quinta-feira, 7 de abril de 2011

O “Flirt” e suas falsas justificativas - Segunda parte

O “Flirt” e suas falsas justificativas


(Segunda parte)

Dizem: “Já sei... já previ tudo... Não haverá surpresa para mim.”

Coisa curiosa! Depois de haverem dito: “Não sabia que era assim”, acrescentam: “Já sei do que se trata, deixem-me agir”. Como se, para defender uma causa má, ficássemos reduzidos a argumentos que se destroem mutuamente, contradizendo-nos.

A verdade é esta: não é certo que se conheça tudo, como também não o é que tudo se ignore. Ninguém é tolo para aceitar a responsabilidade de sua loucura; mas também não saberá o bastante para, em nome do que sabe correr algum risco ou temer alguma surpresa.

Um misto de conhecido e de desconhecido, de luz e de trevas, eis o que existe nesse misterioso assunto.

Se, por causa do que se sabe, é preciso que nos abstenhamos, por ser tão perigoso, também por causa do que se sabe é necessária essa abstenção, que pode ser fatal.

Já previ tudo... Não terei surpresas”. Quanta audácia em tais palavras! Nelas estão apoiadas a “esperança de não correr o risco” e a “certeza de não ser arrastada”, e é a isso que se chama “ingenuidade”. Mas que ingenuidade, meu Deus! Os tolos que “flirtam” com os tigresinhos, nas grades da jaula, são dessa espécie de ingenuidade, como também os sonâmbulos que, andando sobre a água, se espantam quando se afogam.

Eu sei... eu sei”... Você sabe? Que sabe você? Será que o “flirt” lhe revelou os últimos segredos? Para você, não terá ele escondido algum em qualquer caixinha secreta? E, quanto a você, já esgotou a experiência adquirida? No mais íntimo de sua vida certamente haverá desejos adormecidos que, à sombra da vigilante prudência, prosseguiriam em seu sono, mas você foi tão imprudente que os despertou, e eles, uma vez acordados, nunca mais adormecerão novamente...

Quando um caminho é suspeito, e pessoas experientes o atestam, evita-se passar por ele, salvo extrema necessidade. Porque outros viajantes nele têm perdido a vida, evita-se expor a própria. A morte de uns é a salvação dos demais. Ora, não é calúnia classificar o caminho “flirt” entre os caminhos suspeitos. Não que todos os que por ele transitem sejam assassinados, nem que todos os viajantes encontrem nele um bandido. Mas, enfim, aí se perdem algumas pessoas, aí se desenrolam dramas, aí se ferem joelhos. E muitos, ao terminarem a viagem, trazem a carteira vazia e o rosto ferido.

Então, respondem vocês, nem nos poderemos mexer. Temos que ficar eternamente concentradas em nós mesmas? Coser as pálpebras e os lábios? Pregar os pés no assoalho de casa? E aí, com as janelas fechadas, a consciência montando guarda, dormir, rezar, fazer tricô, transformarmo-nos em morta vida? Asfixiarmos, para que um micróbio não nos entre pela boca dentro? Transformarmo-nos em pedra, para nos santificarmos? Ignorar tudo, para ignorar o mal? Se é esse o método cristão, vá lá. Mas ele se condena pelo ridículo. Acaba julgado pelos excessos e desprezado por sua inadaptação à vida...”

Perdão, Senhorinha. Não queria causar-lhe tristeza, mas vejo que é preciso, na esperança de vir a ser-lhe útil. Você trata do assunto sob um aspecto tão falso e ousa, falsificando-a, ridicularizar uma doutrina moral digna de todo respeito, bela como todas suas “nuances”, rica de tantas experiências e cheia de tanto amor.

Onde é que você leu essa história de pés pregados ao assoalho, lábios cosidos, eterno tricotar, perto de um cão de guarda que rosna? Será que foi isso que a grande e maternal Igreja, que a ama com uma tão respeitosa ternura, encontrou em seu coração, para governar sua vida?

Você acha-a ridícula e, no entanto, é você que a torna assim, esquecendo o fundamento de suas preocupações e o sábio de seus conselhos. Viu bastantes filhos seus filhos morrerem, e assiste-lhe o direito de proclamar de que morreram eles. Pense que as prudências que lhe impõe revelam nela uma grandiosa idéia que faz de você, muito mais grandiosa do que as reveladas, nas outras, pelas incríveis liberdades de que gozam. Fechando-lhe certas portas, assegurava-lhe a salvação, ao passo que outras, ao se abrirem para você, perdê-la-ão para sempre. Quem a ama com mais vigor, ela ou eles?

Mesmo que seu coração, já seduzido, não ouse responder que é ela, pelo menos sua consciência deveria ter essa coragem... Lembre-se também de que, mesmo que ela tivesse de você senão restos a recolher, ainda assim se abaixaria para apanhá-los!

Quantas vezes essas infelizes que menosprezaram seus conselhos, quando viviam na loucura, se sentem bem felizes, não mais tendo a quem recorrer senão a ela, por poderem contar com seu perdão chegada a miséria... E eis o que ela lhe diz, em sua mais estrita verdade:

Minha filha, não te proíbo que sejas feliz. Ao contrário, quero que o sejas. Mas proíbo que sejas culpada, porque creio em ti e te amo. Melhor que tu, conheço a vida e tua fraqueza perante ela. Minha experiência é longa, grande e profunda. Já vivi muito para ter ilusões. Já chorei muito para não ver o mundo senão através de minhas lágrimas.

Eu é que sei, tu não sabes de nada. Podes confiar em mim, já sou uma velha. Podes crer em mim, porque também sou jovem. Tanto jovem quanto velha, com a sabedoria dos velhos e o ardor dos moços.

Teus sonhos, tuas tentações, teus ímpetos, tudo isso compreendo muito bem. Exijo tanto quanto desculpo.

Não te peço nem que sejas triste, nem que deixes de sorrir, nem que não mais ames. Olha: as que me são fiéis têm acaso o aspecto de mártires? Não sentes uma alegria brilhar em seu rosto e proclamar a paz de que está cheia sua alma, juntamente com a humilde altivez com que recompensa sua consciência?

Existe uma felicidade verdadeira, mas também existe uma falsa. É a primeira que desejo para ti. Diverte-se honestamente e alegrar-me-ei com tuas brincadeiras.

Se enrugo as sobrancelhas quando fazes bobagens, se te repreendo quando abusas, é porque te vejo deslizar para o abismo, onde tantas de tuas companheiras perderam a alma. Sei que então te aborreço, Então ficas amuada comigo, falas mal de mim, repeles-me como uma mamãe fora de moda. E, em meu coração, tuas admoestações são-me dolorosas, injustas e más. Sinto ter que te causar tristeza. Mas, responde, visto ser meu amor quem me leva a isso, deixa-me impedir-te a passagem e, ao invés de afastar meus braços, joga-te a eles e neles permanece.

Existe felicidade onde te indico. Fora daí há... Oh! que o digam aquelas que hoje perdidas por terem ouvido outras vozes que não a minha e não terem compreendido que, ao te recusar o prazer perigoso, é a alegria profunda que te dou.

É-me suficiente – (e deve sê-lo também para ti) que mais tarde me agradeças e que tua alma, salva me dá razão na eternidade.”

Dizem: “O ‘flirt’ é a aprendizagem do amor. Ora, não será necessário fazer essa aprendizagem a fim de nos livrarmos das desilusões e obtermos preciosa experiência?”

Pois bem, não é “flirtando” que se aprende a amar. É preciso que se saiba o que é amar porque, da idéia que se tem do amor, depende o modo de nos prepararmos para ele.

Se amar consiste em “dois se divertirem”, ser um para o outro apenas uma ocasião de divertimento..., ser egoísta sob uma aparência de grande ternura..., se é, pondo de lado a lei moral, uma obediência cega aos ímpetos do instinto que atrai um ser a outro..., se é o prazer legitimado só porque ambos o desejam e o permitem um ao outro..., se é abundância de declarações amorosas e abundância de provas...., se, enfim, é a satisfação mais ou menos sensual procurada em comum, sem que sobre ela pese o incômodo de qualquer controle nem que, diante dela, se levante o dedo acusador do dever..., se é a isso que chamam amor e a nada mais a não ser isso, apenas aliado à timidez dos principiantes e à inconstância dos inexperientes.

Mas uma moça cristã não deve aplicar-se tal definição de amor e, igualmente, não tem o direito de se permitir as conclusões práticas que encerra.

Além da simpatia que misteriosamente atrai os seres, além das declarações amorosas e das provas que o demonstram, desenvolvendo essa mesma simpatia, existe no amor cristãmente compreendido um fundo essencialmente de dedicação, uma capacidade de sacrifício, um desprendimento de si para a felicidade do outro, uma reciprocidade de deveres numa sincera fidelidade, que fazem do amor muito mais do que um instinto e lhe dão, como lei, outra coisa que não é a lei egoísta e caprichosa dos desejos. Tudo isso a jovem não pode ignorar no momento do casamento, pois é esse o objeto sagrado das promessas matrimoniais.

Como é, pois, que o “flirt” pode ser uma preparação para um amor assim compreendido, visto não passar de uma falsificação? Tanto nesse assunto como em outro qualquer o cristianismo é que tem razão e vê-se o ridículo de um método que ensina a preparar para uma coisa pela prática do oposto.

O amor cristão é o amor de uma só por um só. Segundo o que se admite por aí a fora, o “flirt” é o amor (se é que é amor) de uma por muitos, de muitos por uma.

O amor cristão é profundo, abrange a vida no que ela tem de mais íntimo... O “flirt” é o amor superficial abrangendo somente uma pequena parte do coração, mas uma grande porção da alma e, se abrange os sentidos, então a coisa não tem limites...

O amor cristão é um amor definitivo, mais durável do que os encantos que talvez o provocaram, mais estável do que o terreno movediço da paixão sensual, e sofrendo, ao menos por fidelidade, as decepções que porventura tiver, e vencendo o próprio cansaço... O “flirt”, que não está empenhado em promessa alguma sagrada, goza de sua liberdade e abusa dela. O “até que a morte nos separe”, magnífico e terrível, não está escrito na parede do quarto onde ele esconde a felicidade facilmente conquistada. O “flirt” é todo ele mudança, capricho, incerteza, contínuo jogo de saídas e regressos, juras e ameaças... E a fórmula: “Um ‘flirt’ por ano... um ‘flirt’ por mês” nada tem de chocante para os princípios admitidos e nem, infelizmente, de desfigurante para a realidade.

Preparar-se para o amor por meio do “flirt” seria o mesmo que preparar-se para praticar o alpinismo dormindo indolentemente na areia quente das praias. É julgar que se tornará o gosto do trabalho por meio da preguiça e que, de tanto rolar como a água, se ficará imóvel como o rochedo.

Existem casos, e as próprias interessadas o confessam, em que, após desejar uma moça para cúmplice de seus “flirts”, o rapaz não a queira para companheira de sua vida e para mãe de seus filhos. E quem o censurará por isso? Agindo dessa forma demonstra ser prudente, embora haja quem o julgue cruel. Conheceu a leviandade de uma criança, verificou até que ponto ela era moralmente inconsciente e frívola, conhece agora as reduzidas garantias que ela dá para o futuro, julga-a de acordo com o que ela revelou de si mesma, perde a confiança nela, que não soube fazer-se respeitada nem estimada...

E tira a conclusão e vai-se embora... E ela o fica vendo afastar-se... Seria muito feliz se, pelo menos, a lição lhe servisse de emenda e se, mais avisada, corrigisse ao mesmo tempo seu procedimento seu coração!

É amando que nos preparamos para o amor. É dedicando-nos aos pais que desenvolvemos, para o futuro, a dedicação conjugal... É tornando-vos fieis, apesar de tudo, às legitimas afeições do tempo de moças que vos assegurais, e aos outros também, a garantia de virdes a ser esposas fieis.

Dizer que o amor não se improvisa é pronunciar uma sentença acertada, mas também é atirar contra o “flirt” a mais terrível palavra com que ele possa ser atingido. Se ele, de fato, preparasse para o amor, este o autorizaria. E como, ao invés de prepará-lo, torna irrealizável aquilo que o amor tem de mais grandioso, o amor o condena...

Você protesta? Oh! não proteste. Reflita um pouco, calma e lealmente, e depois, obrigando o coração a calar por um momento suas revoltas, escute o que diz a consciência e, segundo o que ela responder, conclua-se, sim ou não, o “flirt” prepara o amor com que você desejaria ser amada para toda a vida...

Dizem: “Isso me é indiferente”.

E essa frase “Isso me é indiferenteé pronunciada com um leve trejeito, como se tal dito, que nada aparenta, não fosse monstruoso nos lábios de uma cristã.

Como arrebatamento passageiro, poderia ser ouvido tão despreocupadamente como quando foi pronunciado. Esperemos, no entanto, que não passe disso. Mas quando é coisa diversa de arrebatamento e, ao ser considerado um estado de alma, quem o pronuncia não confessa uma derrota? Dito por assassino diante de sua vítima, revolta e suprime a vontade de o perdoar. E será menos odioso quando pronunciado por uma jovem diante do espetáculo dos erros provocados pelo “flirt”? O riso malicioso que brota do mesmo lugar em que se desejariam lágrimas de arrependimento é que revela até que ponto o mal penetrou, extensa e profundamente.

Porque “não lhe deveria ser indiferente”. Nem diante de Deus, nem diante dos outros, nem diante de si mesma deveria ela simular tal serenidade. Equivaleria a rir diante dos náufragos, em noite de tempestade, ou a dançar diante de um cortejo fúnebre...

O caso não é totalmente diferente. Alguns mesmo, e, com razão, acham que é ainda mais grave, porque um naufrágio da alma faz vítimas eternas e nada há tão triste como ver uma virtude seguir o caminho do cemitério...

No entanto, o Evangelho não é assim tão brando diante de tamanha indiferença. Para julgá-la, tem palavras terríveis. E poder-se-á esquecer, quando se leu uma vez, a sentença implacável que Jesus profere contra os escandalosos? Diante de semelhante condenação, como ousar pronunciar: “isso me é indiferente”? Objetarão que o “flirt” não é escandaloso. Responderei que, chegado a um determinado ponto de audácia e em presença de certos resultados funestos, é, ao contrário, o escândalo propriamente dito, visto ser, para uns, a ocasião de outros pecarem.

Se a angústia do mal que comete ou fez cometer representa, no culpado, um despertar de nobreza moral, a indiferença do “isso me é indiferente” não pode deixar de revelar quanto se caiu. Esse modo de imitar Caim ou Salomé tem qualquer coisa de odioso e miserável. A vergonha de Davi fez seu rosto belo. A fanfarronice das namoradeiras culpadas torna-as feias e enoja.

As que hoje dizem: “Isso me é indiferente” não o diziam antigamente. Houve um tempo, não tão distante assim, em que só a simples idéia de tocar numa beleza intacta, como o fito de maculá-la, de agitar uma virtude tranqüila com o fito de perturbá-la, as teria indignado. Naquele tempo acreditavam nas responsabilidades que pesavam sobre seus ombros, nas contas que deveriam prestar de sua alma e da alma dos outros... Mas esse tempo já passou... Referem-se a ele de modo desprezível, como a um tempo de estúpida ingenuidade e de ridícula candura. E, entretanto, esse era o tempo – e não ousarão negá-lo – da consciência, das alegrias puras e pacíficas do sorriso original, dos olhos sem ar perturbador, do coração generoso... Riem-se dele agora porque já passou... Flor já fenecida, mas que ainda se julga bela apesar de ter perdido, sua primeira frescura e seu primeiro perfume.

Se, por acaso, existe uma idade em que os seres merecem respeito, admiração, confiança e amor, não será essa idade em que os sonhos estão despovoados de visões, em que os olhares sinceros e profundos só têm inocência em suas confissões, e o coração, apoiado na consciência, se ama, é sem pecado, e, que as almas vivam e, desde que não pode contar com um amor que quer ser total e eterno?

Isso me é indiferente”. Mas “não é indiferente a Deus”, que deseja que os seres se auxiliem mutuamente a subir em vez de se auxiliarem na queda para o abismo. “Não é indiferente a Jesus Cristo”, que morreu para que as almas vivam e, desde que não pode contar com a colaboração das mundanas e das viciosas na obra da salvação do mundo, pelo menos tem o direito de esperar que as moças cristãs não adicionem a mal já tão difundido o mal sem desculpa da leviandade que tenta e da indiferença que desafia...

Aqueles de nossos irmãos para os quais Cristo morreu”; no dizer de São Paulo, não são um campo de experiências onde se mede o poder de sedução. Também não são um monte de ruínas dignas de admiração. Não são muito menos uma fraqueza com a qual nos divertimos para, em seguida, desprezarmos por causa de suas derrotas. São, sob o sol de Deus, uma beleza a ser respeitada quando intacta e, quando não mais o é, a tentar restaurar.

Para o compreender, basta ter um coração fraternal e, sem ser uma santa, não ser uma miserável...

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: O “Flirt” e suas falsas justificativas - Terceira parte)

PS: Grifos meus.
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