sexta-feira, 29 de abril de 2011

O "flirt" e suas falsas justificativas - Conclusão

O "flirt" e suas falsas justificativas


Conclusão

Em suma, o “flirt” não deve ser classificado entre as “coisas más” e, pois, absolutamente, impiedosamente, universalmente proibidas. Mas deve ser classificado entre as coisas perigosas que, muito depressa, o serão gravemente.

Ora, o princípio da moral cristã determina que as coisas perigosas devem-se fazer o possível por evitá-las e quando a elas nos expomos, deve haver um motivo tão grave quanto o próprio perigo. E tratando-se do “flirt”, quando é que se têm esses motivos? Nunca. Porque, se o grande motivo para “flirtar” deriva de querer divertir-se, quem ousará pretender que seja uma razão que constitua um direito e, em caso de pecado, possa servir de desculpa?

Mas quem determinará a medida do risco a correr? Naturalmente que o perigo não é o mesmo para todos, e nem sempre igual a todos. Certas circunstâncias tornam o perigo mais imediato. O temperamento de cada um, ora modifica o perigo, ora o diminui, ora o agrava.

Do mesmo modo, a experiência pessoal, adquirida por preço elevado, traz consigo lições decisivas. Seria uma desonestidade esquecê-las e ir procurar nos livros uma permissão que nossa consciência, instruída pela própria vida, nos recusa... Quando, apanhando um pedaço de carvão, queimamos as mãos, quem irá dizer que esse carvão estava apagado? Quando nos machucamos num galho, quem dirá que ele não tinha espinhos? E, quando se fica tonto bebendo um pouco de licor, poder-se-á dizer que é água pura?

No entanto, não é o que muitas fazem? Pecaram flirtando e protestam indignadas contra “os pretensos perigos do flirt”... Feriram-lhes a consciência, deixaram-nas semi-inconscientes às margens do caminho moral, e zangam-se quando se lhes diz que o caminho do “flirt” se assemelha ao mau caminho que descia de Jerusalém a Jericó... Desoladas pela inocência perdida e, assim que ficam um pouco consoladas, ironicamente aos conselhos que lhes dão. Têm o braço inchado e ainda dizem que a serpente não era venenosa... Estão arruinadas e, no entanto, dizem que a aplicação que fizeram do dinheiro foi excelente. Sua lâmpada, ainda cheia, apaga-se e negam que haja vento... Em mar calmo, sua barca naufraga e, presas aos destroços, gabam-se de terem manobrado na perfeição. Limpam como podem a mancha negra no vestido e juram terem rolado na farinha...

Nessas condições, está visto, é inútil falar-lhes, avisá-las, suplicar-lhes que não prossigam. Rir-se-ão. Sabem, melhor que ninguém, o que devem fazer...

Mas as que têm a coragem de ser sinceras e recebem com dolorosa submissão as lições que a vida lhes dá, encontram aí a condenação definitiva do “flirt”. Se as faltas as prejudicam em alguma coisa, pelo menos servem-lhes também para alguma coisa, é por meio delas pela misericórdia de Deus, que a derrota se transforma no benefício de servir de obstáculo a não mais pecar.

Adverte o catecismo que, quando pelo exemplo dos outros e pela própria experiência, se compreende para onde leva o “flirt”, o problema prático está resolvido. Não se flirta mais porque se sabe que não se tem o direito de o fazer...

Contra essa doutrina severa e duvidosa, ouço o protesto indignado das jovens que permaneceram puras e, certas do triunfo obtido, reivindicam temerariamente o direito de prosseguir na brincadeira. Mas, também ouço a queixa desolada e o amargo escárnio daquelas que tudo perderam. E a queixa dolorosa tem um som diferente do protesto... Suponho que também você a ouve... Muitas vidas profanadas a fazem ouvir... O estertor dos moribundos, na planície de Wagram, faz correr sobre a relva um pequeno arrepio semelhante ao provocado, num coração cristão, pela queixa de tantas e tantas almas feridas que agonizam no campo da vida.

Essa é uma revelação. É Deus que fala pelo silêncio dessas inocências mortas... É a lei moral que ainda mais se afirma pela ruína dessas consciências desmoronadas por não a haverem respeitado...

Mas existem almas que nunca se emendam. Existem outras que querem ter razão apesar de toda a evidência. Serão sinceras? Se o são, compadecemo-nos delas por serem cegas... Se não o são, compadeçamo-nos por serem tão calmamente desonestas...

Jovens que flirtam, vocês não vêem com que olhar o crucifixo pendurado na parede de seu quarto as olha? Nas encruzilhadas dos caminhos por onde vocês passam, se houver um Cristo, não se envergonham de passar adiante? E na igreja onde, apesar de tudo, vocês ainda vêm rezar ao domingo, sua consciência não ouve a palavra aflita que Judas ouviu em Gethsemani: “Meu filho, meu amigo, será por tais beijos, em tais noites, que traís o filho do Homem?” Por tê-la ouvido, muitos se puseram a chorar e suas lágrimas confundiram-se num comum arrependimento... Será pedir muito a vocês para, ao menos, não rir?

O que não se pode fazer, sem vexame, diante de Cristo, é quase sempre o que não deve ser feito. Aquilo que nos envergonha diante do Cristo-Redentor é o que nos envergonhará diante do Cristo-Juiz...

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: Vocês e vosso futuro.)
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