seria inutilizado pelo peso do outro e que a mesma impotência, os imobilizaria lado a lado na lama?

Dizem: “É coisa admitida. Quase todo o mundo o faz. Quais são os jovens que não flirtam?”.

Os jovens que não flirtam são aqueles que, conscientes da própria fraqueza e do perigo que correm, e querendo conservar intacta sua integridade, adotam medidas rigorosas, as únicas eficazes.

Existem ainda jovens dessa espécie. Em número asas suficiente para não surgirem como “fenômeno”, nem como “pato branco”, nem como “carola”...

Que alegria malsã reduzir assim a zero o número dos seres intactos para, com esse processo, deixar de ajuntar uma unidade a mais ou evitar pertencer a esse número! Uma vez mais se verifica o acertado da lei que diz não crerem os impuros na pureza dos outros e que os viciados só vêem vício nos outros, como neles também. As mãos sujas sujam tudo em que tocam, os olhos embaciados sombreiam todas as coisas que enxergam e dir-se-ia que, para ver a virtude, é preciso primeiramente praticá-la. É neste sentido que muitas vezes nossas suspeitas nos julgam e a severidade para com os outros traduz nossas taras secretas.

Existem moças que não “flirtam”. Dizendo isso, nada mais faço senão afirmar a verdade contra seus acusadores maldosos, aos quais ela incomoda e que pretendem justificar-se negando-a.

Essas moças não são menos alegres, nem menos inteligentes, nem menos amorosas, nem menos modernas que as outras. São apenas mais sérias, põem mais reserva nos prazeres, mais profundeza nas ternuras. Perdem algum encanto? Não. Mas esse encanto não apaixona, tranqüiliza. Provocam menos tempestade, mas prometem mais felicidade. E aqueles aos quais só agradariam com a condição de os enlearem em seu “flirt”, merecem acaso que elas lhes sacrifiquem um pudor tão emocionante e tão precioso?

Existem moças operárias, estudantes, burguesas que não “flirtam”. É fato corrente chamarem-nas tolas. Muitas delas deixam-se impressionar. Mas não há motivo. E não é preciso refletir muito maduramente para se perceber que o insulto é muito mais ultrajante para a pessoa que ousa proferi-lo do que para o rosto que o recebe sem por ele ser contaminado.

Supondo que essas moças sejam exceção, que prova isso e a que autoriza? Prova que existem poucas consciências fortes, que as ocasiões de tentação aumentam dia a dia e, principalmente, que as vitoriosas merecem provas maiores de admiração. E autorizará também as fraquejantes a prosseguir em sua brincadeira após terem procurado canonizar seu erro? Nunca. O dever conserva sempre seu prestígio, seja qual for o número, pequeno ou grande, dos que o praticam. Mesmo quando cometido por toda a gente, o pecado sempre é pecado. O atrativo universal pode, em certos casos, explicar e mesmo até desculpar a fraqueza, mas nunca a justifica inteiramente. Se, afim de “flirtar”, procuram argumentar com a multidão daqueles e daquelas que “flirtam”, isso não passa de um ardil desastrado de pessoas que estão à procura de uma absolvição que não é bem a absolvição sacramental.

Se a roda gira, gira e ainda gira, poderá girar quando quiser, pois nunca se deterá diante do “bom número”, se por “bom número” se entende o número em cujo reverso estaria escrito com lindas letras maiúsculas, caligrafadas pela consciência, “o direito de flirtar, visto que todo o mundo flirta...”

Antes de dizer: “Quantos são os que praticam o dever para que eu saiba e estou obrigado a praticá-lo?” é preciso dizer: “É ou não é o dever?” Porque, para o homem honesto, essa é a única pergunta existente.

Existem muitas que “flirtam”. Inútil saber ao certo o número delas, pois o perigo do “flirt” é independente do número dos que o correm e o dever de abster-se dele também é independente do número dos que o permitem a si próprios.

Verdade de La Palice” pensarão. Sim, e, principalmente, “verdade do Evangelho”. Pois não é verdade que Nosso Senhor disse: “Quando um cego conduz outro cego caem ambos no precipício?”

Você já é bastante grande para concluir sozinha. Só lhe peço que tenha a necessária coragem e lealdade.

Dizem: “O flirt é juventude... é vida... é alegria”...

Sim, mas com a condição de lhe adicionar os qualificativos necessários: “É juventude... desperdiça... É vida... fictícia... É alegria... decepcionante.”

E como não havia de o ser? A verdadeira vida, a verdadeira juventude, a verdade alegria supõem um ardor que não seja sensualidade consumada, uma plenitude e profundeza interior, um amor próprio, uma paz consigo mesmo, fora dos quais só haveria desperdício e fadiga sem proveito...

Quando se diz que o “Flirt” produz alegria não se diz totalmente a verdade e está-se muito longe de traduzir, com precisão, a história íntima dos que brincam dessa forma... Existem pessoas, é certo, que encontram a felicidade em insignificâncias e que, contentando-se com muito pouca coisa, não tendo um ideal mais elevado, acreditam ter colhido a felicidade quando só tiveram um pouquinho de prazer. Por demais superficiais para exigirem muito, estão tão ausentes de si mesmas que não sabem o que lhes falta em casa. A alegria que aparentam prova principalmente o terra-a-terra de suas aspirações e o testemunho que dão, sendo sincero, não tem valor.

Mas, dentre as jovens, as que nem sempre viveram superficialmente e que, por permanecerem puras e reservadas, experimentaram a alma nos dias sombrios, elas bem sabem, ao “flirtar”, qual a felicidade que sacrificam e o pouco de felicidade que, em compensação, encontram. Mas não o reconhecem logo e não o dizem em voz alta, porque reconhecê-lo e proclamá-lo equivale a condenar-se e, diante dessa confissão, o orgulho das jovens se revolta e, não se sentindo com coragem de corrigir o erro, melhor será não o tornar público.

No entanto, quando o segredo lhes é por demais pesado, procuram um coração amigo e seguro com o qual possam desabafar. E suas confidências transformam-se em verdadeiras lágrimas, lágrimas que têm o peso do chumbo e a amargura do fel. Lágrimas que parecem feitas de água do oceano, saturadas de sal, com gosto de tempestade e desolação... E que há, então? O final sangrento da tragédia? Oh! não. O que há, e que as martiriza, é uma grande desilusão, uma vergonha impregnada de remorsos, a sensação de um grande vazio, a evidência por demais clara de que “não é isso”, a certeza torturante de ter perdido muito para o passado, e muito comprometido para futuro. Elas, que muitas vezes foram o Magnificat cantado em noites puras, são agora o Miserere gemido em noites mais ou menos culpadas. Não mais se reconhecem. Ou, por outra, reconhecem-se por demais, à luz de uma consciência que as acusa e faz com que leiam nas paredes da sala onde termina a festa: “Então é você?” 

Para quem nasceu num palácio, um casebre, é horroroso. Para quem já reinou, a escravidão é a mais das desonras. E, para aquelas que foram felizes com a felicidade proporcionada pelas comunhões piedosas num coração casto e pacífico, a alegria do “flirt” depressa se transforma em aflição, sua mentira traz desespero e as cartas que então se escrevem a modo de consolo são páginas de grande melancolia, com palavras pungentes, como se fossem gritos de desespero...

Quando se está ao serviço do dever e da inocência virtuosa nunca se deixam escapar tais queixas. Ou isso nada significa – mas quem ousará pretendê-lo? – ou então significa que nos “flirts” suspeitos a esperada descoberta da felicidade não se realizou, mas, ao contrário, se descobriu, o que, de antemão, foi dito pela consciência, mas que não era aceito enquanto o coração acabrunhado não fizesse por si mesmo a dolorosa experiência.

Agora já se sabe. Mas o que se sabe hoje, outras ainda não sabem e negarão até que por sua vez o aprendam chorando, se Deus tal graça lhes conceder.

Admite-se que só as naturezas privilegiadas são capazes de aproveitar da lição, porque só elas avaliam a profundidade do vazio cavado em seu íntimo. Mesmo quando isso acontecer, as naturezas privilegiadas merecerão que se recolham suas confidências e que nelas se reconheça a submissão da lei moral a si mesma, junto daquelas nas quais ela agora se desdobra em remorsos depois de, durante muito tempo, se haver afirmado em altivez tranqüila e radiosa serenidade.

Para as jovens de vinte anos, que, com um sorriso nos lábios, dizem tranquilamente: “O flirt é alegria”, quantas, oh! quantas dizem tristemente, com o olhar vagando no infinito: “Não, não é alegria”. Estas últimas têm razão porque “sua boca diz da abundância de coração” enquanto que outras só falam “do vazio da consciência”...

Dizem: “Mas para que tanto barulho? Não é assim tão trágico! Se o mundo inteiro se incendiasse, não se gritaria tanto...”

Minha jovem, não censure a quem tem por você, do íntimo do coração, um excessivo cuidado que só pode ser tido como prova de afeição. Preferiria você um desinteresse glacial diante do que ameaça maculá-la, diminuí-la e perdê-la?

É verdade, enquanto você ri de si mesma, a Igreja chora. Chora de inquietação a quando de vossas imprudências, para não chorar, depois da ruína, as lágrimas de Raquel diante dos campos de Roma, onde jazem seus filhos mortos.

Mostra-se assustada quando você diz alegremente que “o flirt não é grande coisa”... Não é grande coisa! Ora, o que se passa realmente é o seguinte: o pássaro, ao voar, deixa cair uma a uma suas asas e não mais pode voar... arrasta-se pelo chão, como um verme nojento... Será alegre isso?

A ovelha que seguia, terna e confiante, o pastor filialmente amado, não mais corre agora atrás dele. Foge, receia encontrá-lo, pois bem sabe, ao encontrá-lo, o que ele diria e o que perguntará. Evita os lugares por onde ele passa habitualmente. Se o vê, volta a cabeça para que não lhe faça o sinal temido de regresso ao aprisco, em vez de andar atraída por outros chamados... Será isso também tão alegre?

E ela, a grande mestra da experiência, assiste ao desenrolar do jogo cujas vítimas bem conhece. Talvez seja uma batalha sem fulgor, talvez seja uma morte sem lamentações no meio de perfumes e flores. Mas será preciso que o estertor se faça ouvir para que a morte seja verdadeira? Que as chagas sejam horripilantes para que se considerem mortais? Será mais fácil fazer ressuscitar uma morta que sorri do que uma terrível morta em esgares? E você censura-a por exagerar, por “fazer cara feia” no momento mesmo em que, do seu coração ferido e da sua alma sensível, jorra sangue. A vida espiritual, do mesmo modo, diminui a cada pecado cometido, como também o sangue diminui a cada ferida aberta.

Enquanto você está preocupada com os prazeres suspeitos, que o “flirt” proporciona, lá longe, na subida do Calvário, está ela esperando-a ansiosamente, como as mulheres bretãs esperam seus terra-nova... E isso a enerva... Então você não compreende que, em seu coração maternal, a onda das tristes recordações e dos lutos sentidos está sempre crescendo? Existem tantos perigos nas noites da vida naquelas que saem cantando para uma viagem perigosa! Onde estão agora? E à margem de que eternidade a última onda as atirará, talvez envoltas nos próprios pecados, semelhantes aos naufrágios que o oceano, à noite, joga ao litoral, cadáveres envoltos pela mortalha pegajosa das algas? A Igreja recorda-se e treme. Sua alma maternal voa em volta das próprias recordações. E, semelhante às aves marinhas que alongam suas asas brancas sobre o movediço cemitério do oceano, ela, a Igreja, abrange, com sua ternura e seu sofrimento, os entes queridos que se perderam nas infinitas profundidades da vida! E você ainda ri! Você a chama louca! Você ridiculariza seus soluços! Você a censura por dobrar a rinados quando sua negligência preferiria o toque de clarins!

Como é ingênua! Se fosse bela, seria admirada por ela. Se merecesse confiança, ninguém mais do que ela confiava em você. Mas, justamente porque ela receia, você também deveria temer. Fazendo-lhe a honra de respeitar sua angústia, você se livraria da vergonha tardia de havê-la desprezado e, desprezando-a, de se ter perdido sobrenaturalmente.

E perdido numa morte inglória. Diante de certas vítimas, inclinamo-nos com amor. As vítimas do dever e do sacrifício são veneradas. “São envoltas por um último silêncio”. Junto delas, em seu túmulo, coloca-se um pouco da terra sagrada para a qual morreram. Ficam cercadas de esperança e de paz... Mas com que divina paz cercar aquelas que, quando vítimas, não são senão vítimas voluntárias de suas imprudências voluptuosas? Não podem ser admiradas. Não podem ser citadas com orgulho.

Pelo contrário, são malquistas por sua inútil morte. E é de recear que a oração que se faz por elas não seja atendida porque, por terem rido da grande inquietude que as aguilhoava, talvez não mereçam uma misericórdia que de antemão sua insolência repelia...

“Mas não é tão trágico assim”... dirão vocês. No entanto, vocês mesmas ficam melancólicas diante das árvores sem folhas e diante das folhas que apodrecem nas árvores... E quem sabe quantas jovens dentre as que dizem “não é tão trágico assim”, sofrem secretamente como se, na verdade, o fosse! Sozinhas no meio de tanta desolação, olham a seus pés o número lamentável de todos os sentimentos que lhes caíram da alma ao impulso extenuante do “flirt”, Olham e comparam... Comparam e lastimam.

Choram “a primavera que se foi”...
E há motivo para isso.

Respeitosamente, deixemo-las entregues a seu pesar.

Apenas não mais digamos que “a Igreja fala muito”. E lembremo-nos de que, com a ternura esclarecida pela sabedoria, seus sofrimentos são sagrados e que seremos bem ingratos se os provocamos, bem imprudentes se alimentamos e, mesmo em companhia de pessoas de bem, somos perfeitamente loucos em desafiá-los...

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: O “Flirt” e suas falsas justificativas - Conclusão.)

PS: Grifos meus.
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